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Texas Club abre campanha de angariação de fundos para reconstruir telhado destruído pela Kristin: "A única forma de manter isto é com ajuda"

Espaço emblemático de Leiria, na freguesia de Amor, procura reunir 15 mil euros para recuperar dos danos da tempestade. "O Texas tem 33 anos. Não queremos fechar as portas", dizem.

António Moura dos Santos
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A noite de 29 de janeiro era suposto ser de festa na aldeia de Barreiros. Os Linda Martini iam dar um concerto no âmbito da sua digressão nacional a percorrer salas de menor dimensão, a Liga de Clubes. No entanto, nessa quinta-feira à tarde, foi a própria banda a dar as más notícias; a sua atuação teria de ser cancelada “devido à intempérie que assolou o concelho de Leiria”.

Como tantos outros espaços e negócios na região, o Texas Club, que ia acolher o concerto, foi afetado pelos efeitos destrutivos da depressão Kristin. A operar desde 1992 nesta aldeia integrada na freguesia de Amor — primeiro como bar e agora exclusivamente como sala de concertos —, aquele que é um dos espaços culturais icónicos da zona centro não abriu portas para receber a banda lisboeta e vai mantê-las fechadas nos próximos tempos. Para reabrir, terão de reconstruir e, por isso, decidiram abrir esta terça-feira uma página de angariação de fundos na plataforma GoFundMe.

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“Grande parte do telhado está danificado e já houve uma derrocada de uma parte do teto falso também. Numa outra das salas também já está a pingar por dentro”, conta Frederico Clemente ao Observador. Membro da família que detém o espaço, têm-se revezado entre a sua própria casa ainda sem eletricidade e o Texas Club, numa corrida para impedir que os danos se alastrem. “Todos os dias tentamos arranjar soluções para remediar isto, pondo lonas, tábuas, sacos de areia, para ver se durante a noite não se danifica ainda mais do que já está, porque não tem parado de chover. Isto é todas as noites”, lamenta. A única boa notícia desde então é que voltaram a ter energia, esta terça-feira.

Quando os Linda Martini deram nota do cancelamento do concerto, o único membro da equipa do Texas Club que se encontrava contactável era Roberto Roque porque estava no Porto, ao contrário dos restantes, afetados pela queda das telecomunicações provocada pela tempestade em Leiria. “Não consegui falar com ninguém aqui na região. Na sexta-feira vim para baixo e, chegando do Porto, em que não se passa nada, apercebi-me da destruição gigantesca, a área afetada é mesmo surreal”, desabafa o responsável pela comunicação da sala.

Como a larga maioria dos espaços de música ao vivo em Portugal, o Texas Club não possui recursos suficientes para dar conta de estragos desta magnitude e reabilitar as infraestruturas. E se o facto de ser um polo de cultura descentralizado é uma virtude, estar fora dos grandes centros urbanos ainda dificulta mais a tarefa. “Já é difícil para nós quando as coisas estão bem, quanto mais quando não estão. A única forma de conseguirmos manter isto é mesmo com a ajuda dos outros. Se formos só por nós, vai ser muito difícil reabrir esta sala, para ser muito sincero. Não temos nem nunca tivemos qualquer tipo de apoios”, assume Frederico. “Há muito investimento financeiro que vai ser necessário para remediar e reconstruir a sala e conseguirmos voltar a fazer parte do circuito de concertos nacional”, acrescenta Roberto.

Ao mesmo tempo, encontrava-se perante o dilema de estar a pedir ajuda às entidades públicas quando ainda não se conseguiu sequer contabilizar o número de habitações afetadas pela Kristin. “Há sempre alguém pior, não é? Sinceramente, ainda não batemos à porta de ninguém nem ninguém veio ter connosco e percebemos perfeitamente, porque neste momento continua muita gente nas aldeias mais afastadas sem água quente e sem eletricidade. Somos um local de concertos e um negócio, sabemos que não somos uma prioridade, essa está sempre com as habitações e o realojamento das pessoas”, aponta Roberto.

Além disso, a equipa do Texas Club assumiu desde cedo que não pode ficar à espera de apoio do Estado, porque, para uma sala de espetáculos, cada dia que passa de portas fechadas é mais um dia que a aproxima de nunca mais voltar a abri-las. “Infelizmente, a resposta a catástrofes em Portugal é sempre muito burocrática e demorada. Acontecimentos anteriores mostraram-nos que pode demorar anos, já sabemos o que a casa gasta”, afirma o gestor de comunicação do espaço.

Com todas estas variáveis em conta e precisando de soluções urgentes por verem “os danos a continuar a aumentar”. Através da campanha de crowdfunding, já arrecadaram mais de 3000 euros e a meta é chegar aos 15 mil, destinados sobretudo para o telhado do espaço. “A casa já tem 33 anos e os materiais com que o telhado foi feito nessa altura já nem sequer são fabricados. Portanto, vamos ter de criar um teto novo no espaço”, revela Frederico.

A equipa admite que o valor poderá não estar ajustado às necessidades do Texas Club, mas serve para, pelo menos, “ter algum fundo de maneio para que consigamos reabilitar o mais rápido possível”. “Se estivermos à espera de seguros e dessas coisas, vai demorar muito tempo conseguirmos voltar a abrir portas”, adianta o gerente. Para já, todos os concertos de fevereiro foram cancelados e os de março são uma incógnita. “Vamos ver se vai ser possível ou não. Não conseguimos dizer mesmo. Mas eu acho que vai ser muito difícil, na verdade”, admite. Em Amor, as coisas fazem-se “com amor à camisola”.

A beleza “no meio desta destruição toda”

“O Texas tem 33 anos de existência e, em 2026, não pretendemos aderir à lista de clubes a fechar portas”, garantiu a equipa do espaço na sua primeira comunicação oficial depois da passagem catastrófica da Kristin. Mas mais do que isso, deixou também um repto: “Por agora, vamos ajudar nas limpezas e garantir que toda a gente volte a ter eletricidade, água, comunicações e um telhado por cima das suas cabeças. Os concertos e as festas podem esperar, até às outras prioridades estarem asseguradas”.

O Texas Club assume-se como um espaço altamente inserido na sua comunidade e, como tal, há a constatação por parte da sua equipa de que de pouco vale reerguerem-se sozinhos quando tudo à volta permanece no chão. “Nós estamos aqui na zona da Marinha Grande, que tem milhares de empresas na área dos moldes e muitas viram o seu armazém ou barracão a voar. Ou seja, há muito trabalho e fonte de rendimento em causa. Não vamos estar a pensar em festas quando as próprias pessoas estão todas no limbo ao não saber como é que é de ordenados, de apoios financeiros. É um ciclo muito complicado”, alerta Roberto.

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No entanto, para contrapor os danos do presente e as incertezas do futuro, o gestor de comunicação diz que, desde que chegou do Porto, tem visto a onda de solidariedade não só entre vizinhos e conterrâneos, mas também de diversas partes do país. “No sábado, apareceram pessoas de Viana do Castelo para ajudar com as suas motosserras. Enquanto está sol, vê-se toda a gente em cima dos telhados. Tem havido muita solidariedade nacional. Quando as estruturas e os apoios falham, vemos o povo a meter as mãos na massa e a ajudarem-se uns aos outros. Isso é muito bonito no meio desta destruição toda”, aponta.

Esse espírito de entreajuda, todavia, não se limita à assistência material ou logística no local. “Temos estado a ver por alto os donativos que temos recebido e tem sido incrível por parte da cena musical em Portugal, a quantidade de pessoal que já doou para a nossa campanha”, revela Roberto. Além disso, já receberam mensagens de artistas disponibilizando-se para organizar concertos em benefício do Texas Club noutras salas, se bem que “é cedo ainda” para tomar decisões. Ainda assim, são sinais positivos de uma cena musical em que “ os artistas — mesmo alguns em situação muito precária — estão sempre à frente na solidariedade para os outros”. Por essa razão também, considera injustas as críticas que tem visto nas redes sociais quanto aos gastos dos municípios em cultura ao invés de reforçar os mecanismos de proteção civil. “Acho muito ingrato, porque vejo muitos artistas e muita gente da música para chegar-se à frente e fazer concertos solidários em que abdicam do cachê para as vítimas do que quer que aconteça. Esta é uma mensagem de saudação ao meio em que trabalho”, defende o gestor de comunicação.

Ainda que tenham algum pudor para falar do futuro quando a situação ainda se encontra longe de estar resolvida, os responsáveis do Texas Club admitem realizar ações que apoiem a sua comunidade, quer seja oferecer donativos que tenham recebido a mais, quer seja organizar eles próprios concertos para angariar fundos: “Gostaríamos de retribuir à comunidade e de dar não só sob a forma de cultura, como temos feito todos estes anos, mas também prestar auxílio aos outros da melhor forma que conseguirmos”.