Nos corredores da Web Summit Qatar, em Doha, as vestes tradicionais árabes, brancas para os homens e de tons escuros para as mulheres, misturam-se com as sapatilhas e jeans associados a quem trabalha em startups. Mais de 5.800 quilómetros separam Lisboa e Doha, mas, indumentária à parte, a Web Summit Qatar é uma cópia quase perfeita, à escala pequena, da edição lisboeta. Os robôs passeiam nos corredores, os visitantes tiram selfies e fazem vídeos. E também se ouve falar português. Na terceira edição do evento, a delegação portuguesa bateu um recorde: 23 startups viajaram de Portugal até ao Qatar.
De diferentes áreas de atividade e fases de maturidade, todas foram à procura de visibilidade na montra da Web Summit e de um contacto mais próximo com a realidade do país. Ainda para mais quando, logo no arranque do evento, o governo qatari anunciou que ia acrescentar mais dois mil milhões de dólares ao fundo de investimento do Qatar. E, para atrair startups e fundadores, deixou também a promessa de um programa de dez anos de residência para empreendedores, com redução da burocracia e benefícios fiscais a acompanhar.
O Observador falou com várias das startups portuguesas que, em alguns casos, se estrearam nesta Web Summit depois de vários anos a marcarem presença na ‘irmã mais velha’ lisboeta. A resposta vai dar sempre ao mesmo ponto: há capital disponível e abertura para oportunidades nesta região do mundo. “É um ecossistema em que a maior dor deles é ter dinheiro para investir e não saberem bem onde”, refere Miguel Amador, diretor tecnológico e responsável de inovação da Complear.
Criada em Guimarães, a Complear, uma empresa com quatro anos, lançou-se na área de conformidade de dispositivos médicos na saúde. “Todas as empresas que estão a desenvolver inovação na área da saúde têm de passar por um processo de certificação — e é aí que somos especialistas”, conta ao Observador. A plataforma e a ajuda técnica desenvolvida pela equipa da Complear permite que, “às vezes, o que são três meses de trabalho, possa passar a ser feito em poucas horas”. “Ficamos com a parte chata, aquela que ninguém quer fazer”, brinca.
No caso do Qatar, é a primeira abordagem que fazem “localmente ao mercado”. “Estar presente num evento internacional”, diz o empreendedor, “dá visibilidade a Portugal, ajuda quando vimos aqui”. Miguel Amador já passou por todas as Web Summit em Lisboa, desde 2016. “O Web Summit já é um bocadinho nosso — e dá aquela credibilidade no sentido de Portugal ser um sítio de startups, de inovação.”
Além da abordagem ao mercado, a empresa foi a Doha também à procura de investimento. “Estamos a levantar uma ronda de investimento série A neste momento, de dez milhões de euros para expandir para [o trabalho de conformidade em] novas áreas, como a defesa, aviação, automóveis”, explica Miguel Amador.

Rosane Marques, da startup ITRecruiter, também esteve pela primeira vez na cimeira do Médio Oriente. A empreendedora brasileira, que se fixou em Portugal, há alguns anos, já fez muitos eventos para divulgar o trabalho da empresa que alia o “toque humano” ao recrutamento em tecnologia. “Já fomos a quase tudo. O que é que estes eventos nos dão? Networking, reconhecimento de marca, contactos, apoio, oportunidade para para clientes, para interação, exposição à imprensa. O maior problema de uma startup é não ser vista”, explica.
Esteve apenas um dia na área de exposição do evento à procura da tal visibilidade. Os restantes dias foram dedicados à exploração de contactos. “Não temos parceiros aqui na região, vamos tentar novas parcerias, mostrar os nossos IA”, referindo-se aos assistentes de IA desenvolvidos pela empresa para, por exemplo, registar tabelas de time and attendance, usadas em empregos em que é preciso calcular quantas horas de trabalho são alocadas a determinado projeto ou cliente. “O Qatar está à procura de novas tecnologias e inovações, então acho a região bastante interessante.”
E não esquece um ponto de destaque. “No final de contas existe capital. Não adianta querer e não poder. No caso do Qatar, querem e podem [investir], então junta-se o útil ao agradável.”
Já Santiago Moncada, da startup Minve, veio com o objetivo claro de procurar investimento. “Estamos à procura de cinco milhões de dólares”, explica ao Observador. Mas há também o objetivo de tentar “estabelecer parcerias para o desenvolvimento na região.” É que, nota o empreendedor da startup focada na “venda rápida de empresas”, “o Qatar é muito importante porque tem ligação a outros países”. “Há a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos… são muito interessantes se for possível expandir a partir do Qatar.”

Há muito capital no Qatar — mas os investidores estão cada vez mais criteriosos
Para Ahmad Noureddine, que lidera a área de experiência da startup lisboeta AtivoLabs, foi a primeira vez no evento. Rodeado de startups de outras nacionalidades — no espaço ao lado a conversa é pontuada com animados allora em italiano — faz o balanço de “uma experiência positiva”, mas reconhecendo algumas diferenças no mercado. “É totalmente diferente de Lisboa, aquilo que querem aqui é muito diferente”, nota. Criada há três anos na capital portuguesa, a AtivoLabs usa “tecnologia, inteligência artificial (IA) e automatização para desenvolver um sistema operativo que se aplique a determinados mercados”, explica.
O mercado e a cultura do Qatar podem ser diferentes, mas há pelo menos um traço comum. “Aqui os investidores são como em Portugal, não gostam de correr riscos. Não investem a menos que se esteja a fazer dinheiro. Se se está em pre-seed ou uma ideia inicial não estão interessados”, explica Noureddine.
O principal objetivo da AtivoLabs passa “por ganhar alguma exposição mas também por explorar a entrada no mercado” do Qatar. “É como uma call exploratória.” Logo a seguir, recorda o anúncio de vantagens para as empresas que queiram fixar-se no Qatar. “Talvez criemos uma presença aqui para perceber como podemos lentamente entrar nesta região a partir do Qatar, como uma empresa portuguesa, claro.”
“Já houve investidores a passar por aqui, que não estão bem interessados na nossa ideia, mas sim naquilo que nós conseguimos fazer.” O empreendedor resume que, do que conseguiu perceber do Qatar, “estão sedentos por tecnologia”. Mas, para esta startup, “não é possível oferecer aqui o que fazemos na Europa, especialmente em termos de preço”.
E é para subir ou baixar preços? “Temos de reduzir o preço”, admite o empreendedor. “Há muito dinheiro aqui, mas não são cegos, são muito inteligentes na forma como investem.”
Também Miguel Amador, da Complear, já percebeu a ideia dos investimentos criteriosos. “É um ecossistema de exposição e inovação a quem realmente tem dinheiro para investir — mas claro que não vão investir às cegas. Cria-se é uma primeira abordagem.”

No Ocidente fecham-se negócios por chamada. No Qatar, é preciso “entrar num avião e vir cá”
Ricardo Semedo fundou a Laika Ventures em 2024, um estúdio de venture capital que investe em startups com um foco na área da inteligência artificial (IA). Não é a primeira vez que está no Qatar — nem será a última. “Já tenho vindo muitas vezes para o Golfo à procura de oportunidades, quer na Arábia Saudita, nos Emirados e agora no Qatar”, explica. “Acho que existem muitas oportunidades para as startups portuguesas, não só para as do nosso portefólio, mas em geral para fazer negócio.”
O investidor foi durante sete anos diretor de operações da startup Barkyn, a empresa de subscrição de produtos para animais de estimação, e, além da Laika, é também mentor da Unicorn Factory Lisboa. De todas as viagens que já fez à região, reconhece que é preciso adaptação a uma “forma diferente de fazer negócio”. “É preciso mais tempo, é preciso criar muito mais relação do que nós estamos habituados… Na minha opinião, há um mundo ocidental que é quase transacional, aqui é muito mais relacional.”
Há um maior foco no estabelecimento de uma relação de confiança do que simplesmente na avaliação de uma ideia de negócio. “No mundo ocidental é possível fechar alguns clientes por email e Zoom — e aqui isso não acontece. As pessoas querem ver quem se é, precisam de estar pessoalmente.” No Médio Oriente “percebe-se que isso é uma necessidade”. “Em vez de se andar seis meses a mandar emails e a tentar marcar chamadas por Zoom — que não vão funcionar ou têm uma baixa probabilidade — é entrar num avião e vir para cá.”
Ricardo Semedo faz um balanço positivo da participação na cimeira do Qatar. “Acho que esta Web Summit é uma grande oportunidade.” Ainda que destaque a dimensão mais reduzida do evento, em comparação com a versão lisboeta — se em Lisboa há 70 mil participantes, no Qatar o evento tem 30 mil pessoas. E, ao contrário de cinco pavilhões na FIL, tudo se passa dentro do mesmo espaço, o Centro de Exposições e Convenções de Doha (DECC). “As pessoas estão muito mais relaxadas, não há nenhuma corrida porque é preciso ir falar com aquela pessoa” ao local x ou y. Após reuniões e encontros quase por acaso, diz que teve “muitos bons contactos”. “Foi a primeira vez [no evento] e acho que já tive retorno do meu investimento”, admite.
Resume que é um “bom momento” para quem quiser explorar o mercado do Médio Oriente, mas considera “uma falácia querer tentar vir só buscar dinheiro”. “Há [no Qatar] tecnológicas muito grandes, há oportunidade de aprender.” Dá como exemplo a Snoonu, “um unicórnio que quase ninguém conhece”. “É uma oportunidade de percebermos que o mundo não está só na Europa, nem só nos Estados Unidos”, afirma. “Há muita coisa a acontecer aqui.”

“Qatar é um destino cada vez mais procurado pelas startups portuguesas”
Cinco startups portuguesas chegaram à Web Summit Qatar através do programa Business Abroad. Esta é uma das iniciativas a cargo da Startup Portugal para apoiar a internacionalização de startups criadas em solo português. O apoio inclui o acesso a eventos internacionais, a possibilidade de estar na área de exposição desses eventos a mostrar o negócio e também a participação em eventos de networking paralelos, focados na área de venture capital ou de oportunidades de negócio. Ficam de fora deste apoio os gastos logísticos, como bilhetes de avião, alojamento, etc. Várias das startups portuguesas optaram por enviar apenas uma pessoa ou equipas pequenas, de duas pessoas.
Alexandre Santos, presidente da Startup Portugal, também se estreou na Web Summit do Qatar, depois de ter assumido a presidência da Startup Portugal no ano passado. A agenda foi preenchida: entre reuniões e a presença no stand instalado na cimeira tecnológica, partilhado com a Unicorn Factory Lisboa. Um espaço onde os fundadores de startups portuguesas podiam reunir-se, mas também um ponto de passagem para curiosos interessados em saber mais sobre como navegar no empreendedorismo português.
https://observador.pt/especiais/startup-portugal-nao-faz-sentido-termos-tantas-startups-a-procurar-tao-cedo-o-mercado-dos-estados-unidos-da-america/
Em conversa com o Observador, Alexandre Santos explica que a Web Summit Qatar é uma das cimeiras tecnológicas que integra o lote de missões ao estrangeiro “por vários fatores”. “Primeiro, por ser organizado pela Web Summit, temos facilidade em promover iniciativas com eles nos principais eventos que organizam. Segundo, esta é uma das regiões do mundo em que cada vez mais há capital, talento a fixar-se cá e oportunidades de negócio”, sublinha. “Claramente é um destino que está a ser cada vez mais procurado pelas startups portuguesas”, diz Alexandre Santos.
No penúltimo dia do evento, quando conversou com o Observador, considerava ser possível fazer um balanço “positivo” da experiência no Qatar. “Faz-me lembrar um bocadinho o Web Summit [Lisboa] antes da Covid-19, em 2019”, refere. “Acho que é o tamanho ideal, acima de 30 mil, 50 mil pessoas já é muita gente.” A dimensão mais reduzida “permite muito mais contactos entre investidores, startups, empresas corporate.” Por exemplo, refere que é neste tipo de dimensão “em que se nota que há mais contactos casuais” que podem gerar oportunidades — quase a ideia de estar no sítio certo à hora certa.
Muitas das startups portuguesas foram ao Qatar “mais para explorar desenvolvimento de negócio”, afirmou antes de ter conseguido falar com todas as empresas sobre o retorno da experiência em Doha. Ainda assim, reconhece que “qualquer startup está sempre a tentar levantar capital”. “Vêm ver o ângulo de mercado, perceber se vale a pena abrir atividade, fechar negócios.”
E, assegura, também é possível perceber que há curiosidade em relação ao empreendedorismo português, mesmo a milhares de quilómetros de distância. “Nota-se que há uma curiosidade genuína sobre Portugal — e interesse. Temos tido várias abordagens no sentido de perceber o que estamos a fazer em Portugal, como é possível explorar o mercado do país.”
Arrumadas as placas de exposição nas booths de madeira no recinto de Doha, iguais aos do recinto lisboeta, a Startup Portugal vai ouvir as empresas e “perceber o que as startups querem explorar mais, quais os mercados quentes e ir ajustando” a lista de eventos internacionais. E o Qatar? “Vale a pena continuar, sim, acho que esta região não vai deixar de ser relevante de um ano para o outro.”

Lei para as startups e regimes especiais de vistos. Como o ecossistema português se projeta no estrangeiro
Não foram só as startups nacionais que tentaram captar a atenção dos curiosos. Tal como na Web Summit lisboeta, também no Qatar houve masterclasses — espaços com apresentações e onde é possível tirar dúvidas sobre vários temas. Uma delas foi dedicada à apresentação do ecossistema empreendedor português.
“Porque é que se deve escolher Portugal para ter uma startup e investir?”, era possível ler na descrição do evento na agenda da Web Summit Qatar. Numa sessão dividida entre a Startup Portugal e a Unicorn Factory Lisboa, traçou-se o retrato do empreendedorismo português, desde as 5.091 startups criadas no país ou dos sete unicórnios com ADN português.
Se nos primeiros anos o empreendedorismo português recorria a argumentos como as centenas de dias de sol por ano ou a proficiência em inglês, agora há mais predicados na lista de argumentação. Até porque, num país como o Qatar, onde em fevereiro há sol e temperaturas entre os 25 e os 28 ºC, o argumento do bom tempo não surte o mesmo efeito.
Aos curiosos, era apresentado o facto de Portugal ter talento e universidades distinguidas em rankings internacionais mas, acima de tudo, medidas para piscar o olho a empreendedores e empresas que se queiram fixar em território português.
Um dos destaques foi para a lei das startups, promulgada em 2023, legislação que enquadra o que é uma startup e uma scaleup, com benefícios específicos para estas empresas. Em linhas gerais, é o que permite a empresas deste tipo ter acesso a um regime específico para as stock options, que reduz para metade (14%) a taxa de IRS nas participações sociais deste tipo de empresas. “São exemplos de como ter o reconhecimento de startup pode ser benéfico para os fundadores e trabalhadores destas startups”, diz André Faria, gestor de relações globais da Startup Portugal. Ou, em relação aos apoios, aos programas de vouchers para startups e os vouchers para incubadoras.
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Logo a seguir, centra-se na possibilidade de acesso a vistos especiais. “Se são uma startup que se quer mudar para Portugal, há a opção do Startup Visa, que permite fazer uma ligação com aceleradoras e incubadoras, que vão poder ajudar a estabelecer-se no país”. “Ou, quando se estiver estabelecido em Portugal, é possível recorrer ao Tech Visa, uma forma para recrutar pessoas para a vossa startup de qualquer parte do mundo.” O Tech Visa é um programa que permite acelerar a contratação de cidadãos de fora da União Europeia para trabalhar na área tecnológica.
Embora estivessem na sala vários empreendedores portugueses, também havia alguns curiosos a assistir. Para fora, foi passada a mensagem de um ecossistema “muito motivado pela comunidade”, marcado por contactos diretos e “programas comunitários”. Mas as questões dos empreendedores estrangeiros foram além do sentido de comunidade, centrando-se em questões mais práticas — como com quem estabelecer os primeiros contactos, se há disponibilidade para nómadas digitais ou sobre os custos de instalar uma empresa em Portugal.
O Observador viajou até ao Qatar a convite da Startup Portugal