(c) 2023 am|dev

(A) :: O caso de Meeke, Schwarzenegger e um balanço positivo: Confederação terminou visita às instituições europeias em Bruxelas

O caso de Meeke, Schwarzenegger e um balanço positivo: Confederação terminou visita às instituições europeias em Bruxelas

Último dia de visita da delegação da CDP a Bruxelas teve reunião com equipa do comissário europeu para o Desporto. "Momento relevante para posicionar o desporto português", destacou Daniel Monteiro.

Bruno Roseiro
text

Uns de telefone de um lado para o outro a cancelarem provas nacionais previstas para os próximos dias, outros de pasta das imagens aberta a ver as fotografias dos estragos que a última noite tinha provocado, outros ainda a tentar arranjar soluções para uma sede que estava inundada quando se abriram as portas. Bruxelas não acordou como Bruxelas: tinha sol, menos frio e aquela sensação que ainda colocava em equação a necessidade ou não de blazer além da camisa. Portugal também não acordou propriamente como Portugal – e foi isso que acabou por ocupar vários presidentes de federações de manhã no terceiro e último dia de visita da Confederação do Desporto de Portugal (CDP) às instituições europeias, não só para tentarem resolver as questões daí advindas para as suas modalidades mas também para perceberem o impacto de mais uma noite difícil que se fez sentir em território nacional, com os vídeos partilhados no WhastApp ou nas redes sociais a darem um pequeno retrato do que se tinha passado e do que se poderia ainda passar.

Domingos Castro, presidente da Federação de Atletismo, foi um desses casos, ficando para trás depois da situação que foi encontrada na sede do órgão que dirige mas sem deixar para trás a importância da reunião de trabalho com a equipa de Glenn Micallet, comissário europeu para a Equidade Intergeracional, Juventude, Cultura e Desporto, que, perante a indisponibilidade de marcar presença àquela hora se fez representar pelo chefe de gabinete, Clint Tanti, e pelo membro do gabinete responsável pelo Desporto, Agata Dziarnowska. Depois do Parlamento Europeu, a delegação da CDP tinha o encontro marcado no edifício da Comissão Europeia onde Portugal está agora representado em termos de comissários por Maria Luís Albuquerque, que ficou com a pasta dos Serviços Financeiros e União de Poupança e Investimento. No dia da saída de novo Eurobarómetro, a ideia passava por apoiar o Modelo Europeu do Desporto como os portugueses apoiam as instituições europeias. Mais: são mesmo os que mais apoiam o Parlamento Europeu.

https://observador.pt/2026/02/03/a-sinergia-positiva-no-parlamento-europeu-como-inspiracao-para-o-desporto-nacional-encontrar-novos-caminhos-no-futuro/

Em resumo, e no trabalho desenvolvido pela agência de estudos Verian durante cerca de três semanas nos 27 estados membros da União Europeia com um total de 26.453 entrevistas, existem preocupações transversais a todos como os conflitos ativos, o terrorismo, as catástrofes naturais agravadas pelas alterações climáticas, os ciberataques ou a migração controlada mas, entre estes, os portugueses apontam sobretudo nesta fase para as catástrofes naturais agravadas pelas alterações climáticas (91% para 66% de média de todos os entrevistas dos 27 países incluídos) e para os fluxos migratórios descontrolados (88% para 65%) como os fatores que geram maior preocupação. Em paralelo, Portugal é também o país com percentagem mais alta de defensores de uma União Europeia mais junta do que nunca para fazer face a várias ameaças mundiais, com 94% dos portugueses (contra 86% dos europeus) a considerarem que a UE deve ter um papel mais ativo e 90% deveria ter mais recursos para fazer face a esses mesmos perigos (contra 73% dos europeus). Mais: os portugueses são os europeus no estudo com imagem mais positiva do Parlamento Europeu (57%) e os segundos com essa mesma perceção mas da União Europeia (69%).

Há mais dados interessantes neste Eurobarómetro mais recente que foi conhecido esta quarta-feira. Por exemplo, e dentro do sentimento negativo que o atual contexto global traz, há menos portugueses do que europeus a mostrarem-se pessimistas com o futuro do mundo, da União Europeia e do próprio país (40%). A par disso, existem outros pontos que geram preocupação como a ameaça à liberdade de expressão (70% contra 67% na média), o discurso de ódio online e offline, a desinformação ou a proteção insuficiente dos dados e, num outro âmbito, o custo de vida é visto como uma prioridade, com 72% dos portugueses contra 53% dos europeus a admitirem que têm dificuldades em pagar contas “de vez em quando” entre preocupações latentes com a inflação ou o aumento dos preços.

“As tensões geopolíticas moldam o sentimento diário de segurança dos europeus. Os cidadãos esperam que a União Europeia proteja, esteja preparada e atue em conjunto. É exatamente isso que uma Europa mais forte e mais assertiva deve proporcionar. A Europa é o nosso escudo mais forte”, comentou Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, após a divulgação deste Eurobarómetro. Com as devidas distâncias e em campos diferentes, foi essa também a mensagem deixada pela delegação da CDP no encontro com a equipa do comissário europeu para o a Equidade Intergeracional, Juventude, Cultura e Desporto.

“O comissário Glenn Micallet é alguém que está muito ligada ao desporto, não só por ser essa a sua grande missão mas também porque vive para o desporto, vive com o desporto, está sempre a acompanhar tudo. O desporto é uma forma de vida para nós europeus. O Modelo Europeu do Desporto está sob ameaça a várias dimensões, como as ligas fechadas”, salientou o chefe de gabinete Clint Tanti, dando depois o exemplo do que aconteceu com os jogos da La Liga de Espanha e da Serie A de Itália em futebol que estavam marcados para decorrer fora dos respetivos países. “Legalmente o comissário não podia fazer nada contra isso mas podia expressar a sua opinião sobre isso, como aconteceu, juntando-se depois a nós várias organizações que aumentaram a conversa sobre o tema. Uns meses depois, a ideia caiu”, apontou.

https://observador.pt/2026/02/03/deve-haver-equilibrio-entre-a-parte-profissional-e-a-base-confederacao-defendeu-ligacao-ao-modelo-europeu-do-desporto-em-bruxelas/

“Isto mostrou que não se pode fazer nada sem o apoio de todos e queremos colocar no papel tudo aquilo que se vive todos os dias, com atletas, com treinadores, com os fãs, com as federações, por forma a que exista um guião que reverta tudo isso na prática. No desporto não se pode fazer nada sozinho”, destacou o chefe de gabinete do comissário europeu nessa mesma nota introdutória, falando também de forma genérica do programa Erasmus +, da vontade em que exista um orçamento maior para a área no próximo quadro plurianual e da importância de encontros de trabalho como o que estava previsto para aumentar o número de contributos. “É preciso amar o desporto para estar no desporto”, rematou Clint Tanti nessa primeira fase.

“Estamos muito contentes e orgulhosos por estarmos aqui. Ao todo estão representadas 21 federações desportivas, com a Federação de Atletismo a não estar agora por ter recebido a notícia de que a sede foi vítima da intempérie que está a assolar o nosso país. Há várias infraestruturas que afetadas”, partilhou Daniel Monteiro, presidente da Confederação. “Estamos aqui para mostrar o nosso compromisso com o Modelo Europeu do Desporto. Defendemos um modelo associativo, apoiamos também um sistema de pirâmide, da base ao topo, com sustentabilidade entre clubes, federações e associações nacionais entre si e com a Europa e o Mundo, bem como uma boa governance e o máximo de inclusão”, referiu.

“Temos demasiados riscos pela frente e é por isso que entendemos que todos se devem comprometer com este Modelo Europeu do Desporto. É impossível olhar apenas para a parte profissional e para a parte comercial das competições, e é importante olhar para o desenvolvimento dos mais novos e para o bem estar da sociedade, até por haver depois uma ligação direta. Da nossa parte, às vezes sabemos os programas que existem, conhecemos as linhas de financiamentos, temos questões sobre as mesmas mas nem sempre conseguimos lá chegar”, acrescentou o líder da CDP, antes de mais uma ronda de apresentações de todos os presidentes de federações presentes com respetiva modalidade.

“Temos pontos em comum, as vossas preocupações e as vossas ambições são iguais às nossas. Não podia encontrar um termo melhor para dizer: somos aliados e temos que trabalhar em conjunto, temos de nos juntar para chegar aos nossos objetivos”, comentou Clint Tanti. “Fizemos através da consulta pública todos os nossos contributos para o Modelo Europeu do Desporto e deixamos também aqui esses documentos. Não tínhamos também uma estratégia nacional mas foi feito um Plano Nacional para o Desporto, que está agora na fase de implementação. Foi algo importante, tal como é o Modelo Europeu do Desporto”, apontou Daniel Monteiro. “A nossa base na pirâmide é pequena porque a ligação do País ao desporto não é a melhor. Está a melhorar mas ainda não temos o suficiente na base. Temos resultados que são muito melhores do que é a nossa realidade nesse aspeto”, completou ainda a esse propósito o presidente da CDP.

Gonçalo Saldanha, presidente da Federação de Surf, reforçou depois a questão da lacuna que está sempre presente. “Estamos sempre a olhar para os resultados, para os profissionais, para o topo. O problema do sistema está na base”, reforçou, explicando o trabalho que existe por fazer para que todos os jovens tenham possibilidade de ligação contínua ao exercício e possam depois escolher o desporto que preferirem. Já Miguel Arrobas, presidente da Federação de Natação, falou no caso que aconteceu de forma recente no Campeonato Nacional de Ralis com Kris Meeke, questionando a Comissão sobre a possibilidade de alguém que não é um atleta nacional poder ganhar esse título de campeão nacional – algo que captou de imediato a atenção dos responsáveis, por não terem conhecimento de mais nenhuma situação desse género pelo menos “reportada” mas percebendo de forma clara o impacto que isso pode ter a nível de desporto europeu.

Em resumo, o caso apresentado tornou-se o exemplo paradigmático dessa questão. Kris Meeke acabou o Campeonato Nacional de Ralis mas, por ser natural da Irlanda do Norte com nacionalidade britânica, não foi considerado campeão nacional porque a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting seguiu aquilo que entendia estar no regulamento: “No caso de modalidades individuais só podem ser atribuídos títulos a cidadãos nacionais”. A Hyundai da Sports & You, equipa de Meeke, recorreu da decisão para o TAD, falando da perda de notoriedade e patrocínios e ganhou, com esse tribunal a entender que a norma do regulamento era “inconstitucional” e que existia uma distorção da verdade desportiva. Já o Ministério Público no Tribunal Constitucional considerou que quem tinha razão era a Federação mas o TC manteve o título para Meeke, numa situação que também não é única no País, tendo acontecido na dança desportiva e no padel.

Chegava assim ao fim os três dias de visita da delegação da CDP às instituições políticas, com um “mote” que tinha sido lançado na véspera pela eurodeputada Lídia Pereira quando recebeu as federações nacionais: aproveitar o Congresso do Desporto que haverá em 2027 em Portugal, por organização da Confederação do Desporto de Portugal, para ter como convidado especial… Arnold Schwarzenegger. “Sempre foi alguém que admirei, ainda mais quando passei a fazer musculação e li o livro dele, ‘Be Useful: Seven Tools for Life’ [‘Faz-te útil: sete regras para a vida’, em português]. Se conseguirem que ele esteja lá, podem convidar-me que também lá estarei”, desafiou. Ficou o repto para um dos grandes momentos da CDP no próximo ano.

“Este foi um momento muito relevante para posicionar o desporto português no centro das prioridades europeias. Saímos de Bruxelas com a convicção de que há espaço para reforçar a influência das federações nacionais na definição das políticas comunitárias, sobretudo nas áreas do financiamento e promoção do Desporto. Esta visita contou com a presença de mais de 20 federações e as instituições com quem reunimos transmitiram-nos confiança no trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela Confederação do Desporto de Portugal e pelas Federações desportivas, e valorizaram a iniciativa de termos vindo a Bruxelas afirmar, de forma coesa, a unidade do desporto nacional. Queremos continuar a ser uma voz ativa neste processo e contribuir para que as decisões europeias tenham impacto real junto dos clubes, dos atletas e das comunidades”, resumiu Daniel Monteiro em forma de balanço após a visita.

O Observador viajou até Bruxelas a convite da Confederação do Desporto de Portugal

[Dezenas de portuguesas, recrutadas numa escola de yoga e tantra em Lisboa, acabaram em sites de sexo na internet. Elas, e mulheres de vários outros países, tinham em comum serem seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Ouça o segundo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]