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"Dá-me uma gotinha d’água". Seguro e Ventura em disputa a Sul, voto a voto

Todas as gotas contam no sul do país onde há margens curta entre os dois candidatos a Belém. Ventura e Seguro estão entre Alentejo e Algarve, um a apelar à mobilização, outro a recusar esse caminho.

Inês André Figueiredo
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Rita Tavares
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Diogo Ventura
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João Porfírio
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Mal entrou no cinecastrense, em Castro Verde, António José Seguro ouviu logo a interpretação da música tradicional alentejana “Gota d’água”. Está longe de ver o copo desta campanha meio cheio e foi ao sul tentar enchê-lo com os votos que faltam para tentar deixar bem para trás André Ventura. Disse-o com todas as letras: “Ambicionamos vencer as eleições também aqui no Algarve”. Já o adversário, entre vinho e azeite, recusou-se a ir pelo mesmo caminho e a apelar ao voto em nome do sofrimento das pessoas. É o “que se lixem as eleições” 2.0.

Seguro começou o dia em Beja, em Castro Verde (onde a vantagem para o adversário foi de apenas 270 votos), para um almoço com a população local onde recebeu uma guitarra campaniça, depois da atuação que abriu o evento. Posou como quem toca o instrumento (que não toca) e passou para outra música, ao microfone do almoço-comício, com Ventura na mira. Alertou para o “risco” que representa o adversário e para os “cinco anos de turbulência, divisão”, se for ele a ganhar as eleições. Descreveu Ventura como alguém que “põe portugueses uns contra os outros”, que pretende “fazer oposição ao primeiro-ministro a partir de Belém” e que “quer mudar de regime”.

Antes dele já o seu mandatário distrital, Ricardo Namorado Costa, tinha aberto as hostilidades, com conhecimento de causa. Recordou os tempos em que fez o “pré-seminário com o adversário de António José Seguro”. Cruzou essa época com a atual para concluir: “Não foi lá que o adversário de Seguro aprendeu esse discurso de divisão e ódio e de valores anti-cristãos. Posso garantir que não foi lá que aprendeu isso”. A sala rompeu num aplauso.

Passou para o Algarve, com o mesmo alvo e, ali, por maioria de razão. Afinal, é o único distrito do país onde, juntamente com a Madeira, Ventura saiu vencedor na primeira volta. A distância para Seguro foi de cerca de 13 mil votos e o socialista quer tentar virar o jogo, até porque tem a ambição de conseguir cavar uma diferença grande para o segundo lugar nesta segunda volta — a tal “legitimidade reforçada” que tem pedido, embora com maior timidez nos últimos dias.

Começou por Faro e uma visita à Associação dos Reformados, Pensionistas e Idosos. Quando a caravana de Seguro entrou,  foi o “alto e pára o baile”. O staff do candidato mandou parar o acordeonista que animava a tarde do salão enquanto Seguro estivesse na sala. Tem sido sempre assim nesta corrida contida da segunda volta, com o socialista sempre preocupado em não dar a imagem festiva, que normalmente povoa as campanhas eleitorais, por respeito à situação que o país atravessa. Deixou só a promessa de ali voltar para inaugurar o desejado lar de idosos e, aí sim, talvez aprenda “o corridinho”, como desafiava um senhor na primeira fila quando o candidato subiu ao palco para os agradecimentos da praxe.

Na plateia de dançarinas e dançarinos, parados para ouvir o candidato, não se aceitava de ânimo leve a entrega do Algarve ao candidato André Ventura. “Ele? Aqui? No outro dia andava, andava… a voz dele a sair de um altifalante com rodas”, atirava uma senhora. A popularidade do adversário de Seguro naquela sala está longe de espelhar o que foram as presidenciais em Faro, com o socialista a ficar à frente de Ventura, mas por pouco mais de 1.500 votos.

Mas ali, Seguro não falou de Ventura. Jogou antes ao bingo, na sala onde estavam vários idosos já com os cartões à sua frente a ouvir os números que iam saindo. “Setenta. Sete zero.” António José Seguro fazia parceria com uma senhora e ao lado os jornalistas iam picando com os números. É uma boa fasquia? O candidato evita fixá-la. “Serão os portugueses a decidir qual o montante dessa confiança (…) Tudo o que seja acima de 50% mais um é muito bom”. Um claro downgrade em relação ao objetivo com que entrou na campanha e a que só voltou por uma única vez, num comício em Gouveia no fim de semana do voto antecipado.

À noite jantou em Albufeira, um dos três municípios do país que o Chega venceu nas últimas autárquicas. Aí foi logo direto ao assunto, mal subiu ao palco, assumindo o ombrear com Ventura no Algarve. Sublinhou que foi o distrito onde não venceu para logo a seguir acrescentar: “Ambicionamos vencer as eleições também aqui no Algarve.” Mas também não deixou de incluir os eleitores de Ventura, ao dizer que mesmo que não vença no distrito será “o Presidente da República de todos os que votaram e não votarem” em si.

Os votos que tenta conquistar para o seu lado são sobretudo os que estiveram com Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes e, em Albufeira, teve dois reforços desse lado, com os mandatários distritais de Gouveia e Melo, Ricardo Mariano, e de Mendes, Macário Correia, a juntarem-se ao jantar de frango da guia no restaurante Teodósio. A disputa de Seguro torna-se mais acesa nestes últimos dias de campanha, depois de ter começado de forma mais clara em Portalegre (o tal distrito dos 60 votos de diferença entre os dois).

A caminho do Venturistão a tentar interditar a passagem de Seguro para Belém

Ventura ruma ao Alentejo e Algarve na reta final da campanha eleitoral, joga em casa, naquele que chegou a ser apelidado, por um dirigente local do Chega, de Venturistão, à semelhança do Cavaquistão de Cavaco Silva. Apesar de, ao contrário das legislativas, apenas ter vencido o círculo eleitoral de Faro, o candidato presidencial conseguiu vitórias relativamente a Seguro no sul do país, que lhe a dão esperança de não só repetir como de melhorar resultados. Em alguns dos sítios onde está previsto passar a caravana — de Portimão, a Silves ou Olhão —, o líder do Chega derrotou o adversário sempre por mais de dois mil votos. Já em Beja e Faro, onde conseguiu o primeiro lugar nas legislativas, ficou atrás do socialista na primeira volta.

O Algarve foi o primeiro local a dar uma grande vitória a André Ventura, nas legislativas de 2024, e o fenómeno estendeu-se a praticamente todo o Alentejo nas eleições seguintes. Agora, em nome próprio, e contra um adversário que foi líder do PS, o presidente do Chega tem procurado tornar-se o “líder da direita” (colocando-se como o candidato “contra o socialismo”), de preferência com uma votação reforçada que lhe permita uma percentagem de votos maior do que aquela que levou Luís Montenegro a primeiro-ministro. Durante a campanha, já jurou que não está a contar se vai “ter mais votos do que Montenegro” e perante o mau tempo mudou toda a agenda argumentando que não há condições para uma “campanha tradicional” e até atirou, à la Passos Coelho, um “que se lixem as eleições”.

Dia após dia, o homem que praticamente vivia de arruadas e comícios nas campanhas, que se dava bem na rua e que aparecia constantemente nas televisões aos abraços, beijinhos e puxões, com discursos aguerridos, deixou a rua para estar com as vítimas das tempestades. Pelo caminho, ainda acartou bens para doar às vítimas. Adapta-se bem à nova realidade. A aparente calma da campanha é usada para não afrontar a dor das pessoas e o guião está a ser seguido à risca.

Acaba de chegar à adega Figueirinhas, em Beja, para se inteirar dos danos causados. Nesta fase devia estar a haver poda das vinhas, mas o tempo não permite e a tempestade deixou “o solo saturado” — o que pode mais tarde fará com que “a própria planta apodreça”. José Gonçalves queixa-se da situação, precisa de acelerar os processos e não consegue. Ainda assim, mostra orgulhosamente as instalações ao candidato a Presidente. Permite-lhe que entre no carro de coleção que está em exposição e pertencia ao avô. Ventura considera-o estranhamente confortável, com este até acredita que chegaria de certeza a Belém.

Por falar em Belém, Ventura agarra-se a uma garrafa de vinho chamado “Interdito” e ‘oferece-a’ a António José Seguro para domingo, com o objetivo de tornar o Palácio de Belém interdito ao adversário — que continua destacado nas sondagens. E assume que uma Moenga (nome do vinho, que significa chatice) é mesmo o que pode acontecer no dia das eleições: “Tentar e não conseguir, espero que não seja isso.” Neste momento, para evitar esse cenário, parece preciso quase um milagre. Mas Ventura é crente.

Na verdade, os pequenos trocadilhos que estão no sangue do candidato presidencial, que se vai equilibrando com o líder da oposição, têm passado para segundo, terceiro ou quarto plano. A campanha foi tempestade, tempestade e mais tempestade. E mesmo as declarações políticas de André Ventura foram muito mais centradas no Governo e no Presidente da República do que no adversário António José Seguro. Seja como for, não o poupou quando construiu (e repetiu) a narrativa de que o oponente “não tem ideias”, que só “diz generalidades” e que só poderá vencer numa luta entre Ventura e “anti-Ventura”.

Agora, praticamente na reta final, Ventura insiste em duas teorias — os portugueses têm de decidir entre alguém “a dizer sempre a mesma coisa, num ambiente tipo de conversa da lareira” ou “alguém que tome mesmo decisões, que faça as coisas e que diga o que tem que ser dito, mesmo que isso às vezes custe ouvir”. É neste binómio que vai assentando a estratégia de campanha sempre que é questionado sobre Seguro.

Numa altura em que Seguro começou a fazer um apelo mais forte à mobilização, Ventura recusa entrar nesse campeonato. Ao colocar a gravata de chefe de Estado, nota que “num momento em que as pessoas estão a passar dificuldades”, em que se mudou a campanha e está a visitar empresários que afetados pela tempestade, não há espaço para isso: “Não me parece fazer sentido que a minha mensagem seja de apelo ao voto.” O voto fica para domingo, quando as pessoas decidirem “o melhor perfil”.

Até lá, ao tudo indica, e ao contrário de Seguro, a caravana segue no ritmo mais lento do que é normal, com o mesmo tipo de ações e sem lugar para festas — e também não se encomenda espumante porque pode dar azar. Na verdade, o azar do Ventura candidato presidencial pode bem ser a sorte do Ventura líder da oposição. O tempo não está a ajudar e as notícias da tempestade tomam conta de toda a atualidade noticiosa. Ventura mexe-se bem nessa realidade e está à procura de não cometer erros, desde logo porque a tempestade trouxe ao de cima (e ao mesmo tempo) o líder da oposição (pelas críticas ao Governo) e o candidato presidencial (ao recusar que a campanha se imponha ao sofrimento das pessoas) e acredita-se que essa postura pode ser bem acolhida pelas pessoas.

Ainda que haja a tentação de dizer que sondagens são sondagens (e não são nada favoráveis ao líder do Chega), Ventura sempre disse que “partia de trás” e que eram “todos contra si”, por isso no próximo domingo luta pelo melhor resultado possível para, no dia seguinte, voltar a sentar-se no Parlamento e vestir apenas e só o fato de líder da oposição. Quem sabe mais reforçado para fazer frente a Montenegro.

O dia 8 está ao dobrar da esquina e, mesmo que as sondagens não deem um taco-a-taco, aos dois adversários, interessa dramatizar (em parte) as contas para mobilizar o mais possível os eleitores. É como diz a música: “Entre pedras e pedrinhas/Alguma gota há-de haver.”

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