Quando, em 1543, os cascos de navios estrangeiros rasgaram a bruma costeira do arquipélago japonês e se ouviram os primeiros estampidos de pólvora em Tanegashima, não nascia apenas um contacto acidental: abria-se uma nova era de globalização, cujo eco ainda hoje ressoa entre Portugal e o Japão. O documentário “10 Mil Km. De Regresso ao Japão” relembra essa epopeia de encontros e desencontros, mas convoca também a memória de indivíduos que transformaram o acaso em ponte. Padres, marinheiros, cronistas, diplomatas e escritores souberam traduzir curiosidade em conhecimento e comércio em diálogo.

Do lado português, a presença jesuítica deixou marcas indeléveis: Francisco Xavier, cujo nome se tornou sinónimo do primeiro impulso missionário; Luís Fróis, cronista atento às singularidades japonesas; João Rodrigues, intérprete e estudioso de uma língua que ajudou a decifrar; e tantos outros que, entre missões e mercadorias, mapearam costumes e abriram canais de comunicação cultural. Estes actores não foram apenas emissários da fé: foram também agentes de transferência tecnológica e de conceitos que alteraram estratégias militares, técnicas navais e hábitos de consumo. Por isso mesmo, o encontro de 1543 não se reduz a um episódio exótico. Foi, em palavras mais prosaicas, o início de uma globalização precoce, movida pela iniciativa comercial e por um espírito empreendedor que caracterizava os portugueses.
Ao longo dos séculos, esse contacto entre dois universos distintos não deixou de produzir vozes que se apaixonaram pelo outro lado do mar. Wenceslau de Moraes, que escolheu viver no Japão e escreveu sobre as pulsões sentimentais e culturais desse viver entre mundos, deu-nos um olhar íntimo e literário sobre as pontes afectivas que se podem erguer. No século XX, Armando Martins Janeira (diplomata, investigador e escritor) foi um construtor consciente dessas pontes, promovendo conhecimento e respeito mútuo que transcenderam o protocolo e se materializaram em trocas culturais duradouras. É graças a figuras assim que a relação luso-nipónica ganhou rosto humano, com histórias que justificam mais do que a nostalgia: justificam uma agenda conjunta para o presente e para o futuro.
Essa agenda existe porque o interesse japonês por Portugal nunca foi unilateral nem meramente arqueológico. Em escolas primárias, faculdades e museus, os japoneses estudam e revivem traços da presença portuguesa: palavras incorporadas no léxico, objectos, práticas culinárias ou uma empatia cultural que floresce quando escutam o fado. Este conhecimento e esta curiosidade são capital simbólico de grande valor, pois abrem portas à cooperação científica, turística e económica. Num momento em que o mundo parece viver um “inverno relacional”, as alianças culturais podem, estou convicto, facilitar grandes projectos técnicos e empresariais.
O desafio, e a oportunidade, reside em transformar memória em iniciativas concretas. Portugal e Japão partilham desafios complementares: envelhecimento demográfico, necessidade de inovação numa economia global e urgência ambiental. Neste contexto, parcerias em investigação (robótica, biotecnologia, saúde), em energias limpas e na economia azul podem ser mais do que desejáveis: podem ser estratégicas. Ao mesmo tempo, investimentos em diplomacia cultural, como rotas históricas, exposições, intercâmbios académicos e residências artísticas, materializam a confiança que tanto pesa nas negociações contemporâneas. Também start-ups bilaterais, incubadoras conjuntas e programas de “duplo diploma” podem traduzir-se em oportunidades económicas sustentáveis.
Não convém, contudo, romantizar o passado. A história entre Portugal e o Japão conheceu momentos de tensão, incompreensão e ajustamento forçado. O isolamento japonês em períodos posteriores e os recalibramentos geopolíticos do século XX ensinaram que laços duradouros exigem manutenção, imaginação e respeito pelos ritmos do outro. As figuras históricas que hoje evocamos, missionários que estudaram línguas locais, cronistas que relataram com rigor, escritores que se enamoraram de terras distantes, deixaram um legado prático: a noção de que empatia cultural e competência técnica caminham juntas quando se pretende construir algo sólido e duradouro.

Ler o presente à luz desse passado é, por isso, um exercício útil e urgente. O documentário que revisita 10 mil quilómetros até ao Japão recorda que a história partilhada é também uma ferramenta de diplomacia: quando um povo conhece o outro, quando académicos trocam saberes e empresas alinham interesses, cria-se uma arquitectura de confiança que facilita parcerias estratégicas. Talvez a lição mais pertinente seja esta: Portugal levou ao Japão algo para lá das mercadorias. Levou capacidade de empreender e de adaptação; o Japão, por sua vez, respondeu, posteriormente com um rigor tecnológico e uma dimensão cultural que aprofundou a singularidade das relações entre os dois países.
Se o objectivo for construir um futuro de cooperação, então importa conjugar esforços públicos e privados, criando plataformas duradouras de colaboração. Investir em investigação conjunta, promover o ensino recíproco das línguas, valorizar a memória comum em projectos culturais e fomentar trocas empresariais parecem passos evidentes. E, no centro dessas políticas, há espaço para que novas figuras, tais como cientistas e investigadores, empreendedores e artistas, assumam o lugar dos jesuítas, dos cronistas e dos diplomatas que tão bem souberam fazer de Portugal e do Japão um capítulo único e partilhado da história mundial.
(*) Série RTP Notícias e RTP 2 e também acessível na RTP Play.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
