Comprar casa em alguns dos maiores centros urbanos, como Lisboa, Porto e Faro, tornou-se “totalmente inacessível“, aponta um estudo da consultora Century21 Portugal, que compara os rendimentos dos portugueses com os preços da habitação e conclui que, a menos que se exceda os limites ao endividamento definidos pelo Banco de Portugal (máximo de 33% do rendimento gasto com a casa), nos centros urbanos só é possível comprar casas com menos de 50 metros quadrados.
A conclusão do estudo, apresentado nesta quinta-feira num evento que conta com a participação do ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, é de que nos últimos três anos “o acesso à compra tornou-se impossível nas capitais litorais para uma família média” e já só é viável nas cidades do interior.
“O número de capitais de distrito onde a compra era acessível (menos de 50% de taxa de esforço) passou de 16, em 2022, para 15 em 2025”, nota o estudo, acrescentando que, “no entanto, destas 15, mais de metade exige atualmente um esforço elevado (34%-50%), quando esse era o caso de apenas uma das 16 cidades acessíveis em 2022”.
Embora esse número se mantenha elevado (15), “a geografia da acessibilidade alterou-se radicalmente”, afirma, em comunicado de imprensa, Ricardo Sousa, diretor-geral da Century21. “Lisboa, Porto e Faro saíram completamente do mapa da compra acessível para as famílias das respetivas cidades”, aponta o especialista, concluindo que “isto significa que, em três anos, a habitação tornou-se um desafio intransponível nas principais capitais de distrito para quem compra a sua primeira casa na sua cidade”.
https://observador.pt/especiais/habitacao-apoios-aos-jovens-criaram-avalancha-de-compras-de-casa-e-ajudaram-quem-nao-precisava-afirma-diretor-geral-da-century-21/
O estudo compara os rendimentos líquidos médios anuais das famílias (com base nas declarações fiscais publicadas pelo INE) com os custos de acesso à habitação (preços de venda e rendas contratadas), apurados pela Confidencial Imobiliário. A análise incide sobre 40 municípios, incluindo capitais de distrito de Portugal Continental, concelhos das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto e municípios do Algarve, tomando como referência habitações de 90 m².
As conclusões apontam para “um mercado em forte desequilíbrio“. “Entre 2022 e 2025, os rendimentos cresceram a um ritmo médio de 16%, traduzidos numa média de pelo menos mais 200 euros por mês. Mas, em contrapartida, os preços e as rendas cresceram de forma muito mais acentuada“, afirma a Century21, notando que “em 2025, apenas 13 cidades (metade das quais no interior) oferecem habitação de 90 m² por menos de 200.000 euros”, quando “em 2022 esse era um patamar observado em 35 dos concelhos analisados”.
Um “padrão de exclusão territorial: a cidade expulsa os seus residentes”
Comparando os rendimentos médios dos portugueses e os valores praticados na habitação, a Century21 conclui que “nas regiões mais pressionadas (Área Metropolitana de Lisboa, Área Metropolitana do Porto e Algarve) uma habitação considerada financeiramente acessível e sem esforço (menos de 33% do rendimento gasto com a casa) tem hoje, em termos médios regionais, entre 35 e 50 metros quadrados“.
Em termos simples, o cálculo é feito ponderando o preço das casas (aquisição ou arrendamento) e os valores que teriam de ser pagos por mês, seja com prestações de crédito ou rendas. A constatação é que, à luz dos rendimentos médios em Portugal e os preços por metro quadrado, a casa que é possível comprar ou arrendar tem dimensões insuficientes para uma família.
Por exemplo, “na Área Metropolitana de Lisboa, os rendimentos mensais variam aproximadamente entre 1.600 euros na Amadora e 2.300 euros em Oeiras, mas os preços apresentam diferenças muito mais acentuadas”. “Lisboa e Cascais exigem hoje entre 420.000 e 450.000 euros por uma habitação de 90 m², enquanto Oeiras ronda os 380.000 euros e a Amadora se situa nos 210.000 a 240.000 euros”, diz a Century21. Nos restantes concelhos os valores situam-se, em geral, entre 210.000 e 290.000 euros.
“No arrendamento, as rendas tornaram-se mais homogéneas, situando-se entre 1.100 e 1.700 euros, com apenas o Montijo ligeiramente abaixo dos 1.000 euros”, nota o estudo, salientando que “desde 2022 os preços e as rendas aumentaram 40% ou mais na maioria dos concelhos, enquanto os rendimentos cresceram cerca de 15%”.
Comprar uma casa de 90 metros quadrados implica hoje mais 68.000 a 114.000 euros do que há três anos, o que se traduz em prestações cerca de 300 euros superiores. No arrendamento, os aumentos rondam os 400 euros mensais, contra subidas salariais próximas de 200 euros”, diz o estudo.
O estudo nota que, “dentro de um orçamento considerado “sem esforço” (até 33% do rendimento líquido disponível), a área acessível encolheu drasticamente: em Lisboa, Cascais e Oeiras, comprar permite hoje apenas 35 a 45 metros quadrados”, ao passo que “nos concelhos da Margem Sul, a área caiu de 85–95 metros quadrados em 2022 para 55–65 metros quadrados atualmente”. Isto cria, diz a consultora, um “padrão de exclusão territorial: a cidade expulsa os seus residentes“.
Como já tinha indicado Ricardo Sousa numa entrevista recente ao Observador, “perante um problema estrutural, só soluções estruturais são eficazes”. “Não se trata apenas de construir mais casas”, sublinha o diretor-geral da Century21 Portugal, “é onde se constrói, como se constrói e para quem se constrói”.
Entre as “medidas urgentes a implementar de imediato” estão a) aumentar o parque de habitação social de forma sustentada; b) revisitar os Planos Diretores Municipais numa escala metropolitana integrada; c) rever os códigos de construção para agilizar e modernizar o processo e; d) investir em Investigação & Desenvolvimento (I&D) para impulsionar a industrialização da construção.
“Na habitação, mais do que opiniões, o país precisa de diagnósticos sólidos e de execução consistente numa lógica de longo prazo para construir cidades sustentáveis, resilientes, acessíveis e inclusivas”, defende o diretor-geral da Century21 em Portugal.