«A maioria dos caranguejos anda de lado, devido à estrutura articulada das suas patas, que se dobram para os lados, tornando esta forma de locomoção mais eficiente. Isto dito, e embora prefiram andar de lado, também conseguem mover-se para a frente ou para trás, mas de forma mais lenta e desajeitada».
Eu não conhecia nada dos caranguejos- para além do gozo imenso que sempre me oferece a sua compra, na charcutaria ao pé de minha casa, para posterior consumo-, pelo que fiquei grato por esta informação, em particular por causa daquela sua preferida lateralidade na locomoção: é verdade que também são capazes de andar para a frente e para trás, mas com maior dificuldade e menor eficiência nesse seu caminhar.
Essa sua especificidade suscitou-me de imediato uma breve reflexão centrada no facto de nós, seres humanos, possuirmos, como esses artrópedes, a faculdade de andar para os lados, para a frente ou para trás, mas declinando-as de maneira diferente: connosco, a lateralização e o recuo constituem tão só uma forçada manobra de recurso em face de um qualquer obstáculo que nos impeça de prosseguirmos em diante. Ou seja, no nosso caso, o costume é priorizarmos the way ahead of us- expressão aliás convertida em agradável refrão musical- , porque urge olhar para a frente se queremos sair da monotonia quotidiana: é assim agindo que, para nós, se consegue uma maior eficiência, apenas admitindo as outras duas alternativas em situação extrema e inevitável.
Pelo menos até hoje!
Esta minha afirmação exclamativa seria evidentemente pelo menos ousada ou estranha, se eu a tivesse feito no século passado. Não que não se tivessem então vivido momentos verdadeiramente ´fora da caixa`- um exemplo paradigmático foi o pisar do solo lunar, em 1969, pelo astronauta Neil Armstrong-, mas mesmo esse gigantesco salto para o futuro ainda estava a muitas milhas espaciais em relação às teorias e algumas práticas agora correntes, em que o estatuto central do Homem ( ou Mulher) no planeta Terra é seriamente posto em causa.
Esta perspetiva decorre do poder da IA, e da sua impertinente genialidade e vitalidade: de facto, tem vindo a transformar, paulatina e progressivamente, os modos de procedimento habituais nas múltiplas atividades que ocupam os cidadãos que somos. Diz-se por isso, que está em vias de ser gerada uma espécie de futuro Homem-máquina com as suas decisões a serem partilhadas pelos dois lados da equação- aqui a linguagem matemática adquire toda a sua validade: o prenuncio dessa espetacular e assustadora etapa na vida dos homens revela-se, ademais, numa etapa em que a dita Inteligência ainda vive os seus tempos de adolescência tecnológico-digital.
Refiro-me, em especial, à designada Inteligência Artificial Generativa, que saiu de uma caixa de pandora cheia de algoritmos, e que tanto nos entusiasma como nos apavora. Se ainda menina e moça, já influencia tanto o quotidiano das pessoas, o que ocorrerá quando, adulta, perceber o efetivo impacto junto das gentes, masculinas, e femininas também? Como reagirá, se a evolução corresponder aos espantosos vaticínios dos seus criadores?
Já sem esquecer uma preocupante reflexão por estes partilhada: embora naturalmente se congratulem pelos resultados já verificados, essa elite aristocrática de ´catedráticos` na matéria, admite ao mesmo tempo a hipótese de, em determinada fase do desenvolvimento do software, não se virem a entender quais as vias percorridas pelo mesmo para atingir os previstos propósitos. Ora tal situação pega-se intimamente com uma outra, ainda mais alarmante: quem pode garantir, diante da ignorância dos milhares de pais desta criança, que, igualmente no que se liga ao objetivo por eles fixado, venha a suceder uma qualquer alteração no sentido e essência do produto final? A extrema perigosidade daqui decorrente – e não apenas num contexto militar- deveria obrigar agora toda a gente envolvida, a privilegiar, em detrimento da evolução eufórica, o estudo de meios de controlo desta maravilha que se poderá metamorfosear em terrível monstro indomável: esta indesejável suposição levanta inevitavelmente uma série de tristes e angustiadas interrogações.
No meio desta grande incógnita sobre a excecionalidade de uma situação evolutiva que poderá desembocar em tremendas consequências para a própria sobrevivência da humanidade, falta obviamente a entrada em cena, de forma decisiva, do ´homem-caranguejo`, com a sua assumida lateralidade: quem , como ele, apresentará melhores condições para defrontar os grandes senhores das Tecnologias, e evitar uma provável catástrofe causada pelo excessivo ênfase concedido à ininterrupta continuação da experimentação, em detrimento de uma orientação que se paute pela análise dos eventuais e correspondentes riscos?
Os providenciais homens-caranguejos são todos aqueles que, não fazendo o elogio da lentidão – que, como sabemos, é não obstante, um conceito igualmente importante – defendem o princípio de que a eficiência deva ser sempre acompanhada por uma boa dose de prudência: os caranguejos, no seu andar-de-lado, demonstram-nos, com o seu exemplo, que é do mais elementar bom-senso não se contrariarem as leis da anatomia, porque só assim se acrescenta segurança e controlo à sua peregrinação rasteira. Penso que tal constatação poderá inspirar-nos no sentido de travarmos eficientemente, no contexto das nossas faculdades humanas, o infrene ritmo da corrente investigação: é necessário não se ter mais olhos que barriga, já que daí poderá resultar uma indesejável e insuportável indigestação.
Ser-se um autêntico homem-caranguejo significa, também, ter esperança de que a sua carapaça-convicção o protegerá contra todos os inconvenientes e agruras que esse equilibrado posicionamento naturalmente suscita num mundo agressivo e marcado por uma generalizada competitividade. Esse tipo de homem representa, afinal e apenas, o indispensável contrapeso da ponderação que deve ser instaurada contra um doentio individualismo, e fome de poder, dos donos das empresas tecnológicas referidas no seu conjunto por GAFAM- Google, Apple, Facebook( atualmente Meta), Amazon e Microsoft.
Recordo, a propósito, a história das então chamadas « Seven Sisters»- englobando as então maiores companhias petrolíferas do Globo- retratada pormenorizadamente por Anthony Sampson na sua obra com o mesmo nome: estas empresas cresceram sem praticamente qualquer controlo e beneficiando de uma quase total imunidade oferecida pelas autoridades políticas, acabando por se converter num cartel ou monopólio.
As semelhanças com as GAFAM saltam aos olhos. O fim dessa realidade que marcou fortemente o século XX sucedeu através da dita ´crise petrolífera `. O que virá a acontecer à IA ninguém sabe: até se pode imaginar que o Homem-caranguejo venha a ser ouvido. Isto dito, não esqueço a cerimónia na Casa Branca-, na sequência da tomada de posse do presidente Trump 2.0-, na qual, em vez de representantes do Congresso e das Instituições-pilares da democracia norte-americana, foram os proprietários das Grandes Empresas Tecnológicas a sentarem-se nos lugares de honra.