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Os caminhos do rap consciente de Libra

Entre o empoderamento e a desconstrução, estreou-se em 2025 com “Everyone’s First Breath” e chegou ao mercado americano. Num formato acústico, atua em Lisboa e no Porto, e projeta o segundo álbum.

Ricardo Farinha
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2025 foi um dos anos com mais edições de álbuns (e singles) de rappers femininas na história do hip hop português. Entre discos de Capicua, Chong Kwong, Tixa, Filipaa Mon Sant, Nina Sixx ou redoma, destacou-se a estreia de Libra com Everyone’s First Breath. Em inglês, com uma mensagem política e feminista, a cruzar o rap, apontamentos melódicos e um registo próximo da spoken-word.

Após ter conquistado um público mais alargado (e até internacional) e ter passado por palcos como o NOS Alive ou a Casa da Música, nos próximos dias apresenta-se num formato especial acústico. Libra atua esta quinta-feira, 5 de fevereiro, no B.leza, em Lisboa; no dia seguinte é a vez dos Maus Hábitos, no Porto. A rapper sobe ao palco com uma formação composta por Raquel Pimpão (que a solo assina como Femme Falafel) nas teclas, Luís Delgado na bateria e João Gama no baixo.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/6mUPoOjJqugty6eONQJHC1?si=RR-nLy1yR1mHvzNnHVHYpg

“Quero resgatar essa essência da música de que te acabas por desviar um bocado no hip hop”, conta ao Observador a artista de 28 anos, que começou por tocar piano em criança. “Aconteceu, nos ensaios para um festival, eles começarem a tocar umas coisas numa jam, eu entrei por cima a cantar… E pensei que seria fixe fazer algo deste género para apresentar às pessoas. Não soa àquilo que está gravado, porque é um disco muito digital e com samples, mas não deixa de ser a mesma música numa viagem completamente diferente. Temos mais espaço para improvisar e também adoro isso, foi assim que comecei.”

Da formação clássica de piano ao concerto “tudo ou nada” na Gulbenkian

Criada na Rinchoa, na Linha de Sintra, Sónia Curcialeiro cresceu exposta à música portuguesa, cabo-verdiana e angolana das suas origens — mas também à música global com quem não mantinha uma relação tão familiar, como a bossa nova ou a música popular brasileira. Canta desde que se lembra, até por influência da avó materna, que costumava cantar em família ou entre amigos. Foi a mesma avó que incentivou a que a pequena Sónia se inscrevesse no conservatório para estudar piano — e os avós paternos compraram-lhe um piano para ter em casa. Hoje canta sobre “usar a dor de forma sábia”, a grande mensagem do single Use Your Pain Wisely. Quando era pequena fazia-o, inconscientemente, ao escrever poemas no piano. “Está todo escrito, era a minha forma de lidar com as coisas.”

https://www.youtube.com/watch?v=-w1hUnYYnUM

Passou quatro ou cinco anos no conservatório, mas acabou por se cansar da música do meio e do método. Embora fosse um género frequente na escola, o rap entrou realmente na sua vida durante a adolescência. O namorado da altura insistiu para que a futura Libra ouvisse Não É Só Chorar, de Dillaz. “Eu achava que odiava rap, mas ouvi aquela música e fiquei vidrada. A partir desse momento comecei a ouvir imenso hip hop tuga”, conta, embora ainda não houvesse qualquer intenção de o praticar. “Sempre achei que não tinha ritmo, então nunca poderia fazer rap.”

Aos 18 anos, mudou-se para Coimbra para estudar Farmácia. Foi na cidade estudantil, com uma forte vida boémia e movida cultural, que começou a participar em open mics como cantora. Ao regressar a Lisboa, ingressou no Hot Clube, decidida a fazer música e já com as primeiras composições ao piano. Não ficou muito tempo, frustrada com a rigidez da escola de jazz, e em casa começou a escrevinhar as primeiras letras. Utilizava os instrumentais de Sam The Kid para tentar elaborar versos, mas não gostava do resultado e acabou por deixar os beats para compor definitivamente ao piano. Libra estava à procura do seu método — e do seu meio — para canalizar a criatividade que jorrava dentro de si. Até que experimentou escrever em inglês e as letras fluíram como nunca tinha acontecido. “Isto é mega clichê, mas na altura falava imenso inglês porque andava com um canadiano, tive um desgosto e passei a escrever em inglês.” Em simultâneo, dotada de uma forte espiritualidade que se mantém na sua obra até hoje, fazia as suas orações na mesma língua. “Há coisas que não sabemos explicar, nem tudo é racional e a música muito menos. É um processo espiritual, é muito catártico.”

Lançou os primeiros temas em nome próprio durante a pandemia, uma série de singles que culminaram no EP Sleepwalker, editado em 2021. Nessa altura, Libra fazia R&B com vestígios de soul, mas não necessariamente porque era aquilo que desejava para o seu percurso artístico. “O produtor com quem trabalhava queria muito produzir uma cantora de R&B. Eu nem nunca ouvi R&B, nunca me puxou muito”, admite. Identificava-se com as letras que escrevia, mas a forma como usava a voz acarretava um “esforço” enorme. A equipa com que trabalhava acabou por se desmoronar e a cantora ficou desamparada, entregue a si mesma, a ponderar desistir da música e a agarrar-se ao seu emprego na área em que se tinha formado, a indústria farmacêutica.

"Somos pouquíssimas e eu não queria trazer uma cena a que a malta pudesse apontar o dedo. Se fosse homem, se calhar tinha começado há muito mais tempo. Estou sempre a calcular o que vou fazer porque tenho medo de ocupar um espaço que não é meu, muitas dúvidas, a pedir desculpa a cada passo que dou... Isso é muito feminino, tem muito a ver com a educação e é algo ancestral.”

“Estava prestes a desistir. Tinha um trabalho estável onde poderia progredir. Não gostava propriamente do que fazia, mas era suportável, e aquilo correu tão mal com a minha antiga equipa que me fui mesmo abaixo. Já achava que a indústria da música era um sítio muito tóxico e feio, mas fiquei mesmo desgostosa, a pessoa mais próxima que tinha na indústria atraiçoou-me e eu fiquei muito mal, muito deprimida.”

Foi nessa fase difícil, já em 2023, que Libra recebeu um convite que iria mudar a sua vida: fazer um concerto no Jardim de Verão da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, numa programação com curadoria de Dino D’Santiago dedicada à música afrodescendente.

Libra não podia recusar a oportunidade, embora nem sequer tivesse as suas próprias músicas — as faixas tinham ficado com o tal produtor e respetiva equipa com quem se tinha desentendido. Acabou por remontar todos os instrumentais através de elementos que guardara, numa prova hercúlea de superação. “Se consigo fazer isto, consigo fazer tudo”, lembra-se de pensar. Também acreditava que o concerto seria num dos palcos menores, mas acabou colocada no vistoso anfiteatro ao ar livre. Mais do que isso: foi um dia em que a Gulbenkian se encheu particularmente de público para assistir às performances.

“’Isto vai dar merda’, pensei. ‘Eu é que montei isto, o concerto não está nada de incrível…’ Estava super nervosa, mas fiquei calma quando entrei em palco, comecei a falar com as pessoas, toquei a primeira música, a malta adora, digo que sou da Rinchoa e de repente há uma mancha de gente de lá, caras que eu não via há anos mas nem foram lá de propósito, foi um acaso. Foi uma comunhão inacreditável com o público, foi uma loucura.”

Após o concerto, Libra foi convidada para fazer outras atuações e para participar em debates, o número de fãs que a seguiam nas redes também cresceu. “E foi quando recebi uma proposta de financiamento para fazer o meu projeto a tempo inteiro. Estava convencida de que não havia espaço para mim, para a minha música, e ali percebi que só preciso de encontrar as pessoas — ou as pessoas precisam de me encontrar a mim. Cada vez que tento desistir, acontece qualquer coisa… Mas ainda bem.”

Um rap feminista que já começou a abrir portas nos EUA

A sua vocação como rapper surgiu nesse momento. Finalmente, iria agarrar-se ao seu género favorito, à arte das rimas e beats, mesmo que tivesse muitos receios em avançar. “Uma mulher no rap vai ter sempre de provar três vezes mais do que um homem. Se puseres na balança um rapper medíocre e uma rapper muito boa, o público se calhar vai pô-los no mesmo sítio. Sentia muita responsabilidade: somos pouquíssimas e eu não queria trazer uma cena a que a malta pudesse apontar o dedo. Se fosse homem, se calhar tinha começado há muito mais tempo. Estou sempre a calcular o que vou fazer porque tenho medo de ocupar um espaço que não é meu, muitas dúvidas, a pedir desculpa a cada passo que dou… Isso é muito feminino, tem muito a ver com a educação e é algo ancestral.”

Composto na íntegra por Tayob J., o processo de construir Everyone’s First Breath foi longo. Libra aperfeiçoou, durante meses, a dicção, a velocidade e a entrega que queria dar a cada palavra. É um disco particularmente interventivo, com uma perspetiva feminina e feminista, feito para empoderar e ao mesmo tempo desconstruir. Se tivesse começado mais cedo no rap, admite, não teria a maturidade para escrever este álbum — fruto de muitas reflexões, aprendizagens e de uma profunda jornada espiritual.

“Reconectei-me com esse lado espiritual, que é muito importante, e isso fez-me perceber muitas coisas sobre mim própria — especialmente o que é ser mulher neste mundo. Tudo o que tem a ver com emancipação feminina sempre me emocionou muito. Nessa altura comecei a pensar: terá a ver com eu ser mulher num mundo que claramente foi construído com bases patriarcais? Sim, tem tudo a ver — a culpa, a insegurança. Abriu-me portas para perceber que há imensa coisa que não faz sentido e deixou-me com uma necessidade de escrever sobre isso, sobre a minha experiência.”

"Tenho uma história muito próxima, dos meus bisavós, que acabou muito mal por causa de racismo. A minha bisavó era negra, angolana, e o meu bisavô era português, de Bragança, loiro de olhos azuis. Casaram-se e depois separaram-se por causa de racismo, naquela época não foi aceite... E a minha bisavó ficou tão mal que se tornou alcoólica."

Libra revela que foi vítima de uma situação de abuso quando era mais nova — um assunto que quer abordar no próximo álbum — e que guardou sempre a culpa por não ter agido. “Por não ter falado e não ter feito queixa, outras miúdas passaram pela mesma coisa. Então trouxe isso comigo. Sou mega feminista e ligada à causa da equidade de género, não consigo parar de falar sobre isto e de lutar por isto, porque é como se eu tivesse ficado em falta com as outras mulheres, por não ter feito queixa na altura. É um sentido de missão por causa disso, é uma culpa que já não é culpa, que se transformou num ‘é mesmo preciso falar sobre isto’. Infelizmente, vai demorar imenso tempo até já não ser preciso.”

Em janeiro, desvendou o primeiro single após o álbum, Before I Become A Slave. Tem um registo acústico — pelo que combina com estes dois concertos especiais — e versos que denunciam a opressão patriarcal. “Who ever wins the battle tells the tale/They made us slow and steady/Made us dumb to win the race/We see it now it took a while/But now we are awake/First they wanted us silent/Now they weaponize our pain”, ouve-se no tema com composição de Cláudia Correia, a teclista que até há pouco tempo a costumava acompanhar nos concertos.

https://www.youtube.com/watch?v=q5flhdVcAZU

A grande novidade neste tema é a estreia de Libra em português, língua materna com que sempre embateu na música, mas que tem vindo a ganhar terreno na sua criação. “Sempre me chatearam muito com aquela coisa de ‘és portuguesa, devias cantar em português’ e isso dava-me raiva. Mas este ano deu-me qualquer coisa e saiu-me um verso… Muitas vezes procuro beats da net para escrever e dar movimento às minhas redes. Houve uma vez que me saiu em português, curti, era só um freestyle para o Instagram e explodiu. Do nada tem quase 500 mil visualizações, a malta adorou e eu estava com medo de lançar aquilo. Recebi imensas mensagens a dizer para escrever mais em português, que faltava imenso esta autenticidade no rap tuga, e comecei a pensar… Já que consegui fazer este, se calhar deveria experimentar outras coisas. Entretanto, estou a gostar muito de me descobrir em português, porque parece que é um alter-ego, como se tivesse uma personalidade diferente ao escrever em português. Talvez por ser a minha língua materna não vá dizer certas coisas com que me sinto confortável de dizer em inglês, mas ao mesmo tempo gosto muito de como as palavras soam e da forma como dá para as articular.”

Para Libra, rimar em português significa também mergulhar num registo mais íntimo onde residem inseguranças e angústias passadas. “Quando cresces, tornas-te uma pessoa muito diferente daquilo que eras na adolescência. Eu era muito nerd, a melhor aluna da turma, super gozada… Quando hoje vou para a Rinchoa, parece que volto a essa miúda insegura, parece que não ando da mesma forma que ando em Lisboa ou noutro sítio qualquer. Parece que volto a um ‘eu’ passado a que não gosto de aceder porque era muito insegura e não era de todo livre. Quando canto em português, estou mais perto desse ‘eu’, porque o inglês é muito mais distante; apesar de sentir cada palavra que digo, é o meu ‘eu’ de adulta. Ando a tentar perceber o porquê disto surgir agora, porque é que estou a conseguir e a gostar, porque é que me sinto mais confortável.”

"Quando canto em português, estou mais perto desse ‘eu’, porque o inglês é muito mais distante; apesar de sentir cada palavra que digo, é o meu ‘eu’ de adulta. Ando a tentar perceber o porquê disto surgir agora, porque é que estou a conseguir e a gostar, porque é que me sinto mais confortável.”

Ainda assim, não planeia de todo abandonar o inglês, até porque foi um dos elementos fulcrais para que, ao longo do último ano, conseguisse divulgar o seu trabalho internacionalmente — um objetivo que sempre ambicionou. Através das redes sociais, onde partilha freestyles de forma regular, Libra captou uma significativa audiência norte-americana.

“A minha audiência cresceu anormalmente nos Estados Unidos. Há coisas que me acontecem que eu realmente não consigo compreender. Houve um vídeo que fiz em inglês que teve uma exposição ridícula, mas não pelos melhores motivos. Estou com um decote muito grande e não me tinha apercebido — eu não ligo, as pessoas já perceberam que sou zero pudica, até gosto de provocar para deixar as pessoas desconfortáveis e perceberem que um corpo é um corpo e não é por ser um corpo nu que passa a ser um objeto sexual, que é o que acontece com o corpo da mulher”, defende, aludindo também à capa do disco e a videoclipes como o de Purity, onde expõe o corpo como um statement político e artístico, uma forma de empoderamento feminino.

Certo é que Libra conquistou milhares de fãs norte-americanos nas redes sociais, vários dos quais julgam que a artista é também dos EUA — por rimar em inglês num sotaque convincente —, e nesse movimento tem vindo a ser contactada por artistas com quem poderão surgir colaborações. Um deles, revela, foi o célebre The D.O.C., rapper colaborador dos históricos NWA e de Dr. Dre, co-fundador da Death Row Records e já agraciado com um Grammy de carreira.

https://www.youtube.com/watch?v=AgzVJr6q1v4

“Entretanto chegou mais gente, produtores que trabalharam com o Kanye [West] e o Justin Bieber, estou a fazer umas coisas com um mano que produzia o Nipsey [Hussle]… Muita malta da indústria, nem estou bem a perceber o que se está a passar. Sabes quem é o Marlon Wayans? Mandou-me mensagem na semana passada. Então agora o meu público é maioritariamente dos EUA. E depois há aquela coisa de que, se ganhas nome lá fora, facilmente ganhas nome em Portugal. Parece que tem de ser esse o caminho. Continuo a ser uma artista de nicho e acho que vou ser sempre, independentemente de crescer muito ou não. E até há pessoas que ouvem, que acham que sou lá de fora, e quando percebem que sou portuguesa parece que perde valor. Mas agora, com o português, as reações têm sido diferentes. Estou aos poucos a fazer as pazes com Portugal, mas tem sido uma jornada dura.”

De portas abertas ao mundo: as colaborações que quer fazer e o segundo álbum

Libra encara o futuro de horizontes abertos. Pretende expandir o seu trabalho em múltiplas direções, colaborando com artistas e fazendo concertos no estrangeiro. Gravou uma faixa com um artista angolano que deverá sair em breve e para março está planeado um tema com a rapper brasileira Clara Lima, referência da nova geração do rap consciente de São Paulo. “Fiz um álbum inteiro sozinha, agora quero muito conseguir fazer pontes para o resto do mundo.”

O segundo álbum começa, por estes dias, a definir-se na sua mente. “Este primeiro disco foi mais sobre mim, a minha perspetiva enquanto mulher. O segundo já não vai ser só sobre mim, vai ser quase uma tentativa de perpetuar a história da minha família, ao mesmo tempo que consigo curar traumas ancestrais. E também quero trazer a perspetiva masculina para este álbum.”

Libra pretende literalmente entrevistar os familiares para obter as suas perspetivas e recolher memórias e histórias que sempre ouviu e que poderão inspirar canções. São episódios reais concretos, mas também o panorama geral que é o passado colonial português — sobretudo para alguém que tem origens diversas, nessas tensões históricas que ainda hoje se fazem sentir, e que mexem com a identidade do indivíduo.

“De certeza que existiram violações que deram origem a antepassados meus, pessoas escravizadas e pessoas que escravizaram… Tenho uma história muito próxima, dos meus bisavós, que acabou muito mal por causa de racismo. A minha bisavó era negra, angolana, e o meu bisavô era português, de Bragança, loiro de olhos azuis. Casaram-se e depois separaram-se por causa de racismo, naquela época não foi aceite… E a minha bisavó ficou tão mal que se tornou alcoólica e acabou por morrer de cirrose. É uma história muito pesada e que nem se falava na minha família. Claro que a questão étnica acaba por estar sempre presente. Eu própria estou constantemente a lutar pelo meu lugar nesta batalha esquisita de cores.”

Ao mesmo tempo, no segundo álbum pretende refletir sobre o estado atual do mundo — os retrocessos no campo da emancipação feminina e a ascensão da extrema-direita, mas também os avanços tecnológicos sem precedentes. “Estamos a andar para trás em coisas que não devíamos, nos direitos humanos, a nível político… Parece que estamos a voltar aos anos 20 ou 30 no que toca a coisas muito assustadoras. Por outro lado, estás a andar muito para a frente também em tudo o que é digital, a inteligência artificial e tudo aquilo que te desconecta da terra… Faz-nos falta vivermos os tempos da natureza. Vivemos completamente ao contrário, constantemente a pôr os nossos corpos sob stress. E quanto mais desenvolves a sociedade a nível tecnológico, mais foges desse ritmo natural da terra. Antigamente não era assim, era uma coisa boa do tempo em que os nossos avós viveram. Mas, por outro lado, eles viveram coisas muito negativas e às quais estamos a voltar. Então gostava muito que neste álbum fosse possível falar sobre isto. Porque hoje em dia tenho de dizer as mesmas coisas que a minha avó dizia. Tenho que me preocupar em lutar contra fachos… Como assim? Mas alguma vez eu achei que seria assim?”

"Quero muito ir buscar o fado de Coimbra, estudei lá e tenho um amor muito grande à cidade, os meus avós estudaram lá, o meu avô é mesmo de lá. Quero buscar coisas que realmente tenham passado por mim, não vou às minhas raízes só porque sim.”

Musicalmente, gostava de explorar um som mais orgânico, embora o acesso a gravações com instrumentos reais dependa das condições que conseguir para fazer o disco. Imagina-o como uma banda sonora da sua vida, um álbum que retrate os lugares por onde passou, as referências que tem, as músicas que os avós ouviam — desde o fado de Coimbra à música tradicional cabo-verdiana.

“Quero muito que o meu próximo trabalho vá buscar esta cena nostálgica das várias identidades que tenho, inclusive para usar o inglês e o português. As pessoas gostam de meter tudo em caixinhas separadas, mas uma coisa pode ser várias coisas. E gostava de ir buscar referências às músicas típicas de cada uma das culturas com que cresci e a que fui exposta, como um coro ou um grupo de batukadeiras”, conta, apesar de não se rever na “apropriação” que acredita que tem marcado a música em Portugal nos últimos anos. “Tanto na parte africana como na portuguesa — vejo imensos artistas, malta de Lisboa, a ir buscar símbolos minhotos, uma cultura que nem sequer é a deles e com a qual não têm contacto nenhum. Então não me apetece entrar por aí. Quero muito ir buscar o fado de Coimbra, estudei lá e tenho um amor muito grande à cidade, os meus avós estudaram lá, o meu avô é mesmo de lá. Quero buscar coisas que realmente tenham passado por mim, não vou às minhas raízes só porque sim.”