O Tiago Dores errou (e promete não voltar a referir-se a si próprio na terceira pessoa). Ao longo das últimas semanas, poderei ter deixado aqui, pelos pixels do Observador — ainda que de forma muito subtil — a ideia de que considero António José Seguro um indivíduo desprovido de fulgurante dinamismo. Alguns leitores podem até ter partilhado a impressão de que desconfio que Seguro é o elo perdido entre o coala e a lesma — que rebuscado, caros leitores.
Eis senão quando me deparo com a notícia de que Seguro tem, ou teve, ou fundou, ou gere, ou geriu (ou tudo isto e mais uns “OUs” que agora me escapam) um vasto rol de empresas. Parece que, afinal, estamos na presença de um Seguro que flirta com o arriscado. Temos empreendedor do qual Elon Musk podia muito bem ter dito: “António José Quê? Nunca ouvi falar.”
E nós também nunca tínhamos ouvido falar deste Steve Jobs das Caldas, porque a informação só veio a público agora, a escassos dias da eleição do Presidente da República. A esta segunda volta não passou, por exemplo, Marques Mendes (não pode ser tudo más notícias, que raio), em grande medida por a transparência de alguns dos seus negócios suscitar a qualquer londrino de 8ª geração um sincero “em 250 anos, a minha família nunca ouviu falar numa visibilidade tão diminuta.”
Mas enfim, é picuinhice minha, achar que devíamos ter conhecido os negócios de Seguro com a antecedência com que conhecemos os dos outros candidatos, para poderem, também eles, ser escrutinados. Afinal, há algum motivo para ficar de pé atrás com negócios envolvendo destacados dirigentes socialistas? Para mais quando um dos negócios tem, ou teve, ou terá (ou tudo isto e mais uns “OUs” que agora me escapam), como sócio, João Galamba, O Génio do Hidrogénio, que transformou investimentos em torno do elemento químico mais simples do universo, em alguns dos casos mais complexos da justiça portuguesa.
Bom, mas para tormenta bem bastou a tempestade da última semana. A depressão Kristin varreu o país com surpreendente violência, desde logo porque Kristin soa a ventania vinda da Escandinávia, com nome tipo IKEA e tudo, e não a temporal género “monção”. Sim, há quem já fale numa fase de “monções” na Península Ibérica. Ventanias típicas de regiões costeiras do Sudeste Asiático, agora também em Portugal. E podemos falar em monções há vontade, porque já temos uma comunidade do Bangladesh suficientemente grande para não contar como apropriação cultural.
Um dos locais mais afectados pela borrasca foi a Marinha Grande, que assim volta a ficar associada a uma campanha eleitoral para a Presidência da República. Há 40 anos, a Marinha Grande presenciou o estalo n’O Bochechas; agora, levámos uma chapada de um temporal que, de imediato, exibiu o previsível “E o Estado o Vento Levou”: só não vou dizer que nada funcionou porque, em princípio, mesmo o nada não deve ter ficado operacional.
Que ilações retirar desta catástrofe? Para já, é mais económico do que isso, porque não são precisas ilações: basta uma ilação. E essa, é a única ilação passível de ser retirada de catástrofes deste género: a de que ainda não entregamos dinheiro suficiente de impostos ao Estado para que o Estado possa, enfim!, apaziguar os deuses da meteorologia e sermos poupados à trágica consequência de perdermos a vida em função destes episódios adversos.
E mesmo isso não sei se será suficiente, que o Trump diz-se muito preocupado com a produção de chips para IA e tal, mas na verdade as fábricas lá na América não param é de produzir alterações climáticas. E nem com António “Era da Ebulição” Guterres podemos contar, uma vez que, segundo consta, o renomado gestor de falências parece agora bem lançado para liderar a falência da ONU, cuja falta será quase tão sentida como a de um furúnculo numa nalga.
Enfim, felizmente, tudo aponta para que, já a partir de Domingo, passemos a beneficiar da liderança de um António José Seguro que, em abono da transparência e para efeitos de liderança do reino, devia deixar cair o Seguro e adotar o cognome de António José “O Certificado de Aforro”: promete muito, mas são promessas do Estado.