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(A) :: "Não havia cá ninguém". A "onda de voluntariado" que está a reerguer Vieira de Leiria depois "de cinco dias completamente isolados"

"Não havia cá ninguém". A "onda de voluntariado" que está a reerguer Vieira de Leiria depois "de cinco dias completamente isolados"

Em Vieira de Leiria lamenta-se o apoio tardio, mas aplaudem-se os voluntários. Junta de freguesia virou centro logístico e uma semana depois da Kristin começa a ver-se a "luz ao fundo do túnel".

Marina Ferreira
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Diogo Faria Reis
photography

Nelson fez o pequeno trajeto entre a Praia da Vieira e o centro de Vieira de Leiria para ir à junta de freguesia pedir ajuda. É a segunda vez em dois dias que o faz. Antes de falar com o Observador estava a descrever a sua preocupação para a noite que aí vem [a de terça] — faz quase uma semana que a tempestade Kristin lhe arrasou o restaurante, junto à praia, e a habitação que tem por cima deste, também tem danos — e o tempo e o mar não têm dado tréguas. “O vento ali é muito e as chapas andavam lá a voar ontem”, relatava a José, que enverga um colete amarelo fluorescente e vai dando direções através de um intercomunicador a quem se movimenta com urgência no centro de logística improvisado na junta.

“Logo à noite temos mais um problema e eu só queria evitar que a casa se inundasse mais uma vez”, afirma Nelson Ribeiro, preocupado com a habitação e com o restaurante que tem há 53 anos. A solução para tapar uma claraboia que não resistiu à força da tempestade foi para já as lonas que um “grupo de rapazes e raparigas mais novas, que vieram de Lisboa”, lhe foi instalar. “Do Estado não vejo nada“, lamenta, notando apenas a presença de elementos da Proteção Civil.

“A Praia da Vieira está uma lástima, com os restaurantes a levar com os cacos uns dos outros, e ainda não foi visitada por ninguém da Câmara. Houve quem dissesse que havia soldados por aí, mas eu não os vi”, assegura, e garante que “quem limpou a Praia da Vieira foram os voluntários“. “Eu dei duas pás e ninguém mas trouxe. Cada um tinha uma vassoura e um par de luvas e fizeram assim”, descreve ainda Nelson.

Aproveita para agradecer a todos os que vieram de fora. A uma senhora de Vila Nova de Gaia que viu na farmácia a entregar medicamentos, e aos jovens de Lisboa que lhe compuseram o teto e “não quiseram nada, só aceitaram água”. Quando contou na junta de freguesia que tinha ficado sem pás por tê-las cedido a quem limpou, até lhe arranjaram outra para não ficar sem nenhuma.

Há de tudo um pouco na junta de freguesia, desde refeições quentes a comida enlatada, passando pela roupa de cama, lonas e ferramentas. E até um sistema de inscrição para ter assistência de voluntários em casa. Tudo o que tem faltado na última semana a quem não tem eletricidade e comunicações e que por causa disso não tem como levantar dinheiro, atestar o carro com combustível, compor a dispensa, ou pedir auxílio. A água canalizada só voltou há dois dias, por exemplo.

José Fernandes, que tentava arranjar uma solução para a casa de Nelson, é membro da Proteção Civil de Alcântara. “Eu fui dos primeiros a chegar aqui e cheguei tarde, na sexta”, assegura. Começou por ir à cidade de Leiria na quinta-feira. “Em Leiria havia gente a mais e aqui havia gente a menos, ou melhor, não havia cá ninguém“. Foi por perceber na Câmara Municipal da Marinha Grande que “na Vieira havia gente a menos” que decidiu oferecer ajuda. “Até era para ir embora para Lisboa e acabei por não ir”, diz, chamando um quase “mero acidente” à sua presença na Vieira de Leiria.

"Logo à noite temos mais um problema e eu só queria evitar que a casa se inundasse mais uma vez"
Nelson Ribeiro, residente na Praia da Vieira

Não recebeu ordens diretas para ir para Leiria ou Vieira de Leiria, mas há uma semana que pernoita, com mais voluntários de uma associação a que pertence, na colónia de férias da PSP da localidade. “Quando chegámos aqui isto estava uma catástrofe, era o pior sítio dos sítios todos onde passámos“, descreve. “Fiz o alerta ao meu presidente da junta sobre como as pessoas aqui estavam necessitadas de tudo e mais alguma coisa e propus ficar e fazer um apelo”.

No sábado, José conseguiu que fossem entregues duas carrinhas de materiais vindas de Lisboa e mais quatro no domingo com todo o tipo de artigos alimentares e de higiene. “A junta é pequena e também não estava preparada para isto”, refere. A experiência na logística da Proteção Civil fez com que pudesse logo montar uma “rede de rádio” para que os voluntários pudessem comunicar mais facilmente.

Considera que há mais know-how que podia ter sido aproveitado estes dias. “Da unidade especial da GNR, Urban Search and Rescue (USAR), por exemplo, não vi aqui ninguém“, refere. E diz que há medidas que tardaram — como a criação de um posto móvel para multibancos para que as pessoas pudessem levantar dinheiro. “Muitas pessoas ficaram desorientas e muito stressadas por não conseguirem ter dinheiro”.

Neste momento diz que a “fase do socorro” já passou e que a Vieira de Leiria já está mais numa”fase da recuperação”. E apela: “Agora é preciso mais materiais de construção – telhas, tijolos e areia — e voluntários para ajudar”.

Residentes em Vieira de Leiria queixam-se de falta de informação. “Só soube ontem que podia vir”

Os avisos sobre o que está disponível e o que faz falta em Vieira de Leiria estão em cartazes feitos à mão, bem visíveis a quem circula a pé ou de carro, com setas a indicar a direção dos locais — para a junta e para o mercado municipal onde agora são distribuídas telhas, lonas de grande dimensão e todo o tipo de material de construção.

Na fila da junta, Carla diz ao Observador que o que faltou nos primeiros dias após a tempestade foi, além do apoio, a informação. “Eu só soube ontem que podia vir. Devia ter havido mais informação, nem que fosse por militares na estrada a fazer essa comunicação“, sugere.

“Isto foi horrível para toda a gente e nesta zona há muitos idosos que não sabiam o que fazer”, relata. “Estou há cinco dias sem dormir e chove-me dentro de casa. Tenho chorado, limpado e rezado a Deus, tem sido uma carga de nervos”, diz ainda, depois de ter recebido orientações para se deslocar ao mercado para receber telhas e outros materiais.

Maria Figueiredo também foi ali à procura de telhas; percebeu que estava no sítio errado, mas admite que já tem grande parte do telhado orientado em casa. “Dizem muito mal dos brasileiros mas eu tenho que dizer bem deles. Um homem já me foi lá pôr telhas a casa e foi à Batalha buscar mais para me ajudar”, afirma, elogiando o trabalho dos voluntários.

Na longa reta a caminho da Praia da Vieira, um grupo de jovens está a arranjar o telhado de uma casa. Carlos Paredes, um voluntário da Mealhada, que se reuniu com amigos nesta terça-feira para ir ajudar, explica ao Observador que ali vive um “casal já de idade”. É vídeografo de casamentos, outro voluntário é eletricista e outra trabalha na restauração.

Souberam que era preciso ajuda no boca a boca. “Fizemos uma angariação na Mealhada e conseguimos ainda trazer algumas coisas: telhas, cobertores, águas”, relata. Explica que apesar de não serem especialistas em telhados, são quase todos “filhos de pessoas de construção civil”. “Fomos vendo mais ou menos como é que se faz. Vamos desenrascando”, diz.

Sara, uma das voluntárias que reside em Vieira de Leiria, tenta parar uma carrinha que passa para perguntar se têm “espuma que é preciso para compor algumas falhas nas telhas”. Ao Observador, lamenta o excesso de mobilização para Leiria: “Esqueceram-se que a praia e aqui Vieira precisava de muita ajuda também”.

"Devia ter havido mais informação, nem que fosse os militares na estrada para fazer essa comunicação"
Carla, residente e Vieira de Leiria

“Nos primeiros dias isto parecia um filme de terror”. Os dias de isolamento na Praia da Vieira até a ajuda chegar

À medida que se avança na direção da Praia da Vieira, a chuva intensifica-se. Os bares e restaurantes na linha da praia são agora um conjunto de edifícios quase todos a céu aberto a que é possível aceder por quem quer que passe. Há frigoríficos ainda com bebidas, arcas de gelados e muitos destroços no interior das ruínas. Um bar é só mesmo bocados de madeira.

“Nos primeiros dias isto parecia um filme de terror, só no domingo é que começámos a ver aqui voluntários a limpar, a ajudar, camiões para carregar o entulho. Nessa altura foi cada um por si a fazer montes”, relata Vanda Francisco ao Observador, dona de um restaurante no local.

Diz-se preocupada com as previsões meteorológicas dos próximos dias: “Vai ser mau, se vem outra vez um vendaval acho que vai tudo outra vez pelos ares, tapámos janelas com o que encontrámos, os telhados não estão a 100%, estão só remendados.”

O NauFrágil “por incrível que pareça foi o que se aguentou mais um bocadinho”, brinca José Lucas, proprietário do único bar da linha de praia que resistiu à intempérie, mesmo ladeado de bares completamente destruídos. Tem danos avultados, com alguns dos vidros duplos partidos e muita sujidade, mas ainda existe.

Faz esta madrugada uma semana da tempestade e estivemos aqui cinco dias completamente isolados do resto do país“, lamenta ao Observador. “Fala-se só de Leiria e é tudo para Leiria e aqui na Praia da Vieira isto está um caos total”, refere, acrescentando que estava tudo ainda pior antes de sábado, quando muitos voluntários se juntaram para limpar a zona.

“Aqui na Praia da Vieira fomos o para-choques do furacão”, diz e recorda como na véspera da Kristin barricou as janelas com a mobília do interior do restaurante. José já leva alguns anos a gerir o local que é atingido com relativa frequência por marés vivas e tempestades. Recorda que teve danos com a tempestade Leslie, por exemplo, mas chama-lhe um “bebezinho” em comparação com o que se passou a semana passada.

Desde quarta-feira passada que os funcionários do NauFrágil e amigos se juntam para comer as refeições principais depois de terem ajudado a tirar a areia e outra sujidade do local. Têm gastado assim o stock de comida que, sem eletricidade, entretanto já não está refrigerada e se iria estragar. Hoje a ementa foi cozido à portuguesa e José mostra o tabuleiro de assado de amanhã que já está a marinar.

Tem sido de dia para dia que tem gerido também o futuro do restaurante, com a ativação de seguros e a logística necessária. Admite que a situação é desafiante, já que “o inverno já é normalmente rigoroso em termos de faturação”, mas diz que está a tentar antecipar o que vai sendo preciso.

"Faz esta madrugada uma semana da tempestade e estivemos aqui cinco dias completamente isolados do resto do país"
José Lucas, proprietário de um bar na linha da Praia da Vieira

Diz que é isso que preciso fazer por parte do Governo: “Não é preciso virem cá, desde que tomem medidas necessárias. Tratem das reuniões, debatam as coisas como deve ser e nem precisam de vir cá desde que façam isso.”

Presidente da junta de Vieira de Leiria esteve reunido com o secretário de Estado da Energia. “Começámos a ver a luz ao fundo do túnel”

Durante a tarde desta terça-feira, o secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, esteve em Vieira de Leiria. Reuniu-se com o Presidente da Junta de Freguesia de Vieira de Leiria, Álvaro Cardoso, e com representantes da E-Redes.

“Falou-se sobretudo sobre o futuro, ao nível de prevenção destes fenómenos”, relata ao Observador o autarca já ao final da tarde, referindo que transmitiu “o ponto de situação da freguesia”. “Transmiti as necessidades, principalmente em relação à energia elétrica e das comunicações. É dos maiores constrangimentos que temos”, assegura.

“Hoje deu-se mais um passo significativo nesse sentido. Instalaram aqui hoje um mega gerador num ponto de transformação que temos na própria junta e que vai alimentar esta parte central de Vieira de Leiria”, revela.

“Acho que ontem e hoje se deram passos gigantes para atenuar esta situação”, reitera. Diz também ter dado conta ao Governo da “situação muito vulnerável na Praia da Vieira, com um rasto de destruição muito considerável, nomeadamente no que toca à restauração, à cafetaria e hotelaria”.

O presidente da junta elogia também, emocionado, a “onda de voluntariado” de gente de toda a parte que chegou para ajudar, bem como a solidariedade de outras juntas de freguesia ao nível nacional. “Estes dois dias foram fundamentais para levantar o ânimo e ver a luz ao fundo do túnel”, assegura, dizendo que a reposição dos serviços de água, o planeamento de soluções para alguns pontos de eletricidade e sobretudo a reposição de rede de comunicações traz uma “réstia de esperança” à população de Vieira de Leiria.

No momento em que Álvaro Cardoso falava ao Observador a rede móvel começava a dar sinais de ter regressado a vários telemóveis. Minutos depois uma voluntária comenta que está a receber centenas de mensagens no WhatsApp, a soma de todas as que não chegaram até si na última semana.

Nesse momento é dada conta da entrega de um cão na junta de freguesia — um homem encontrou-o a vaguear na zona da Praia da Vieira, frágil e com ar doente. Corresponde à descrição de um cão mais velho, “malhado tipo dálmata”, que alguém tinha vindo procurar no dia anterior e que estava desaparecido desde o temporal de quarta-feira passada. Depois de o cobrir com uma manta e de o alimentar, os voluntários desdobram-se em contactos para chegar até ao dono. Com as comunicações repostas fica tudo mais fácil, admitem vários voluntários no local.