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(A) :: Quando afastamos as mulheres da ciência, o futuro perde talento

Quando afastamos as mulheres da ciência, o futuro perde talento

Durante a adolescência, muitas raparigas que demonstravam curiosidade pela ciência afastam-se dela. Não por falta de talento, mas por falta de incentivo.

Marta Garcia
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O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência existe porque a igualdade neste
domínio continua longe de ser uma realidade. Apesar dos avanços das últimas décadas, as
mulheres permanecem sub-representadas nas áreas científicas e tecnológicas, sobretudo
nos espaços de decisão, liderança e inovação.
Esta desigualdade não começa na universidade nem no mercado de trabalho. Começa muito
antes. As raparigas demonstram, desde cedo, curiosidade e capacidade para as ciências,
mas, durante a adolescência, muitas afastam-se. Não por falta de talento, mas por falta de
incentivo, de modelos femininos visíveis e de contextos que promovam confiança e
pertença. A mensagem — muitas vezes implícita — de que a ciência é exigente, competitiva
e pouco compatível com a vida pessoal continua a afastar mais mulheres do que homens.
Mesmo quando seguem carreiras científicas ou tecnológicas, poucas mulheres chegam aos
lugares onde se decide. Há muitas licenciadas e doutoradas, mas menos líderes de projetos,
menos responsáveis por inovação, menos vozes na definição de prioridades. O chamado
teto de vidro também existe na ciência, sustentado por critérios de avaliação rígidos e por
estruturas que penalizam percursos não lineares.
Esta realidade tem consequências concretas. Uma ciência produzida maioritariamente por
um grupo homogéneo perde diversidade de pensamento e de soluções. A investigação
médica, por exemplo, ignorou durante décadas as especificidades do corpo feminino, com
impactos reais na qualidade dos diagnósticos e tratamentos. A tecnologia reflete, muitas
vezes, os vieses de quem a cria. A exclusão das mulheres não é apenas injusta — é
ineficiente.
Há ainda um tema que continua a ser tratado com desconforto: a penalização associada à
maternidade. As carreiras científicas continuam desenhadas para um modelo de
disponibilidade total e contínua, pouco compatível com a vida familiar. Interrupções,
horários inflexíveis e métricas de produtividade cegas ao contexto afastam muitas mulheres
altamente qualificadas — não por falta de ambição, mas por falta de condições justas.

Escrevo também enquanto mãe de uma jovem adulta que, como tantas outras mulheres
qualificadas, teve de procurar fora do país oportunidades compatíveis com a sua formação e
expectativas profissionais. A mobilidade pode ser uma escolha, mas não deveria ser uma
imposição para quem quer desenvolver uma carreira científica ou tecnológica com
dignidade e reconhecimento.
Assinalar este dia deve servir para mais do que celebrar exemplos de sucesso. Deve obrigar-
nos a questionar os sistemas que continuam a excluir, a desvalorizar ou a empurrar
mulheres para fora. Porque uma sociedade que afasta o talento feminino da ciência não
está a preparar o futuro. Está a desperdiçá-lo.