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Entre dois nomes, quatro escolhas!

No dia 8 de fevereiro, importa dizer com clareza que não estão em jogo apenas dois nomes. Estão quatro escolhas, e cada uma delas revela, sem filtros, o país que somos.

Ricardo Neves de Sousa
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A segunda volta das eleições presidenciais, marcada para 8 de fevereiro, é recorrentemente apresentada como um duelo simples. Dois nomes, duas escolhas, um país dividido entre “um” e “outro”. A narrativa é cómoda, televisiva e eficaz, mas é também, redutora e sobretudo, falsa.

No boletim de voto da segunda volta não estão apenas dois candidatos. Estão quatro.

Além dos dois nomes impressos, há dois outros “candidatos” frequentemente desvalorizados, quando não tratados com condescendência moral, que são o voto em branco e o voto nulo. Ambos são opções políticas legítimas, conscientes e distintas e não um acidente estatístico ou um défice de cidadania.

O voto em branco não é ausência de opinião. Pelo contrário. É uma escolha clara que significa que o eleitor reconhece legitimidade democrática ao processo e aos candidatos, mas não se revê suficientemente em nenhum deles, concedendo-lhes, ainda assim, o benefício da dúvida. É um voto exigente, que diz, decidam melhor, convençam mais, elevem o nível.

O voto nulo, por sua vez, é ainda mais explícito. Traduz uma rejeição inequívoca das opções disponíveis. Não é hesitação é protesto. É a afirmação de que, para aquele eleitor, nenhum dos dois merece representar a magistratura suprema do Estado. É desconfortável para o sistema? Talvez. Mas é democracia em estado puro.

Ignorar estas duas opções é empobrecer o debate e infantilizar o eleitorado.

Mais inquietante ainda é outro fenómeno que estas eleições voltaram a expor, nomeadamente a volatilidade súbita de convicções. Como é possível que eleitores que, na manhã de 18 de janeiro, afirmavam convictamente apoiar um determinado candidato, surjam, no fim da noite eleitoral, a manifestar apoio público, entusiástico até, ao seu adversário direto?

Mudaram de ideias em algumas horas? Descobriram subitamente virtudes que antes ignoravam? Ou estamos perante um exercício de alinhamento oportunista, ditado pelo resultado e não pela convicção?

A democracia não exige fidelidade cega, mas exige coerência mínima. Quando a escolha política se transforma num acessório descartável, moldado ao vencedor do momento, algo mais profundo está em crise, concretamente a seriedade do compromisso cívico.

Há escolhas que não se proclamam porque não cabem em slogans nem em alinhamentos fáceis. Não nascem da indiferença, mas da recusa em legitimar opções que ficam aquém do que o país exige. Quando os votos que o sistema prefere tratar como rodapé (silenciosos, sem rosto e sem narrativa) ganham peso, deixam de ser ruído e passam a ser acusação. Dizem, sem rodeios, que uma parte significativa da sociedade espera do Presidente mais coragem, mais exigência e mais República do que aquilo que lhe foi oferecido.

A segunda volta não é apenas a consagração de um vencedor, mas sim, um teste à maturidade democrática, mais concretamente à forma como escolhemos, porque escolhemos e que limites estamos dispostos a aceitar em nome da estabilidade, do conforto ou da resignação.

No dia 8 de fevereiro, importa dizer com clareza que não estão em jogo apenas dois nomes. Estão quatro escolhas, e cada uma delas revela, sem filtros, o país que somos e o país que aceitamos continuar a ser.