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(A) :: Entre os pingos da chuva, lá fora e dentro. Seguro leva campanha ao pós-Kristin e controla Ventura pelo retrovisor

Entre os pingos da chuva, lá fora e dentro. Seguro leva campanha ao pós-Kristin e controla Ventura pelo retrovisor

Dia do candidato resumiu-se a uma ação de campanha, a primeira em terreno devastado pelo temporal. Candidato quer agora acelerar passo para garantir margem de separação do candidato que vem atrás.

Rita Tavares
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João Porfírio
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“É preciso muita resistência para ser empresário no interior”. António José Seguro tenta apelar ao espírito beirão, mas a desolação com a última semana é tal que o presidente da Câmara de Proença a Nova, o socialista João Lobo, apenas atira de volta que “ser empresário aqui é um desafio maior, mas é preciso solidariedade“. Com o temporal de quarta-feira, houve aulas interrompidas e prejuízos globais de cerca de 20 milhões de euros, segundo a autarquia. O centro empresarial que Seguro visitou está aos bocados, com água a entrar nas instalações, chapa torcida, máquinas encharcadas. Há árvores caídas a toda a volta. E uma campanha que passa pela primeira vez entre os destroços provocados pela passagem da depressão Kristin.

O candidato tem de entrar numa das fábricas por entre canteiros enlameados e chapas de metal caídas. O acesso à entrada está todo tapado por uma árvore que caiu. “Passou uma semana e, portanto, é possível vir sem que se crie algum entrave aos trabalhos da Proteção Civil”, dizia aos jornalistas que lhe perguntavam sobre o que mudou para, agora, já levar a campanha até ao terreno. Nos primeiros dias, Seguro deslocou-se sozinho a Leira, Ourém e Marinha Grande, para “ver com os próprios olhos” e falar com responsáveis políticos, autoridades, população e empresários. Mas não há registo público de nada disso.

Garante que seguiu sempre de perto, por “dezenas” de chamadas telefónicas por dia, o desenvolvimento da situação na região centro. Chegou a ter uma ida a Soure prevista para sábado, mas cancelou à última hora devido à possibilidade de agravamento do mau tempo na região. Com o adversário, do lado de lá, a multiplicar ações de campanha relacionadas com o que aconteceu na semana passada, Seguro foi também marcar o seu ponto, numa altura em que volta a colocar mais uma carga de pressão sobre o Governo.

Primeiro era para que avançasse com medidas, apontando várias propostas nos primeiros dias, agora a pressão passa para a execução “rápida” das mesmas. Não quer deixar de apanhar o comboio da insistência junto do Governo, onde André Ventura já embarcou há muito, com críticas diárias. Seguro evita entrar na mesma onda e garante que é assim que quer continuar: disse que as medidas apresentadas para responder à crise no centro do país “vão no bom caminho”; classificou de “competente” Paulo Fernandes, o ex-presidente da Câmara do Fundão que o Governo escolheu para coordenar a estrutura de missão para apoiar a recuperação das áreas afetas pela tempestade Kristin.

Sem sair do registo menos confrontacional, vai apenas exigindo a Montenegro que os apoios definidos “cheguem rapidamente para reconstruir quer o edificado, quer também alguns equipamentos que foram danificados.” E garante que ele mesmo vai monitorizar a situação, caso seja eleito Presidente da República no próximo domingo. Aliás, além das reuniões que quer com os autarcas de terras atingidas pelo temporal ainda antes da posse e também o primeiro Conselho de Estado, que terá como tema  a defesa e a segurança (das populações), esta terça-feira ainda acrescentou a intenção de voltar a visitar a região na semana da tomada posse (que será a 9 de março), “para avaliar que os apoios anunciados chegaram mesmo ao terreno”.

“A realidade é a maior pressão. As pessoas estão aflitas, quer os empresários, quer as pessoas que ficaram com danos nas suas casas, precisam rapidamente ter esses apoios. Portanto, eu não percebo qual é a dúvida”, disse aos jornalistas durante a vista às empresas para colocar peso na necessidade de uma resposta célere às populações. Mas também prometeu aos empresários que encontrou nessa manhã que, caso chegue a Belém, fará igual pressão para que as medidas sejam “claras”. Afinal, no grupo que o acompanhava estava um empresário, Carlos Silva, que o alertava para “letra pequena” dos apoios que foram anunciados pelo Governo, avisando “que aquilo não é tão simples como eles ali colocam.”

Outra dimensão da influência que quer exercer junto do Governo é sobre a prevenção de situações como a que ocorreram. Ainda que não o diga com todas as letras, Seguro vai dando sinais de desconforto com a forma e tempo da respostas às populações quando tudo aconteceu na quarta-feira. “A maior prevenção não é o logo se vê”, disse a este propósito, apontando a necessidade de existirem “meios organizados, comando, operacionalização para que seja rápido”. Mas como? “É necessário que exista um comando de comunicação de crise”, foi dizendo pedindo uma “articulação mais fluída entre a dimensão municipal e a nacional”.

Quando questionado se, quando for tempo da avaliação do sucedido nestes dias, o país deve voltar a falar da regionalização, trava a fundo: “Não misturava as duas coisas. Temos de ter um plano estratégico de segurança, de energia. Em primeiro lugar é preciso darmos respostas concretas para garantir que em situações de emergência as pessoas estão protegidas pelos Estado”. Fica-se pela necessidade de “organizar competências”.

Rumo ao Algarve. Prossegue o tira-teimas com Ventura

A visita fez-se literalmente entre os pingos da chuva, que caiam do tecto quase na mesma intensidade que lá fora. E a carga prevista para a tarde fez com que a caravana tivesse cancelado um comício (ou “sessão”, como na caravana preferem chamar a estes encontros) previsto para Coimbra ao fim do dia. As iniciativas de campanha ficaram, assim, reduzidas a uma única. Mas na candidatura há a intenção de pôr o pé na estrada nos últimos dias, com a mensagem política focada essencialmente na mobilização do voto — a abstenção é temida.

E vai prosseguir a marcação a Ventura. Esta quarta-feira, Seguro vai estar em Castro Verde (onde na primeira volta superou o adversário por escassos 270 votos) e também há previsão para uma passagem em Albufeira (onde Ventura dominou e que é, também, uma das três câmaras do Chega no país). No dia anterior fixou-se em Portalegre e inaugurou uma nova mensagem para marcar bem a separação de águas que existe entre si e Ventura, na expectativa de conseguir fazer levantar do sofá os “democratas” vindos de outras candidaturas da primeira volta, mas que possam estar menos motivados para pôr a cruzinha à frente da sua cara no boletim de voto.

A queda que tem sido apresentada nas sondagens diárias da CNN Portugal tem causado alguma perplexidade junto da candidatura. Foi o desfile de apoios das primeiras semanas? O temporal e a consequente comparação da resposta de Ventura e à contenção de Seguro face ao Governo? É uma consequência da pouca mediatização que a campanha tem tido neste segundo acto? Será a vantagem que Seguro leva nas sondagens, que lhe dão uma vitória garantida? Não se arrisca uma resposta única nesta fase, mas para quem fixou uma fasquia para lá do que precisa, Seguro sente agora a urgência de correr atrás de qualquer que seja o prejuízo.