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(A) :: As lições da professora Kristin

As lições da professora Kristin

Como são nestas alturas que as falhas vêm ao de cima, também é com elas que podemos aprender, por forma a corrigir o que está menos bem para que na próxima as coisas corram melhor.

João Adrião
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“Depois de casa roubada, trancas à porta”
(Provérbio popular)

Nos últimos dias temo-nos inteirado da devastação deixada, sobretudo na região de Leiria mas não só, pela Depressão Kristin: mais de 12 mil ocorrências, 5 mortes diretas e já outras 5 em consequências indiretas, mais de um milhão de pessoas afetadas (mais até, este foi o número dos que ficaram sem eletricidade), ventos que podem ter superado os 200 km/h que passaram sobre árvores e estruturas como um rolo compressor.

Temos sido recorrentemente assolados por tempestades ao longo da história, algumas das quais um “autêntico terror” (como se disse da Depressão Martinho o ano passado, que embora com menor magnitude, ao atingir Lisboa teve muita visibilidade), caso do famoso Ciclone de 15 de Fevereiro de 1941 que ceifou a vida a mais de uma centena de pessoas, mas não só:

  • Há uns anos (2018) foi o Leslie que devastou a zona da Figueira da Foz; em 1997 também uma ciclogénese explosiva resultou em 11 mortes e 40 feridos;
  • Em 1989 informava o Expresso (08/12) que com 5 mortes e muita destruição o “Algarve é zona de calamidade pública”;
  • Em 1970 noticiava O Século Ilustrado “Vento ciclónico – destruição em vastas áreas do país” (vários mortos, casas e fábricas sem telhados, chaminés afetadas, muitas árvores caídas);
  • Em 1947 perderam-se 151 vidas na Figueira da Foz com o naufrágio de 4 traineiras;
  • Em Sines o pior episódio – “violento ciclone (…) que semeou a morte e deixou dezenas de feridos” (O Século de 7 de Outubro) – foi em 1929;
  • E ainda mais antigos, casos como o do chamado “Grande Furacão de Espanha” em 1842 ou o temporal de 3 a 6 de Dezembro de 1739 que nos chega hoje por fontes escritas, incluindo o seguinte poema: “Cada vez mais os ventos dezabridos/ Universaes ruinas vaõ causando/ De huma para outra parte compellidos/ Edificios, e cazas devastando”.

Não obstante não serem inéditos, fenómenos com esta magnitude são raros, felizmente. Todavia, a sua raridade, conjugada com episódios bem mais ligeiros mas também muito mais frequentes nos intervalos de ocorrência, explica parcialmente as nossas debilidades em responder a estes eventos calamitosos.

Como são nestas alturas que as falhas vêm ao de cima, também é com elas que podemos aprender, por forma a corrigir o que está menos bem para que na próxima – porque sim, mais cedo ou mais tarde teremos a próxima – as coisas corram melhor. Quais são então as lições que a Kristin tem para nos ensinar?

1 Antes:

Não é fácil o trabalho prévio. O “sistema” assume que mais vale exagerar, mas depois há o perigo do Pedro que tantas vezes gritou Lobo em vão. Neste caso foi ainda pior. Primeiro porque foram três depressões seguidas e após tanto alarido em vão com as duas primeiras, a tendência natural foi a desvalorização. Depois porque só muito próximo do evento é que houve real perceção do potencial destrutivo e da área mais atingida. Em cima disto, outros acontecimentos captavam a atenção das pessoas.

Para o futuro devemos pensar como melhorar este processo, desde os meios de comunicação e uma vez que um SMS da Protecção Civil parece curto, talvez uma comunicação nas televisões ao país possa fazer sentido, ter equipas no terreno a sensibilizar porta-a-porta idem, traduzindo o risco, explicitando o que pode acontecer e o que fazer a respeito. O próprio sistema de avisos deve conseguir distinguir as situações mais gravosas – escala demasiado rápido para o vermelho!

2 Durante:

Lamentar que as pessoas desvalorizam os avisos ou não têm kits de sobrevivência? Reafirmar que a Proteção Civil somos todos nós? Vale de pouco, porque qualquer boa política não pode contar com a boa vontade das pessoas…

O “sistema” deve, como tal, estar preparado para o pior. E tem planos para isso. Contudo não faltam exemplos de como ter um plano para cumprir a lei, por si só, serve de muito pouco. Depois, quando uma tragédia acontece, o plano é posto à prova e mostra-se insuficiente. É natural que surjam dificuldades acima do normal, mas também é verdade que muitos destes planos assentam no desenrascanço – será preciso comida? Logo se vê onde arranjar! Será preciso alojamento? Logo se vê onde.

Para o futuro há que melhorar não só o planeamento mas também a dotação para eventualidades. Dá menos votos que as luzes de natal ou o festival de verão? Pois as pessoas/eleitores devem ser consciencializados destas escolhas… No limite, aqui, somos todos responsáveis.

3 Depois:

Aos poucos a normalidade vai regressando. Claro que após tantos postes caídos e linhas cortadas não é em 2 ou 3 dias que a luz é reposta. Claro que empresas e casas vão demorar a reconstruir. Como se irá processar? Nos incêndios não correu muito bem. Agora? Vamos ver… E depois avaliar o que correu melhor e pior.

Todavia já não são precisas mais avaliações para perceber que o SIRESP falha repetidamente. É algo que tem que ser melhorado e soluções tecnológicas não faltam…

E mesmo no caso da falta de água ou das comunicações, o Apagão já tinha fornecido lições que pelos vistos não foram aprendidas – um gerador para o depósito de água ou um gerador na sede da Junta de Freguesia para as pessoas carregarem telefones, são coisas… básicas.

Claro que ao sábado todos conseguem acertar a chave do euromilhões. Mas há muitas pequenas coisas que já devíamos ter aprendido… e feito. Temos agora mais uma oportunidade, porque serão novamente relevantes no futuro.

4 E ainda:

Muito menos importante, acessório até para o que são os problemas, a comunicação das “autoridades” tem sido ela própria um desastre. Os nervos, a procura por quem apontar o dedo, o aproveitamento que se faz das tragédias, tudo isso é expectável. Mas as declarações frias, os vídeos pessoais depois apagados, as medidas reativas ao ruído envolvente, etc., também contribuem para uma perceção de caos.

Comunicação empática, simples, verdadeira, é o que se pede. Também se aprende, e também aqui os nossos políticos devem estudar as lições – tanto os do governo como os outros, já que um dia podem ser eles, e apesar do que dizem, nestes contextos tenho dúvidas que algo fosse substancialmente diferente…

Como disse há dias na CNN, “eu não queria estar na pele do Primeiro-Ministro”. Com efeito, lidar com catástrofes, seja aqui, seja em Espanha, no Japão, nos EUA ou em Moçambique, é sempre muito difícil. Em vez de culpas, foquemo-nos antes no que podemos aprender com estes acontecimentos e como melhorar para uma próxima vez – agora que a casa foi roubada é metemos uma tranca? Pois meta-se, porque mais ladrões tentarão roubá-la no futuro!