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(A) :: O problema não é o clima. É o Estado

O problema não é o clima. É o Estado

Mudaram os protagonistas, mas o enredo é inquietantemente semelhante: falhas na prevenção, descoordenação no terreno, comunicação errática e um Estado incapaz de proteger os seus cidadãos.

Magda Ferro
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A depressão Kristin deixou um rasto pesado no país: mortos, estradas intransitáveis, casas inundadas, explorações agrícolas destruídas, empresas paradas e populações desalojadas e isoladas durante dias. Para milhares de portugueses, o impacto foi imediato e concreto — perda de rendimentos, de bens essenciais e de segurança. Quase uma semana depois e as pessoas continuam sem eletricidade, sem água e sem um teto que as abrigue. No terreno, a perceção é clara: o Estado chegou tarde, descoordenado e sem liderança.

Este cenário não é um acaso. É o resultado previsível de um modelo de governação onde a filiação partidária continua a pesar mais do que a competência técnica na escolha de responsáveis públicos. Em tempos normais, este sistema gera ineficiência. Em contexto de crise, transforma-se num fator de risco nacional. A resposta à tempestade Kristin expôs de forma brutal esse problema estrutural.

Tudo falhou. Falhou a prevenção, falhou a articulação entre entidades, falhou a comunicação e falhou a liderança política. Três dias depois do desastre, a Ministra da Administração Interna mostrava absoluta surpresa quando inquirida sobre um possível plano de prevenção. Nunca lhe tinha ocorrido tal ideia. Isto não se trata de um lapso menor, mas da admissão de que quem tutela a Proteção Civil não domina os instrumentos básicos do sistema que dirige.

A Administração Interna não é um Ministério qualquer. É uma área onde a improvisação custa vidas. Exige conhecimento técnico, experiência operacional e capacidade de decisão rápida. Não é aceitável que ministros aprendam em funções enquanto o país enfrenta situações de emergência.

A este défice de competência soma-se outro problema grave: a total desconexão da realidade vivida pelos cidadãos. Muitos ministros governam a partir de uma bolha de privilégio, protegidos por salários elevados, gabinetes extensos e uma segurança material que os afasta da vida concreta das pessoas que governam. A declaração do Ministro da Economia, sugerindo que as vítimas da depressão Kristin deveriam “usar o ordenado do mês passado até chegarem os apoios”, ilustra de forma chocante essa alienação. Revela uma visão elitista que ignora quem perdeu tudo, quem vive com rendimentos mínimos ou quem simplesmente não tem poupanças para “aguentar mais um mês”.

Este filme não é novo. Em 2017, nos incêndios de Pedrógão Grande, mais de uma centena de pessoas perderam a vida numa das maiores tragédias da nossa história recente. Na altura, o Governo era do PS. Hoje, o Governo é do PSD. Mudaram os protagonistas, mas o enredo é inquietantemente semelhante: falhas na prevenção, descoordenação no terreno, comunicação errática e um Estado incapaz de proteger os seus cidadãos quando mais precisam. Esta tempestade demonstra que a incompetência não tem cor partidária — é um problema estrutural.

O custo deste modelo mede-se em vidas perdidas, prejuízos económicos, em respostas tardias, em autarquias abandonadas à sua sorte e em cidadãos que sentem que o Estado falhou. Cada nomeação feita por lealdade partidária em vez de mérito enfraquece a capacidade do Estado de responder a crises reais e a proteger os seus cidadãos e contribuintes.

A tempestade Kristin não revelou apenas falhas operacionais. Revelou um Estado excessivamente politizado, pouco profissionalizado e avesso à responsabilização. Um Estado que repete erros, independentemente de quem governa.

Portugal precisa de uma mudança estrutural: menos lógica partidária, mais exigência técnica; menos ministros em bolhas de privilégio, mais responsáveis que conheçam o país real. Caso contrário, continuaremos a enfrentar fenómenos extremos com um Estado frágil — e a pagar, coletivamente, o preço dessa fragilidade.