O neurocientista luso-americano António Damásio encontrou-se com Jeffrey Epstein por duas vezes, uma dessas no final de fevereiro de 2013, na casa em que o homem acusado de montar uma rede sexual com menores morava, em Nova Iorque. Segundo a última leva de informações partilhadas pelo Departamento de Justiça norte-americano sobre o caso Epstein, o neurologista e professor universitário na University of Southern California fez, nessa ocasião, um pedido de financiamento para um projeto científico ao milionário que morreu na prisão em 2019.
Em resposta ao Observador, o antigo conselheiro de Estado nomeado por Marcelo Rebelo de Sousa confirma que se “encontrou com Jeffrey Epstein duas vezes”, ambas “relacionadas com pesquisa científica”. “Não sabia nada sobre ele pessoalmente, além do facto de ele ser um filantropo que apoiava os trabalhos académicos de grandes universidades e de ser um mulherengo”, afirma.
Num email enviado por António Damásio a 26 de fevereiro de 2013, o neurocientista recorda a Jeffrey Epstein que lhe contou “ideias excitantes para investigar a base celular dos sentimentos”. “Estamos num ponto em que precisamos de começar a fazer experiências, mas eu não quero fazê-las através de empréstimos regulares, porque vamos obviamente perder o controlo das ideias. Podemos discutir a possibilidade de ser você a financiar este esforço?”, lê-se.

António Damásio referiu que, naquela semana de fevereiro de 2013, “estaria em Nova Iorque” alguns dias. Caso Jeffrey Epstein estivesse na cidade norte-americana, podiam encontrar-se para lhe “dar detalhes sobre o projeto”. No entanto, o neurologista não conseguiu facilmente entrar em contacto com o milionário. Assim sendo, o cientista contactou, a 27 de fevereiro de 2013, Richard Saul Wurman, o arquiteto responsável pela criação das conferências TED Talks.
“Não tenho uma forma de o contactar. Estou a tentar falar com o Jeff Epstein sobre assuntos importantes, mas os seus emails voltam para trás e o telefone não chama. Pode ajudar-me?”, questionou António Damásio. Esta ajuda resultou: o neurocientista conseguiu entrar em contacto com Lesley Groff, a assistente pessoal de Jeffrey Epstein, e com o milionário.
A reunião ficou marcada: dia 28 de fevereiro de 2013, às 18h00. Pelo menos é o que mostra a agenda de Jeffrey Epstein para aquela quinta-feira. Numa troca de emails entre Lesley Groff e o milionário, a assistente escreveu que António Damásio confirmou que iria encontrar-se com ele. “Ele disse que tinha um jantar para ir, mas teria muito tempo para estar consigo”, lê-se. A secretária enviou mesmo um evento através do Google Calendar para Jeffrey Epstein.

O encontro ficou combinado e foi Jeffrey Epstein a propor que fosse em sua casa, bem no centro de Nova Iorque. Durante o encontro, os dois homens terão discutido o projeto de financiamento para a investigação da base celular dos sentimentos. Após a reunião, Pamela McNeff, assistente da University of Southern California, enviou dois documentos para Jeffrey Epstein relacionados com o tema que António Damásio investigava.

A 1 de março de 2013, António Damásio voltou a contactar Jeffrey Epstein. “Se queres mesmo fazer algo de alto nível… Os robôs de que tanto gostas precisam de importar maquinaria equivalente para que o trabalho valha a pena”, escreveu o neurocientista, sem referir diretamente ao que se menciona. No email, anexava também dois ficheiros: um com o nome “proposta”, outro do artigo científico publicado em 2013 com o nome A Natureza dos Sentimentos.
Ao Observador, António Damásio confirma que abordou Jeffrey Epstein “para financiar uma pesquisa na área da neurociência”. No entanto, o encontro em Nova Iorque não serviu de nada. O neurocientista assegura que Jeffrey Epstein “recusou o seu pedido de forma educada”. “Aconselhou-me que os fundos deveriam ser ‘locais’ e que me deveria focar em questionar a doadores da Califórnia em vez de nova-iorquinos”.
“Nunca mais o vimos outra vez e nunca recebemos qualquer financiamento da parte dele”, vinca António Damásio, que fala também em nome da mulher, Hanna, que trabalha igualmente na área da neurociência. “Tivéssemos tido conhecimento dos seus crimes, nunca teríamos procurado o seu apoio, mas apenas soubemos quando se tornaram amplamente divulgados e quando levaram à sua detenção.”
A informação de que os dois já se tinham encontrado no passado já tinha sido avançada por António Damásio ao jornal da University of Southern California. No mesmo sentido, o cientista contou à newsletter morningtrojan — elaborada pela mesma universidade — que era “bastante óbvio” que Jeffrey Epstein estaria “interessado” em ter o luso-americano no “círculo de cientistas”. O empresário que morreu na prisão sempre manifestou interesse na intersecção da robótica e da inteligência artificial, em particular na relação com emoções, área em que o luso-americano poderia ser útil.
Antes de 2013, Damásio já tinha estado com Epstein num jantar em Nova Iorque
Os documentos publicados pelo Departamento de Justiça dão a entender que os dois homens estiveram juntos antes de 2013. Em junho de 2009, alguém (com o nome rasurado nos emails divulgados pelas autoridades norte-americanas) tinha sugerido a Jeffrey Epstein que convidasse António Damásio para uma mesa redonda organizada também por um professor universitário na área da psicologia, Dan Ariely.
Neste sentido, no comunicado enviado ao Observador, António Damásio assinala que ele e a mulher Hanna “aceitaram um convite para jantar na sua casa em Nova Iorque” antes de 2013. “Fomos acompanhados por outros cientistas e professores de variadas instituições de elite”, detalha o antigo membro do Conselho de Estado.
Também em 2009, o biólogo norte-americano Marc Hauser, numa troca de emails com Jeffrey Epstein, mencionou o nome de António Damásio para colaborar num projeto de realidade virtual. “O Damásio está na equipa principal, mas está sobrecarregado por alguns meses. Ele é fundamental e sei que vocês se conhecem”, escreveu Marc Hauser, acrescentando, noutro email, que o neurocientista está “particularmente entusiasmado” porque este projeto “testa diretamente algumas das suas ideias”.

Em 2010, Marc Hauser volta a contactar Jeffrey Epstein, desta vez para falar sobre os “mecanismos subjacentes ao comportamento criminoso”, dando como exemplo os “casos de abuso sexual na Igreja e os genocídios em massa que estão a ter lugar no Congo”. “As nossas prisões estão a explodir com criminosos. Isto não pode continuar assim. Precisamos de maneira não de evitar a violência, mas de tratar aqueles que cometeram esses crimes.”
Neste sentido, o biólogo sugere um encontro entre Jeffrey Epstein, António Damásio e o neurocientista Michael Gazzaniga para discutir o assunto. Essa reunião nunca terá acontecido.
Nos ficheiros do caso Epstein, a última menção ao nome de António Damásio ocorre em 2019, ano da morte do milionário. O neurocientista apareceu num documentário da PBS, que foi financiado por Jeffrey Epstein. Num email escrito pelo investidor e apresentador da série Closer To Truth, Robert Kuhn informa que o “primeiro dia de filmagens” tinha terminado e que tinha sido um “grande sucesso”, contando com a participação de António Damásio.
Ainda assim, António e Hanna Damásio garantem que, depois de 2013, nunca mais se encontraram com o milionário. “Além de dois encontros cordiais, não tivemos mais contacto com o senhor Epstein. Não sabíamos mais nada da sua vida pessoal além do seu interesse óbvio por ciência e do facto que ele era rico e tinha uma presença bastante agradável”, lê-se no comunicado enviado ao Observador.