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Depois da tempestade Kristin: quando o vento passa, o risco fica

A Kristin foi um fenómeno meteorológico. O desastre foi social. O que transformou uma tempestade violenta numa crise prolongada foi a fragilidade acumulada.

Nuno Miguel Pinto Paiva
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A tempestade Kristin atingiu Portugal continental na noite de 27 para 28 de janeiro com um perfil de vento que não pode ser tratado como um simples episódio extremo isolado. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera descreveu o fenómeno como um núcleo depressionário com ciclogénese explosiva a oeste da costa, marcado por vento muito intenso, influenciado por intrusão de ar extremamente seco. Não foi apenas “mau tempo”. Foi um tipo de evento que testa, de forma implacável, a preparação real do país.

Houve rajadas excecionalmente fortes, concentradas em períodos curtos, associadas ao fenómeno conhecido como sting jet, descrito pelo IPMA como um corredor estreito de vento muito intenso à superfície. Entre os valores divulgados surgem registos de 149 km/h no Cabo Carvoeiro e um máximo instantâneo de 175,9 km/h na Base Aérea de Monte Real. Foi ainda noticiado um valor superior a 200 km/h em Degracias, pendente de validação, o que reforça a natureza localizada e potencialmente devastadora destas rajadas.

Mas os números, por si só, não explicam o desastre. A Kristin foi um fenómeno meteorológico. O desastre foi social.

O que transformou uma tempestade violenta numa crise prolongada foi a fragilidade acumulada. Redes elétricas sem redundância suficiente, comunicações vulneráveis, dependência extrema de infraestruturas centralizadas e pouca margem de erro para comunidades inteiras. Na região de Leiria, vários órgãos de comunicação social relataram falhas simultâneas de eletricidade, água e telecomunicações, afetando centenas de milhares de pessoas. Quando tudo falha ao mesmo tempo, o problema deixa de ser o vento e passa a ser o sistema.

Há ainda um ponto que raramente ocupa o centro do debate público: a vulnerabilidade não é distribuída de forma igual. Quem tem menos recursos sofre mais, demora mais a recuperar e corre mais riscos. Não é apenas uma questão de telhados danificados, é a impossibilidade de comprar um gerador, de sair temporariamente de casa ou de perder dias de trabalho sem rendimento. Os desastres naturais são sempre amplificadores de desigualdades.

Após a tempestade, o Governo anunciou um pacote global de apoio de 2,5 mil milhões de euros e prolongou a situação de calamidade, alargando a sua abrangência territorial. A resposta financeira é necessária e urgente. Mas há uma pergunta que devia anteceder todas as outras: vamos apenas reconstruir, ou vamos reduzir risco?

Portugal tem um histórico preocupante de reconstruir exatamente aquilo que já falhou. Apressa-se a reposição, mas esquecem se as lições. Reconstrói se rápido, mas não necessariamente melhor. E é assim que o evitável se repete.

A gestão de risco não começa quando o vento sopra, nem termina quando o céu abre. É um ciclo contínuo que envolve preparação, resposta e recuperação. Preparação não é alarmismo, é rotina. É saber como comunicar quando a rede falha, que instituições precisam de prioridade energética, que edifícios podem servir de abrigo, que rotas alternativas existem quando as estradas ficam bloqueadas. Isso não se improvisa em plena emergência.

Mesmo depois de o vento abrandar, o risco permanece elevado. Alertas feitos pela Proteção Civil em zonas afetadas, como os registados em Pedrógão Grande devido a cabos elétricos caídos, mostram como o perigo continua presente quando a tempestade já passou. Muitas vezes, o período mais arriscado é precisamente aquele em que se acredita que o pior já terminou.

O pós Kristin devia ser um ponto de viragem. Os apoios públicos deviam estar ligados a critérios de redução de vulnerabilidade, reforço de redundâncias energéticas, melhoria de padrões construtivos e apoio técnico às famílias. Reconstruir melhor não é um slogan importado, é uma necessidade prática num país cada vez mais exposto a eventos extremos.

Enquanto se faz o balanço da Kristin, já se anunciam novos sistemas no Atlântico e na Península Ibérica, com avisos de chuva persistente e vento forte. A próxima tempestade não é uma hipótese distante, é uma certeza estatística.

A pergunta não é se voltará a acontecer. É se, da próxima vez, estaremos exatamente no mesmo ponto.

Quando o vento passa, o risco não desaparece. Fica, à espera da próxima oportunidade. A diferença entre mais um desastre e uma comunidade resiliente faz-se muito antes de a tempestade chegar.

Nota editorial: Texto baseado em informação divulgada pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, Proteção Civil, Governo de Portugal e por órgãos de comunicação social nacionais e internacionais, bem como em trabalho académico do autor sobre gestão de risco.