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"Hamnet": a tragédia da família Shakespeare acaba numa vulgar enxurrada de lágrimas

Realizado por Chloé Zhao, "Hamnet", além de uma tragédia familiar, é uma tentativa de valorização de Anne, a mulher de Shakespeare, mas sucumbe ao melodrama. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Eurico de Barros
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Entre os vários filmes já feitos sobre William Shakespeare, muito raros são os que se interessaram em mostrar a sua vida familiar e íntima. Uma exceção é All is True (2018), de Kenneth Branagh, que também interpreta Shakespeare nos últimos anos da sua vida, após o regresso a Stratford-upon-Avon, e mostra-nos a sua relação com a mulher, Anne (Judi Dench) e as duas filhas. Também na série biográfica Will Shakespeare (1978), que a RTP exibiu e em que Tim Curry dá corpo ao autor de Romeu e Julieta, há alguma preocupação em mostrar o ambiente caseiro e da família, e sugerir uma relação fria entre Shakespeare e a mulher.

Baseado no best-seller de Maggie O’Farrell publicado em 2020, Hamnet, de Chloé Zhao (Nomadland-Sobreviver na América), com argumento da realizadora e da escritora (o filme está nomeado para oito Óscares), é uma ampla especulação sobre a vida matrimonial e familiar de Shakespeare e Anne (a que O’Farrell e Zhao chamam Agnes, tal como refere o testamento do pai), a sua dor e o luto pela perda do filho, Hamnet, aos 11 anos, e sobre como esta tragédia poderá ter levado o pai a escrever Hamlet. E é, acima de tudo, uma tentativa de reabilitação e valorização de Anne, que ao longo dos anos, e muito em especial na ficção, tem oscilado entre a dona de casa e mãe de família modelar, e uma figura mais negativa, inclusive na relação com o marido.

[Veja o “trailer” de “Hamnet”:]

https://www.youtube.com/watch?v=xYcgQMxQwmk

Tal como O’Farrell a imagina, Zhao a filma e Jessie Buckley a interpreta, Anne Shakespeare (nascida Hathaway) é uma repudiação viva dessas duas imagens opostas da personagem que têm atravessado os séculos, a fada do lar discreta ou a megera oportunista. E em simultâneo, uma mulher passada por um filtro feminista contemporâneo: tem um falcão, intui o futuro, sabe ler e escrever, é uma mãe devotada, revela uma personalidade afirmativa e vontade própria. E percebe que William (Paul Mescal) é invulgarmente talentoso e tem que deixar a família e ir para Londres, se pretende triunfar no teatro. Muito longe quer da esposa devotada e apagada, quer da campónia calculista que detestava o marido, que este odiava e da qual fugiu para a capital.

[Veja uma entrevista com Paul Mescal e Jessie Buckley:]

https://www.youtube.com/watch?v=Hi2XkQN8S78

Na tentativa de dar a Anne uma identidade forte e bem definida — já que é escassíssimo o que se sabe sobre a sua vida, a relação entre o casal e as particularidades do seu casamento, e o dramaturgo não deixou nada escrito sobre a mulher, a sua existência em comum, a intimidade familiar e o filho e as duas filhas —, pouco falta para Hamnet sugerir que, se não fosse ela,  Shakespeare não teria sido o que foi. É mais uma Anne redefinida e idealizada para o século XXI, uma mulher “proto-moderna”, do que uma Anne do seu tempo, e que deve à vigorosa e magnética interpretação de Buckley o ter faísca humana, miolo de personalidade e credibilidade de comportamento, sentimentos e psicologia.

Esta enorme e laboriosa liberdade especulativa na reinterpretação da figura de Anne e na descrição do seu casamento com William Shakespeare é esticada para lá dos limites do verosímil quando aplicada à origem de Hamlet, que o filme radica na insondável dor do pai pela morte do filho. No entanto, Shakespeare escreveu duas comédias depois de perder Hamnet (Como Quiserem e Noite de Reis) e antes de assinar Hamlet, e esta obra remete para uma peça perdida, com o mesmo título, de um autor desconhecido contemporâneo dele, e para uma narrativa escandinava, Amleth; e tem como núcleo dramático o desgosto pela perda de um pai e não de um filho, ambos chamados Hamlet.

[Veja uma entrevista com Chloé Zhao:]

https://www.youtube.com/watch?v=IKLm3w341AM&t=7s

A sequência final no Teatro Globe, em que Shakespeare surge em cena no papel do fantasma do rei e se dirige ao filho, o jovem príncipe Hamlet (interpretado, numa boa ideia de distribuição de papel, por Noah Jupe, o irmão mais velho do pequeno Jacobi Jupe, que personifica Hamnet), enquanto uma emocionadíssima Anne assiste, quase colada ao palco, reconhecendo o filho na personagem e revendo-se nas palavras que o marido lhe dirige, está por si só muito bem conseguida. Mas é insuficiente para nos fazer comprar a tese de que existe uma relação direta entre a morte de Hamnet e a génese da obra, para a qual Shakespeare terá transferido e dramatizado o seu imenso desgosto, numa catarse pela arte.

[Veja uma sequência do filme:]

https://www.youtube.com/watch?v=DmqKhXUePBc

Este é um dos pontos mais vulneráveis e forçados do filme, tal como a prestação mortiça do insípido Paul Mescal num Shakespeare empurrado para segundo plano. E muito em especial, a feroz manipulação emocional de Chloé Zhao, que investe a fundo no fator lacrimal, para extrair o máximo de reação comovida ao espectador. A visão que, ao mesmo tempo, Anne tem do filho morto, é a última gota, e Zhao faz a tragédia da família Shakespeare transformar-se naquilo que já ameaçava a partir de certa altura no enredo: uma vulgar e imparável enxurrada de lágrimas.