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(A) :: Portugal é um país teórico

Portugal é um país teórico

O problema que temos é que somos teóricos, temos medo e somos preguiçosos.

Bruno Bobone
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Portugal começou o ano de 2026 com um clima muito agreste e neste momento há muitos portugueses a passar por enormes dificuldades em resultado das diversas intempéries que têm assolado o nosso país.

Há famílias sem teto, há casas inundadas, há bens perdidos, há animais em dificuldade de sobrevivência e, nestas alturas, é normal as pessoas que se encontram nessas circunstâncias reclamarem do Estado, a quem pagam regularmente os seus impostos, que os ajude a conseguir ultrapassar estas enormes aflições.

É também nestas alturas que nos damos conta da pouca preparação que têm as instituições que nos deviam ajudar, a impreparação das equipas de coordenação e a falta de capacidade de decisão daqueles que deveriam ser os primeiros a tomar o comando das acções.

É também nestes momentos que as pessoas em sofrimento – muito justamente -, muitas vezes muito acicatadas por jornalistas – já não tão justamente -, reclamam a presença dos governantes e reclamam a sua intervenção para que as soluções surjam e resolvam as dificuldades que estão a sofrer.

É verdade que, por causa do impacto político que tem, este tipo de reclamação leva a que os governos acabem por forçar as decisões que deveriam desde logo ter sido tomadas pelos responsáveis operacionais, que as deveriam ter tomado no imediato, contudo essa actuação, que resolve o imediato, em nada contribui para que na próxima ocorrência, algo de diferente possa vir a acontecer.

O problema que temos é que somos teóricos, temos medo e somos preguiçosos.

Sentámo-nos numa cadeira um dia e decidimos num papel aquilo que a nossa inteligência decide que será a solução de todas as crises.

Mas, como temos medo, não deixamos qualquer capacidade de decisão a quem está no terreno, tentamos assegurar que tudo é decidido por uma cabeça única que coordena uma tão vasta quantidade de acontecimentos que, naturalmente, não pode deixar de correr mal.

E, como somos preguiçosos, nunca este magnífico plano que saiu de uma cabeça iluminada é posto à prova através de exercícios que envolvam o público, os operacionais e os decisores de forma a poder validar a operacionalidade e a razoabilidade do plano preparado.

Aquilo que já aconteceu a muitos de nós, durante uma estadia num hotel ou em qualquer escola ou outro evento, de termos que abandonar o local para treinar comportamentos para tempos de crise é algo absolutamente inexistente no nosso país.

Mas nada disto é surpreendente pois o mesmo se passa em relação à maioria da legislação criada em Portugal, em que se tenta sempre fazer aquilo que mais evoluído se conhece no Mundo, mas sempre tentando prever todas as inúmeras situações que se apresentem possíveis com o medo de deixar a um decisor a capacidade de avaliar aquilo que com bom senso se entende que pretende a lei.

No final das contas aquilo que se verifica é que os decisores preferem sempre não ter que decidir, as situações nunca são exactamente como estavam previstas, e a solução é, na maior parte das vezes, injusta e destrutiva dos objectivos pretendidos.

Por isso Portugal é, na teoria um país em que tudo está bem preparado, mas onde nada nunca pode funcionar bem.