No dia a seguir à tempestade, a maioria dos funcionários da empresa de produção de pasta de cerâmica apareceu para trabalhar. Muitos já tinham noção do que se tinha passado devido aos estragos nas casas, mas outros só perceberam a real dimensão do temporal da madrugada de quarta-feira da semana passada quando se puseram a caminho das instalações da Adelino Duarte da Mota, nas Meirinhas, em Pombal.
“Vivo a dez minutos daqui, mas nesse dia demorei uma hora a chegar cá por causa das árvores caídas. Evitava umas, fazia um desvio e apanhava outras”, afirma ao Observador um funcionário da empresa, que relata o choque de se deparar, na chegada ao destino, com uma das fachadas da empresa com grande parte do revestimento de painéis metálicos arrancado pelo vento. Da fachada norte é possível ver as máquinas a partir do exterior.
O que aconteceu a seguir foi resultado da união de todos os trabalhadores que diariamente faziam rolar a empresa de transformação de matérias-primas para a indústria cerâmica. A limpeza das árvores caídas no recinto fabril, de painéis metálicos e até de portões arrancados aconteceu pelas mãos dos mais de 100 trabalhadores daquela unidade. “Tivemos aqui funcionários dos escritórios até aos quadros superiores a ajudar”, relata o funcionário.
Não há memória de nada parecido. “Nunca tínhamos tido danos como estes, a arrancar-nos as coberturas todas e as fachadas. São estragos catastróficos”, admite. Oito trabalhadores estavam no local quando a tempestade chegou ao seu pico, tiveram de se barricar no interior de uma sala protegida, mas não ficaram feridos.

Apesar de significativos, os danos na ordem das dezenas de milhões de euros na empresa não seriam impeditivos, por si só, da retoma da produção. A administração já recorreu a empresas da zona de Aveiro — uma vez que as da zona já estavam saturadas de pedidos — para a reconstrução da estrutura danificada e os danos na maquinaria não abrangem algumas das unidades. Mas havia, desde a manhã de quarta-feira (28 de janeiro), um impedimento claro: a falta de eletricidade.
Sem previsão da retoma por parte da E-Redes, começou a estudar-se a hipótese de ser a empresa a gerar a própria energia dentro do sistema da fábrica, com muitas dúvidas em relação ao sucesso da missão. Depois de três dias e três noites de trabalho ininterrupto de vários trabalhadores da empresa, às 11h30 de sábado, a Adelino Duarte da Mota tinha uma das secções de produção a funcionar, mesmo sem eletricidade e sem recorrer de forma direta a um gerador.
Esta quinta-feira, além de garantir de forma independente a atividade de vários setores de produção, direcionou a energia de uma das três centrais de cogeração para alimentar mais de 150 casas que ainda não tinham energia na localidade de Leiria.
Turbina foi a chave para produzir energia de dentro para dentro
“Os stocks estavam a ir abaixo, mas a possibilidade de estar a trabalhar com a cogeração em ilha permite produzir energia para a própria unidade“, garantia no sábado passado, Sofia Batista, uma das administradoras da empresa, que explicava que esta energia interna permitiu arrancar as máquinas de secagem do material que produz a pasta de cerâmica, o elemento central da produção.
A responsável fez também questão de apresentar os três trabalhadores responsáveis pelo feito, na sala onde a turbina que produz a energia está guardada. Os funcionários relatam as noites sem dormir e as muitas horas de cálculos e testes para se chegar à solução final.
Através de um pequeno vidro é possível ver a turbina que é a chave da produção em ilha. “É uma turbina como se fosse a de um avião 737, da marca Rolls-Royce, que funciona a gás natural“, explica o diretor. “Funciona como se fosse um queimador que liberta gases de escape”, acrescenta e diz que “esta massa de ar quente é aproveitada para a secagem dos atomizadores”.

O processo continua na mesma turbina “que tem um veio que está ligado a uma caixa de velocidades para um alternador que produz energia elétrica”. Esta, em circunstâncias regulares, era até agora vendida para a rede pública. Após três dias de testes, foi possível redirecioná-la em parte para as próprias máquinas de produção.
O maior desafio para chegar ao resultado, esclarece Fernando Leite, diretor de operações da unidade e membro da comissão executiva do grupo MCS Portugal, foi perceber como arrancar o sistema com a nova funcionalidade, que nunca tinha sido testada, nem sequer após o apagão de abril do ano passado.
Foi preciso um gerador ficar responsável pela alimentação do arranque da cogeração. Depois disso perceberam que a turbina era suficiente para conseguir autonomizar a produção, ficando independente do regresso do fornecimento de energia pública.
“Esta foi a nossa luta noite e dia”, diz Sofia Batista, admitindo que, se estivessem dependentes da reposição da E-Redes, não teriam conseguido retomar a produção naquele momento.
Ao quarto dia sem eletricidade, viu-se “fumo”. Empresa contribui agora para dar energia a mais de 150 casas
“Acabámos de informar os nossos principais clientes de que a unidade neste momento está operacional dentro destas circunstâncias”, afirmava no sábado Sofia Batista. Os maiores clientes da empresa com sede em Leiria são a Vista Alegre e uma unidade que produz para o Ikea.
A produção daquele polo é focada essencialmente em pastas cerâmicas que “são uma mistura de vários minerais processados que o cliente pode conformar diretamente”, explica. “Neste caso estamos a falar de pós atomizados e granulados que são utilizados na produção de revestimentos — azulejos a pavimento — e de louça de mesa”.
No exterior da fábrica era possível assegurar que a produção estava mesmo a acontecer. O “fumo” a sair da chaminé era a prova disso. Não é fumo, é “vapor de água”, corrige Fernando Leite. No interior da fábrica, o barulho das máquinas também não deixa margem para as dúvidas, mesmo sem eletricidade disponível, o granulado de cerâmica estava a ser produzido e cai em grandes depósitos, como acontecia até à madrugada de quarta-feira.

Esta quinta-feira, Fernando Leite relata ao Observador que os avanços foram além da garantia de auto sustentabilidade que o Observador testemunhou em primeira mão há alguns dias. “Graças às unidades de cogeração conseguimos fornecer energia para toda a comunidade circundante”, assegura.
Em articulação com a E-Redes, esta quarta-feira, data que assinalou uma semana da passagem da tempestade Kristin, foi restabelecido o fornecimento de energia elétrica a três Postos de Transformação Públicos, que alimentam 156 habitações nas Meirinhas, bem como parte da iluminação pública, a partir da energia produzida por uma das centrais de cogeração.
Ao Observador, Fernando Leite destaca a “colaboração incansável” da E-Redes e dos seus funcionários para conseguirem, não só garantir que parte da produção da empresa é assegurada, mas sobretudo contribuir para iluminar quem desde o temporal que devastou a região de Leira ainda não tinha tido acesso a eletricidade.
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