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(A) :: O exemplo de não saber dar o exemplo

O exemplo de não saber dar o exemplo

Assistimos a um clima de suspeição e incriminação constante ao longo da campanha numa lógica de N-N (todos contra todos), ensanguentando as diferentes candidaturas.

António Crespo de Carvalho
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No desfecho de mais uma campanha para as eleições presidenciais, denoto, como cidadão português, o crescimento – ou talvez a confirmação – de alguma inquietação interior. Não pretendo debruçar-me sobre visões políticas de cada candidato – outros fóruns o proporcionarão. Inquieta-me, sim, o silêncio quase absoluto sobre funções não declaradas do Presidente da República – doravante PR: a promoção, elevação e exigência na escolha dos nossos quadros políticos, e a criação de mecanismos para o pleno exercício de tais responsabilidades.

Inserem-se nas competências do PR a garantia da independência, o regular funcionamento das instituições democráticas, o comando das forças armadas, a promulgação das leis (com poder de veto) e a representação internacional do nosso país. Distribuem-se também, dentro de cada uma das dimensões, diversas tarefas dispersas por assessorias. Até aqui, nada de particularmente ambíguo, certo?

Mas não seria sério reduzir o cargo de PR ao estrito cumprimento das suas competências formais. Precisamos do ‘nice to have’ apreciado no léxico linkediano que, ancorado num poder negocial forte, poderá deixar marcas duradouras na vida de todos nós. Deve ou não o PR assumir-se como uma figura de referência para a atração de novos quadros na política portuguesa? Deve ou não exigir aos partidos políticos critérios rigorosos e mensuráveis na escolha dos ministros ou secretários de estado? E deve ou não o PR influenciar as instituições democráticas para que quem exerce ou se candidate a um mandato político o possa fazer livremente sem que a sua vida privada – familiar e profissional – seja sistematicamente desdenhada na praça pública?

Ao contrário de um diretor empresarial, um PR não escolhe equipas, mas deverá servir-se da liberdade democrática e magistratura de influência para impor limites, definir barreiras e premiar ou punir desempenhos. A sua autoridade permite-lhe, por exemplo, propor ao parlamento a definição de matrizes de requisitos técnicos e comportamentais na escolha dos ministros; distinguir os governos pelas suas nomeações de quadros fomentando o alargamento das suas equipas perante a obtenção de resultados mensuráveis; recentrar e estimular os governos na perseguição de objetivos concretos futuros introduzindo ciclos formais de avaliação interna; consolidar visões independentes da sociedade civil (empresas, hospitais, escolas, universidades) como barómetros de qualidade baseados em benchmarks internacionais, entre outros. Ainda que em teoria no radar de alguns ex-PRs, o aumento da visibilidade e transparência das mesmas, aliados a uma implementação eficaz e comunicação alinhada torná-las-iam fortes bengalas na promoção da classe política, evitando o efeito cumulativo de perda de capital humano qualificado que transforma a política num espaço de pura sobrevivência egocêntrica.

Assistimos, em contraste com o que refiro, a um clima de suspeição e incriminação constante ao longo da campanha numa lógica de N-N (todos contra todos), ensanguentando as diferentes candidaturas para atrair votos e, mais uma vez, nivelar por baixo os intérpretes do espetáculo. Esquecemos assim os problemas das famílias, jovens e idosos, mas acima de tudo esquecemos o futuro de Portugal. Esse futuro onde jovens ainda sonham contribuir para aumentar a prosperidade económica. Onde se nomeiam profissionais com provas dadas nas suas áreas de conhecimento. Onde a renovação dos mandatos advém dos bons resultados demonstrados. Onde a esfera privada e a liberdade individual de cada político são assuntos deixados à porta da assembleia. Fica o convite ao próximo PR – quer ou não ser um (bom) exemplo?