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A peça de teatro inédita em que Fernando Pessoa trabalhou ao longo de 30 anos vai ser finalmente publicada

"The Duke of Parma", tragédia fragmentária em inglês inspirada em Shakespeare, será publicada pela primeira vez, em versão digital, pela Universidade de Parma. Pessoa dedicou-lhe quase toda a vida.

Rita Cipriano
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No final do mês de fevereiro, decorrerá em Parma uma conferência única. Durante o encontro, organizado pela universidade dessa mesma cidade italiana, será lançado o arquivo digital de The Duke of Parma (“O Duque de Parma”), uma tragédia em inglês de Fernando Pessoa. A peça integra uma parte menos conhecida do espólio do poeta — a do teatro em língua inglesa — e nunca foi publicada. A divulgação integral do texto permitirá, pela primeira vez, analisar uma obra que Pessoa desenvolveu, de forma intermitente, ao longo de mais de 30 anos, o período mais longo período que dedicou a um único projeto literário.

Pessoa começou a trabalhar em The Duke of Parma entre 1908 e 1909, na mesma altura em que estava a desenvolver outro projeto dramático, mas em português: Fausto. Ao contrário de muitos outros projetos, que abandonou assim que os iniciou, Pessoa continuou a debruçar-se sobre The Duke of Parma até 1935, o ano da sua morte, produzindo, até essa data, mais de 170 documentos, que deixou depositados na sua arca e que hoje se encontram na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa. Pessoa não dedicou um tanto do seu tempo, ainda que não de forma sequencial, a nenhum outro texto. Nem a Fausto, no qual trabalhou até 1932 ou 1933, nem ao Livro do Desassossego, escrito entre 1913 e 1934. E isso faz com que ocupe um lugar especial na sua obra.

“Não é apenas um exercício do jovem Pessoa, que estava a tentar imitar um modelo como Shakespeare, que, para ele, era um ponto de referência fundamental”, disse Enrico Martines, professor e coordenador do projeto da Universidade de Parma, ao Observador. “Foi algo que o ocupou e preocupou praticamente toda a vida, mas que, como tantas obras de Pessoa, não chegou a ter uma forma acabada.” E, só por isso, vale a pena publicá-lo e estudá-lo.

Uma peça conhecida há 60 anos que nunca viu a luz do dia

Apesar de só agora ver a luz do dia, a tragédia The Duke of Parma é conhecida dos investigadores, pelo menos, desde 1966, quando o crítico alemão Georg Rudolf Lind, que teve acesso a centenas de originais de Pessoa, a mencionou, juntamente com outras peças dramáticas em inglês, entre as quais Prometheus Rebound, a propósito das suas descobertas junto do espólio pessoano. O texto voltou a ser referido nos anos 70, primeiro por Teresa Rita Lopes e depois por Anne Terlinden. Ambas as investigadoras destacaram o facto de as peças em inglês de Pessoa nunca terem sido publicadas, uma situação que permanece praticamente inalterada.

Inspirada pela linguagem, forma, temas e ambiente do drama shakespeariano, a história passa-se em Parma, Itália, provavelmente no período renascentista, muito popular na época vitoriana, “que é, afinal, a época em que Pessoa se formou na África do Sul”, apontou Enrico Martines, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Parma.

A tragédia foi sendo referida, aqui e ali, por diferentes investigadores, ao longo dos anos. A menção mais recente consta da biografia de Fernando Pessoa de Richard Zenith, publicada em 2021 em inglês e, no ano seguinte, em português. “Uma das mais estranhas e compridas peças que Pessoa tentou escrever”, The Duke of Parma é “uma peça em cinco atos na qual loucura, sexo e abstinência sexual eram temas proeminentes”, escreveu Zenith, constatando que, apesar de não ter sido escrita “sequencialmente, tendo as ideias do drama mudado constantemente”, “a história enterrada no texto está relativamente bem desenvolvida”.

Inspirada pela linguagem, forma, temas e ambiente do drama shakespeariano, a história passa-se em Parma, Itália, provavelmente no período renascentista, muito popular na época vitoriana, “que é, afinal, a época em que Pessoa se formou na África do Sul”, apontou Enrico Martines, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Parma. A personagem principal é o duque que lhe dá nome, uma figura que “mostra ter um certo nível de loucura ou que, pelo menos, utiliza a loucura para dizer aquilo que pensa e para provocar possíveis inimigos dentro da corte. Ele utiliza uma linguagem muito direta e tem uma clara postura misógina, de repulsão contra o sexo feminino, em especial, e o sexo como ato em geral”. A aversão pelas mulheres tem o seu ponto alto numa cena a que Pessoa chamou “cena do homicídio”, na qual o duque atira a mulher de um parapeito, concretizando de forma violenta um discurso que, até então, era apenas teórico.

O aspeto misógino de Duke of Parma foi salientado por Zenith na sua biografia de Fernando Pessoa e será abordado por Enrico Martines durante a conferência em Parma, no final de fevereiro. A comunicação, intitulada “Sexuality and misogyny in Fernando Pessoa: The Duke of Parma’s contribution to the topic” (“Sexualidade e misoginia em Fernando Pessoa: a contribuição de The Duke of Parma para o tópico”, abordará o que “a peça acrescenta ao que já se escreveu sobre o tema da sexualidade e misoginia de Pessoa”, abordado em livro por José Barreto.

Apesar do caráter fragmentário e de alguns dos documentos datarem de uma fase inicial da produção literária de Pessoa, quando o autor tinha cerca de 20 anos, é interessante notar que a tragédia aborda temas fundamentais da obra pessoana, que fascinaram o escritor ao longo de toda a sua vida, como é o caso da sexualidade, já mencionada, mas também da loucura. Para Pessoa, o tema da loucura não tinha um interesse apenas literário — interessava-o também de um ponto de vista pessoal, porque a sua avó paterna, Dionísia Seabra, era louca. Pessoa questionava-se se um dia também ficaria louco como a avó Dionísia. “A loucura é um tema fundamental, e a linguagem é outro tema que está dentro da peça”, acrescentou Enrico Martines. “O uso da linguagem, da linguagem como forma de poder e também como máscara. Parece que o duque se está a esconder atrás de uma máscara, mas, no fim da peça, quando se retira para o castelo, acaba por ser realmente louco.”

A primeira pessoa a apresentar um projeto para trabalhar o manuscrito de The Duke of Parma, guardado em duas pastas na BNP, foi Carlos Pittella. O investigador, responsável pela edição de Fausto (2018) e Marino, outra das peças em inglês de Pessoa (2020 e 2021), não pôde dar continuidade à ideia, que acabou por ser herdada pela Universidade de Parma, como explicou Enrico Martines: “Em 2022, formei essa ideia, essa intenção, de fazer alguma coisa com o The Duke of Parma. Como trabalho para a Universidade de Parma, tinha algum sentido, e formámos a equipa”.

Depois de obtido o respetivo financiamento junto da universidade, o projeto, com uma duração de dois anos, arrancou. A transcrição foi iniciada em março de 2024 e terminou apenas recentemente. Para a leitura e transcrição dos mais de 170 documentos do espólio, foram formadas duas equipas, uma em Lisboa e outra em Bogotá, Colômbia, compostas por jovens académicos que se dedicaram a tentar compreender a letra quase ilegível de Pessoa, sob a orientação dos professores João Dionísio e Jerónimo Pizarro, em Lisboa e Bogotá, respetivamente.

“Embora seja fragmentária, a peça tem uma estrutura, tem planos. Pessoa deixou planos e a nossa equipa também estudou os manuscritos tendo em conta esses planos, para poder colocar os fragmentos no lugar certo. Portanto, não deve ser impossível editar, fixar o texto, claro que com muita margem de interpretação da parte do editor, mas tudo é interpretação.”
Enrico Martines, coordenador da investigação

Foram também convidados a participar investigadores de áreas diferentes, como Diego Saglia, especialista em literatura inglesa da Universidade de Parma, e Paola Volpini, historiadora da mesma universidade. No caso de Paola Volpini, a historiadora acabou por não colaborar com o projeto, porque a peça não inclui qualquer referência histórica à cidade italiana. Até ao momento, não foi possível descobrir porque é que, de todas as cidades italianas, Pessoa escolheu Parma. O objetivo era “formar uma equipa, um projeto, que pudesse não só ler para poder transcrever, editar o arquivo digital destes materiais, mas também estudar os materiais de várias perspetivas, vários pontos de vista”, afirmou Enrico Martines, acrescentando que a equipa começou “logo a transcrever”. “E foi um trabalho que, evidentemente, acabou há pouco tempo e que ainda estão a rever.”

Foi a primeira vez que se fez a transcrição de um manuscrito de Pessoa envolvendo uma equipa internacional, composta por investigadores que trabalharam a partir de diferentes localizações. Carlos Pittella, que apesar de não ter participado, tem acompanhado de perto o trabalho da equipa coordenada por Enrico Martines, destacou, em conversa com o Observador, o quão interessante é a aplicação dessa nova metodologia de pesquisa. Constatando que seria “um trabalho impossível de uma pessoa fazer sozinha”, tendo em conta o elevado número de documentos e as dificuldades inerentes ao trabalho de transcrição, o investigador disse The Duke Parma fez nascer “quase um novo modelo de edição, no qual grupos diferentes fazem uma parte do projeto e revêm a parte que foi feita pelos outros [investigadores]. É quase uma peer review interna”, afirmou.

O mais duradouro projeto literário de Fernando Pessoa (e o que ele diz sobre o poeta)

A 23 de fevereiro, o primeiro dia da conferência internacional de dois dias que juntará em Parma todos os envolvidos no projeto The Duke of Parma, ficará disponível online o arquivo digital que apresentará, pela primeira vez, o texto integral da tragédia, tal como se encontra guardado no espólio na BNP: os materiais foram organizados “pela cota, pela ordem em que estão arrumados no espólio”, mas a transcrição foi feita “sem fixação de texto”, não sendo ainda possível apresentar uma edição crítica do texto, explicou Enrico Martines.

Essa será a segunda conferência dedicada exclusivamente à peça em inglês de Pessoa, depois de um primeiro colóquio ter sido realizado na Universidade de Parma em 2023, durante o qual foram apresentadas as primeiras conclusões preliminares acerca da obra. O arquivo digital será apresentado durante a primeira comunicação do dia, por Enrico Martines e Elena Lombardo, especialista na publicação digital de manuscritos. Ao longo dos dias 23 e 24 de fevereiro, serão feitas muitas outras comunicações e mesas redondas, durante as quais se discutirá a obra de diferentes perspetivas, numa primeira abordagem que se pretende que abra portas a outros projetos e discussões futuros.

Um dos desafios futuros que será discutido durante o encontro em Parma, será a necessidade de encontrar um modelo para a realização de uma possível edição crítica de The Duke of Parma. “Na mesa redonda que vai encerrar o colóquio, vamos discutir o futuro, qual é o próximo passo. O projeto financiado pela Universidade de Parma é bienal e acaba exatamente no fim de fevereiro. Vamos conversar sobre quais são as opções futuras, que incluem, evidentemente, uma possível edição crítica, em livro ou em edição digital”, explicou Enrico Martines, destacando que “é mais difícil encontrar um modelo para um texto desta natureza”, fragmentário e disperso por um número elevado de documentos, do que para outro tipo de produção literária. “Um exemplo que pode servir de modelo é o Fausto”, sugeriu. Mas cada texto é diferente apresenta os seus próprios desafios. Felizmente, a Universidade de Parma pode contar com a ajuda de “um bom número de filólogos com experiência na edição pessoana, que podem conversar e chegar a uma decisão sobre isso”.

Para Carlos Pittella, não há dúvida que “The Duke of Parma, do Pessoa, é uma coisa importantíssima”. É “do tamanho do Fausto, só que em inglês, e essa peça esteve sempre inédita. Tal como o Fausto, foi uma coisa que assombrou Pessoa a vida toda. Ainda não sabemos qual a relação de The Duke of Parma com Fausto e os heterónimos, mas é uma coisa a pensar. E é claríssima a relação de Duke com a obsessão de Pessoa com a loucura”, comentou o investigador. A relação da tragédia com os temas que eram mais caros a Pessoa, literariamente e não só, é também, na opinião de Enrico Martines, uma das coisas que se pode retirar do estudo mais aprofundado de The Duke of Parma.

"A personagem principal é o duque que lhe dá nome, uma figura que “mostra ter um certo nível de loucura ou que, pelo menos, utiliza a loucura para dizer aquilo que pensa e para provocar possíveis inimigos dentro da corte. Ele utiliza uma linguagem muito direta e tem uma clara postura misógina, de repulsão contra o sexo feminino, em especial, e o sexo como ato em geral”
Enrico Martines, coordenador da investigação

“Esta peça também diz muito sobre as projeções do próprio homem Pessoa, por exemplo, sobre temas tão importantes na biografia dele como a loucura, a sexualidade, a misoginia, a identidade, as máscaras, o poder”, afirmou o coordenador. “Do ponto de vista temático, é muito interessante. Tendo em conta que foi uma obra que o acompanhou durante tanto tempo e que ele nunca deixou de lado, nunca abandonou, acho que vai acrescentar bastante ao conhecimento de um autor como Fernando Pessoa. E faltava, de facto.”

Por outro lado, é também possível aprender algo sobre o “processo de criador de Fernando Pessoa”, sobre a “maneira como ele criava, desenvolvia as suas obras”. É precisamente a essa questão que se está a dedicar a investigadora Carlotta Defenu, da Universidade de Parma, que está a trabalhar numa tese de pós-doutoramento sobre a génese de The Duke of Parma, financiada por um programa da União Europeia. O estudo de Carlotta Defenu, que não integra a equipa coordenada por Enrico Martines, contribuirá de forma determinante para um melhor conhecimento da peça e da obra teatral de Pessoa.

Recordando uma intervenção de Patricio Ferrari durante a qual o investigador argentino declarou que era necessário editar The Duke of Parma, Enrico Martines salientou que, agora, 60 anos depois da primeira referência por Georg Rudolf Lind, “temos conhecimento de todo o material”. “Embora seja fragmentária, a peça tem uma estrutura, tem planos. Pessoa deixou planos e a nossa equipa também estudou os manuscritos tendo em conta esses planos, para poder colocar os fragmentos no lugar certo. Portanto, não deve ser impossível editar, fixar o texto, claro que com muita margem de interpretação da parte do editor, mas tudo é interpretação.”

Mas, primeiro, é preciso lançar a transcrição e o arquivo digital. A viagem de The Duke of Parma da obscuridade para a luz está só a começar.

A conferência internacional “Unveiling The Duke of Parma” decorrerá entre os dias 23 e 24 de fevereiro, na Universidade de Parma, Itália. O programa será divulgado brevemente.