Os parentes de manifestantes mortos pela repressão estatal no Irão passaram a despedir-se dos seus entes queridos com celebrações da vida. Em vez das cerimónias solenes conduzidas por clérigos xiitas, algumas famílias iranianas têm transformado funerais em momentos marcados por música e dança. Segundo analistas citados pelo The Guardian, é uma forma de desafiar a cultura de piedade austera imposta pela teocracia iraniana.
Nos registos partilhados nas redes sociais, o ambiente destes funerais afasta-se do luto silencioso tradicional. Ouvem-se canções populares com som no máximo, há danças coletivas e surgem mulheres sem o véu islâmico, num cenário que transmite exaltação e desafio em vez de recolhimento.
“Muitos dos que hoje estão de luto… não querem que a dor pela perda dos seus entes queridos carregue qualquer traço do luto religioso que é emblemático da subcultura compartilhada pelos seus assassinos”, disse Hosein Ghazian, um comentador iraniano radicado nos EUA citado pelo jornal. “Em vez de expressar abertamente a dor, eles optam por demonstrar alegria. Essa alegria carrega uma poderosa mensagem política de persistência na luta contra opressores sanguinários.”
O caso de Reza Asadi ilustra esta transformação. O homem de 32 anos, natural de Ramhormoz, no sudoeste do Khuzistão, foi morto a 8 de janeiro, atingido mortalmente pelas forças do regime de Teerão. “Esta flor que foi espalhada foi sacrificada pela pátria”, exclama o pai durante o funeral de Reza, num vídeo publicado no X.
https://twitter.com/Rahnavard_01744/status/2016772018746614035
O simbolismo destes funerais é reforçado pelos relatos sobre o que acontece antes mesmo das cerimónias. Há famílias que afirmam ter sido obrigadas a pagar quantias elevadas para recuperar os corpos das morgues oficiais, segundo o The Guardian. Outras dizem que só conseguiram a libertação após assinarem declarações classificando os mortos como membros da Basij, milícia pró-regime subordinada à Guarda Revolucionária Islâmica— uma prática que, segundo essas denúncias, ajuda a sustentar a narrativa oficial de que os manifestantes eram “terroristas” e a inflacionar o número de baixas do lado das forças estatais, explica o mesmo jornal.
Depois de Milad, de 17, ter sido morto num bairro da capital, as autoridades iranianas exigiram o equivalente a 5.000 libras (mais de 5.700 euros) para libertar o seu corpo. Familiares do jovem dançaram ao som da sua música favorita, Ghaf, uma balada romântica de Alireza Talischi.
“Eles fizeram o que o Milad teria desejado”, disse Reza, o seu irmão mais velho, que mora em Tallinn, na Estónia. “Entre lágrimas, eles dançaram no funeral. Mesmo em luto, honraram a sua vida vibrante.”
Shaghayegh, de 21 anos, admite que nem consegue falar sobre a quantia paga às autoridades. O primo, de 19 anos, tinha sido morto a tiro durante um protesto em Narmak, na zona norte de Teerão.
“Quando o corpo dele finalmente chegou a casa, a família preparou-se como se fosse um casamento. Instalaram altifalantes. Grandes tendas encheram a garagem. Os familiares cozinharam juntos, como se fosse uma festa”, descreveu Shaghayegh ao jornal britânico.
Embora o fenómeno esteja a ganhar visibilidade recentemente, após a onda de violência que assolou o país, dançar em funerais não é algo inédito no Irão. Em algumas regiões, existem tradições tribais antigas que combinam luto, música e movimento.
No rescaldo da recente vaga de protestos que abalou o país e desencadeou uma nova onda de repressão estatal, o gesto ganha ainda mais significado por ocorrer num país onde, durante décadas, o regime proibiu festividades públicas, danças femininas e até certas expressões públicas de alegria e tristeza.
https://observador.pt/2026/01/26/esmaguem-nos-disparem-a-matar-e-nao-tenham-misericordia-tera-ordenado-o-lider-iraniano-ali-khamenei-no-auge-dos-protestos/
Após a morte de Rahnavard, circularam imagens de si momentos antes de sua execução, dizendo: “Não quero que ninguém lamente sobre o meu túmulo. Não quero que leiam o Alcorão ou rezem. Celebrem, celebrem e toquem músicas festivas.”
https://twitter.com/SafaiDarya/status/1603406964331085825
[Dezenas de portuguesas, recrutadas numa escola de yoga e tantra em Lisboa, acabaram em sites de sexo na internet. Elas, e mulheres de vários outros países, tinham em comum serem seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Ouça o segundo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]