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Polícia Metropolitana abre investigação criminal a Peter Mandelson por passar informações privilegiadas a Jeffrey Epstein

Em causa estarão emails de Downing Street e informações de mercado sensíveis que terão sido repassadas a Jeffrey Epstein pelo antigo embaixador britânico.

Sâmia Fiates
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A Polícia Metropolitana de Londres abriu uma investigação criminal a Peter Mandelson, na sequência da divulgação dos emails trocados pelo antigo embaixador britânico nos EUA e o milionário acusado de tráfico sexual Jeffrey Epstein que morreu na prisão. A Scotland Yard confirmou na noite da passada terça-feira que Mandelson está a ser investigado por suspeita de má conduta pública, um crime que pode resultar numa pena máxima de prisão perpétua.

“Na sequência da recente divulgação de milhões de documentos relacionados a Jeffrey Epstein pelo Departamento de Justiça norte-americano, a Met recebeu denúncias de alegada má conduta pública, incluindo uma referência vinda do Governo”, esclareceu a comandante Ella Marriott, citada pelo The Guardian. “Posso confirmar que a Polícia Metropolitana abriu uma investigação a um homem de 72 anos, antigo ministro do Governo, por má conduta pública”, afirmou, sem citar o nome de Mandelson. Agora espera-se que os detetives interroguem o antigo embaixador britânico, além de pedirem acesso aos seus dispositivos eletrónicos. As autoridades também devem ouvir testemunhas de dentro do Partido Trabalhista, incluindo o antigo primeiro-ministro Gordon Brown.

“Finalmente consegui fazê-lo sair hoje”

Entre as informações sensíveis que terão sido transmitidas a Epstein está, por exemplo, a demissão de Brown a 10 de maio de 2010, quando Mandelson era secretário de Estado para os Negócios. O anúncio foi feito ao fim da tarde, mas horas antes, pela manhã, Peter Mandelson enviou um email a Jeffrey Epstein: “Finalmente consegui fazê-lo sair hoje”, escreveu. O criminoso sexual ainda respondeu que o episódio iria aumentar o valor do seu livro de memórias, que foi lançado cerca de dois meses depois. ” Incluindo a caminhada subterrânea do número 10 até o Ministério da Defesa com GB para uma conversa secreta noturna com os Liberais…”, respondeu Mandelson, parecendo revelar também a existência de um túnel a ligar Downing Street e o ministério da Defesa.

Um dia antes, Mandelson já havia dado outra dica que teria repercussões no mercado financeiro. Na noite de 9 de maio de 2010, Epstein enviou um e-mail a Mandelson dizendo que as suas fontes afirmavam que um resgate de 500 mil milhões de euros para a zona euro estava “quase concluído”. “Será anunciado esta noite”, respondeu Mandelson sobre as negociações, que decorriam entre os ministros das finanças dos países europeus. O resultado da reunião foi divulgado só durante a madrugada, pelas 2h30 da manhã do dia 10. O Governo britânico não contribuiu para o resgate, mas o então ministro Alistair Darling estava em Bruxelas para as negociações.

Dias antes, os dois pareciam “conspirar” pela queda do Governo de Brown. “A visão de Jess é a de que deve ser visto como um homem de Estado, e não como um homem pessoal de GB. Apoiar GB vai parecer mau comercialmente, ele já perdeu a confiança do público, JPM está muito preocupado que a libra possa ser a próxima moeda a ruir, e de forma significativa”, aconselha Epstein. No dia seguinte, Mandelson responde que Gordon Brown “está absolutamente determinado a seguir em frente. Quer saber o que eu pessoalmente quero: ficar no Reino Unido ou voltar para a Europa?” Horas depois, Epstein responde: ” bye, bye smelly?”, algo como “adeus, mau cheiroso?” Minutos depois, Mandelson respondeu: “Acho que deve ser, adeus GB”.

Há ainda um ficheiro que sugere que Mandelson tenha encaminhado a Epstein um memorando de Downing Street que discutia a venda de ativos do Governo, e sugestões de que o então secretário tenha tentado interferir em políticas financeiras para beneficiar bancos, depois de conversas com Epstein. “As minhas conversas no Governo naquele tempo refletem as visões do setor como um todo, e não como um privado individual”, disse Mandelson à BBC. Outros emails revelam que o criminoso sexual poderá ter pago até 75 mil dólares ao então membro da Câmara dos Lordes, e 10 mil libras ao seu marido, Reinaldo Avila da Silva. Mandelson alega não se lembrar dos pagamentos, mas assume que o companheiro recebeu depósitos vindos do milionário entre 2009 e 2010.

Starmer ordena divulgação de documentos sobre nomeação para Embaixada nos EUA

Num comunicado, Gordon Brown afirma que avisou Downing Street sobre as relações de Mandelson com Epstein, e critica o facto do caso não ter sido investigado antes. O antigo primeiro-ministro diz que deu informações “relevantes” à polícia e disse que o seu antigo secretário de Estado fez um “ato antipatriótico imperdoável”. “Incluí a carta que enviei em setembro de 2025, solicitando ao Secretário do Gabinete que investigasse a veracidade das informações contidas nos documentos de Epstein referentes à venda de ativos decorrentes do colapso bancário e às comunicações sobre eles entre Lord Mandelson e o Sr. Epstein. Também incluí a resposta de novembro de 2025 do Secretário do Gabinete, que afirmou que ‘nenhum registo de informação ou correspondência da caixa de correio de Lord Mandelson’ pôde ser encontrado”, destacou no comunicado, citado pelo Telegraph.

https://observador.pt/2026/02/03/ex-embaixador-britanico-peter-mandelson-demite-se-da-camara-dos-lordes-apos-escandalo-de-emails-ligado-a-epstein/

Diante da investigação criminal, o primeiro-ministro Keir Starmer concordou em divulgar os ficheiros relacionados à sua decisão de escolher Mandelson como embaixador nos EUA, em dezembro de 2024. Em declarações ao parlamento britânico esta manhã, Starmer disse que Mandelson “traiu o seu país e o seu partido ao revelar segredos”, e que o antigo embaixador “mentiu” sobre as suas ligações com Epstein antes da sua nomeação, em dezembro de 2024, cita o The Guardian. O primeiro-ministro também revelou que pediu à sua equipa para elaborar uma legislação para impedir que Mandelson use o seu título de nobreza.

Mandelson deixou o cargo de embaixador nos EUA em setembro de 2025, depois de uma das primeiras levas dos ficheiros Epstein ser divulgada e revelar trocas de emails entre ambos, incluindo uma mensagem do membro da Câmara dos Lordes a dizer que “admira muito” o condenado sexual um dia antes deste começar a cumprir pena, em 2008, por solicitar a prostituição de uma menor. Em janeiro de 2026 Mandelson falou pela primeira vez sobre o caso numa entrevista em que disse ter sido mantido à parte da “faceta sexual” de Epstein por ser gay. Entretanto, a nova e aparentemente última leva de ficheiros divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano revela emails em que o antigo embaixador informava Epstein sobre situações internas do Governo britânico entre 2009 e 2010, o que levou Mandelson a demitir-se do Partido Trabalhista e, depois, da Câmara dos Lordes.

https://observador.pt/2026/02/02/ex-embaixador-britanico-peter-mandelson-demite-se-do-partido-trabalhista-na-sequencia-da-divulgacao-de-mais-ficheiros-epstein-que-o-envolvem/