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Defender a democracia na segunda volta

António José Seguro não é, só por si, uma solução para problemas de fundo, mas representa uma garantia mínima de estabilidade democrática e de respeito pelas regras do jogo.

Joaquim Brigas
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Apoiei Henrique Gouveia e Melo na primeira volta por convicção cívica. Fi-lo por acreditar que o país precisava de uma candidatura independente, exigente e consciente das fragilidades do nosso sistema democrático, fragilidades essas que não se esgotam nos partidos, nem no Governo, nem no Parlamento, mas que atravessam todo o espaço público.

Tenho sido crítico do afastamento progressivo entre o Parlamento e o país real, da dificuldade de os governos assumirem políticas consequentes de coesão territorial e da incapacidade coletiva para densificar a representação democrática e dar-lhe territorial. O distanciamento ajuda a explicar o descontentamento que hoje se expressa de forma difusa e, por vezes, perigosa.

O descontentamento não surge apenas da política. É amplificado por um espaço mediático progressivamente marcado pela simplificação excessiva, pela lógica de polarização e pela redução do debate público a enquadramentos narrativos binários. Quando a complexidade política é substituída por slogans, emoções primárias e dinâmicas de confronto permanente, a capacidade deliberativa da democracia enfraquece e a sua vulnerabilidade aumenta.

É neste contexto que o populismo prospera. Não como resposta às falhas do sistema, mas como exploração comunicacional dessas falhas. O populismo não reconstrói a representação nem aproxima as instituições das pessoas. Substitui a mediação democrática pela personalização do poder – e a natural complexidade das coisas pela suspeição generalizada.

A segunda volta das presidenciais não é, por isso, um exercício de afinidade ideológica. É uma escolha institucional num ecossistema democrático fragilizado. Entre uma candidatura populista, assente na exploração mediática do descontentamento, e uma candidatura moderada e previsível, a hierarquização do risco é inevitável.

O voto em branco ou nulo pode exprimir protesto, mas não protege as instituições nem responde às fragilidades estruturais da democracia. Num contexto como este, a neutralidade é uma ilusão confortável: o que quer que se faça traduz uma escolha.

António José Seguro não é, só por si, uma solução para problemas de fundo como a falta de ligação ao país da representação parlamentar ou a falta de coesão territorial. Representa, contudo, uma garantia mínima de estabilidade democrática, de respeito pelas regras do jogo e de compreensão do papel moderador que cabe à Presidência da República.

Votar nesta segunda volta é um ato de afirmação democrática. A exigência começa no dia seguinte: religar o Parlamento ao país, construir políticas públicas sérias para o Interior, devolver densidade política ao espaço público e mediático. Para que seja possível trilhar este caminho, é necessário, antes de tudo, proteger os alicerces da democracia. O primeiro passo é votar no dia 8 de fevereiro.