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Vila Galé quer fazer "projetos de habitação a preços controlados" e pede "solução intercalar" para aeroporto

Presidente do grupo Vila Galé apela a soluções para a habitação, "problema gravíssimo que foi 12 anos esquecido", e pede "facilidades" ao Governo. Aeroporto deve ter "solução intercalar alternativa".

Ana Sanlez
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Alguns vidros partidos, portas e painéis solares perdidos. Com vários hotéis nas zonas mais afetadas pela depressão Kristin, como Coimbra, Tomar e Figueira da Foz, o grupo Vila Galé registou apenas “alguns danos”, mas nada “comparado com a desgraça que algumas pessoas sofreram”, afirma Jorge Rebelo de Almeida, presidente do grupo hoteleiro. No que toca a cancelamentos “terá havido algum impacto, ainda não quantificado”, adianta Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador do grupo hoteleiro ao Observador. Sem desvalorizar “a desgraça” que assolou o país, Jorge Rebelo de Almeida afirma que o que aconteceu na semana passada em Portugal “é a natureza a funcionar”.

O impacto das tempestades dos últimos dias não foi maior na hotelaria porque “janeiro é o mês mais fraco do ano” nos hotéis. O presidente do Vila Galé não poupa, porém, nas críticas à gestão da calamidade, nomeadamente à rede elétrica. “Não temos nada a funcionar bem nesta área. A EDP continua com aquele seu estilo… não é uma companhia eficaz”.

Na apresentação dos resultados de 2025 e das perspetivas para 2026 que teve lugar esta terça-feira, a grande novidade do grupo Vila Galé, e o foco do principal responsável do grupo, foi o setor da habitação, um “problema gravíssimo que esteve 12 anos esquecido”. Jorge Rebelo de Almeida revelou que o grupo “está disponível, como seguramente todas as empresas deste país que têm responsabilidade social, para fazer projetos de habitação a preços controlados“, tanto para arrendamento como para venda, para pessoas que trabalham nos hotéis mas não só. Para isso, precisa de “algumas facilidades na resolução dos problemas de terrenos e acabar sobretudo com aquela história de terrenos agrícolas que não são agrícolas nem nunca serão e continuam presos por uma reserva agrícola ficcional”.

O grupo apresentou duas propostas para avançar com a construção de habitações, uma à câmara de Lagoa e outra à de Lagos, em terrenos que pertencem ao grupo mas onde não era permitida construção “por razões de planeamento, mas que não existindo nenhum fundamento real para não construir, eu disse ‘estes terrenos são doados para nós construirmos habitação para as pessoas'”, explicou Jorge Rebelo de Almeida.

O responsável do grupo hoteleiro fala na necessidade de “pacotes de incentivos”, nomeadamente “deduções fiscais” para que as empresas possam avançar para este tipo de projetos. Isso e “as câmaras não demorarem anos a licenciar”. O presidente do Vila Galé apela a uma “mobilização” em municípios como Lisboa, Porto e Sintra “para limparem os projetos antigos que lá estão, e já iam dar um grande contributo à resolução do problema da habitação”.

Para Jorge Rebelo de Almeida, o problema da habitação está relacionado com outros, como o da imigração. “Se não tivéssemos imigrantes, o PIB caía em flecha, ninguém o apanhava. Sem medidas urgentes para resolver este problema, os imigrantes vão em frente e vão para outros países da Europa”, defende, criticando “algumas vozes disparatadas que temos no país que dizem que a imigração é um tormento… a imigração é uma necessidade”.

Uma “solução intercalar alternativa” para o aeroporto e voos de madrugada

A outra grande preocupação do grupo Vila Galé continua a ser o aeroporto de Lisboa. “Continuamos a não ter o privilégio de ter um aeroporto em condições”, atira Jorge Rebelo de Almeida, que defende uma “solução intercalar alternativa” à Portela e até que não haja aeroporto em Alcochete, como “Alverca ou Sintra”. E sugere ainda uma “fase prioritária” em Alcochete, que demore menos de 12 anos a completar, “só com um terminal simples e pronto para receber charters e companhias low cost“.

Outra das ideias passa por “deixar arrastar um bocadinho os slots” da Portela. “Vemos os aeroportos do Brasil que não perdem negócio, aliás, os voos mais baratos são os noturnos, que permitem a muita gente fazer viagens mais económicas. No Ceará chamam-lhe o voo da madrugada, parte pelas três da manhã”, exemplifica, pedindo “mais tolerância”. Em Lisboa, os voos estão interditos entre a 01h00 e as 05h00.

Gonçalo Rebelo de Almeida também pinta um cenário pouco otimista sobre a evolução do turismo nos próximos anos, atrelada às limitações do aeroporto Humberto Delgado. “Não há milagres. O aeroporto de Lisboa não serve só Lisboa, serve toda a área metropolitana e é a principal porta de entrada para o Alentejo e o Centro. Durante 12 anos, o número de turistas no país não terá muita capacidade de crescer”. Segundo o gestor, o fluxo “estabilizou num nível satisfatório”, mas o aeroporto “inibe a procura de novos mercados e o desenvolvimento turístico”.

O crescimento da procura “está a vir da Ásia, nomeadamente da China, Vietname, Indonésia, Tailândia… são países que começam a viajar com grande volume. Se não temos capacidade para atrair rotas deste países eles vão para outros. Já estão em Paris, em Roma…”. O facto de ter passado a haver um voo direto de Lisboa para a Coreia do Sul atirou este país para o top 15 de emissores de turistas no ano passado. “Corremos o risco de perder este crescimento. Portugal vai perder este comboio, que vai ser apanhado mais por Espanha”, antecipa Gonçalo Rebelo de Almeida.

“Quando dizem que há duas cidades esgotadas (Lisboa e Porto), estamos longe disso. E temos um interior maravilhoso e gigantesco para encher de turistas. Era bom que não nos colocássemos na posição de recusar fluxos” de turistas, corrobora Jorge Rebelo de Almeida.

Segundo Gonçalo Rebelo de Almeida, o turismo de Lisboa começou, no ano passado e pela primeira vez em alguns anos, a sentir uma retração. “Aconteceu uma coisa que foi entrarem vários hotéis a fazer promoções de preço. Nas previsões do gestor, “Lisboa começou a dar sinais de estagnação e não vai crescer substancialmente”. A câmara ainda tem algumas dezenas de projetos “pendurados” e, “se o número de turistas não cresce e abrem mais hotéis, perde-se ocupação e haverá tendência para degradar o preço”, antecipa. Rebelo de Almeida acredita que a capital tem espaço para crescer, mas não em todas as zonas. “Os bairro ‘A’ ou ‘B’ se calhar não precisam desse crescimento, mas a cidade não está esgotada. Tem é de alargar, também do ponto de vista dos transportes e da dispersão dos pontos de atração como concertos, espetáculos, provas desportivas e eventos”.

Portugal com pouca margem para crescer. Turistas americanos “circulam mais”

O ano de 2025 foi “intenso” e “positivo” para o grupo Vila Galé, que faturou 321 milhões de euros, mais 15% do que no ano anterior. A geografia que mais contribuiu para o crescimento (23%) foi o Brasil, que registou um aumento de 12% de taxa de ocupação. Em Portugal e Espanha, que o Vila Galé trata como uma única geografia, o crescimento foi de 8%, mas à boleia do aumento do preço médio de venda com a mudança de segmentos de alguns hotéis, já que no número de turistas houve uma estabilização. O grupo estima ter fechado o ano com um EBITDA na ordem dos 125 milhões de euros, uma subida de 15%.

O grupo conta atualmente com 34 hotéis em Portugal, 13 no Brasil, um em Espanha e quatro em Cuba. Em Portugal “há poucas perspetivas de crescimento”, ao contrário do que acontece no Brasil, onde há mais margem para ir buscar novos públicos. No ano passado foi “beneficiado pela melhoria da situação na Argentina e pelo crescimento disperso de outros mercados, entre eles Portugal”. Cerca de 88% dos clientes são brasileiros, mas chegaram a ser 94% ou 95%.

Em Portugal, 50% dos hóspedes são nacionais. “São os que têm respondido melhor à recuperação de património”. Nos últimos anos, o Vila Galé tem transformado alguns edifícios históricos em hotéis, como o antigo Paço do Curutelo, em Ponte de Lima, uma das unidades inauguradas em 2025.

No último ano consolidou-se o mercado dos Estados Unidos como o terceiro maior emissor de hóspedes, ultrapassando o Brasil. À frente continuam o Reino Unido e a Alemanha. Segundo Gonçalo Rebelo de Almeida, o Canadá “também tem estado a dar sinais” de crescimento, o que ajuda a explicar “a maior perturbação no aeroporto, uma vez que há mais turistas de espaços não Schengen e o controlo é mais complicado”. São boas notícias para a hotelaria, porque é um “tipo de turismo que traz mais valor, o turista americano fica mais dias e circula mais”.

Escavações em Lisboa vão começar. Cuba “não está fácil”

Até 2028, o grupo tem em vista a inauguração de 12 hotéis: seis em Portugal e outros seis no Brasil. O investimento total previsto é de 210 milhões de euros. Para este ano não há aberturas previstas em Portugal, mas para 2027 há quatro: o Paço Real de Caxias, em Oeiras; o Mirandum, em Miranda do Douro; o Vila Galé Tejo na Golegã; e o Vila Galé Penacova. Para o ano seguinte fica marcada a abertura de um hotel na ilha Terceira e o Tejo e Fado, no Palácio Almada Carvalhais no Largo do Conde Barão. Um projeto que Jorge Rebelo de Almeida confessa ser “um sonho antigo”.

O imóvel foi adquirido com o projeto de arquitetura aprovado, segue-se a aprovação das especialidades, como água, esgotos e eletricidade, que “por norma é mais rápida” para a luz verde final. Mas o grupo já está a contratar as equipas de escavação que vão ser necessárias, devido à provável presença de achados arqueológicos, e que serão feitas à mão. Apesar do calendário mais longo, o grupo queria ter já um quarto-modelo pronto nos próximos meses.

No Brasil, o Vila Galé prevê abrir em 2027 as unidades São Luís, Maranhão e dois hotéis em Corupipe. Para 2028 ficam agendadas as inaugurações em Florianópolis e Brumadinho (Minas Gerais).

Sobre os quatro hotéis em Cuba “e a perspetiva de mais um grande”, Jorge Rebelo de Almeida admite que a “situação não está fácil”. Além da tensão com os EUA, o destino teve dificuldade em reerguer-se no pós-pandemia, porque os mercados que procuravam Cuba “orientaram-se para outro lado” como a Costa Rica e “outras ilhas das Caraíbas”. A ilha continua a ter uma “boa procura do mercado canadiano”, garante.

O “maior constrangimento é a falta de eletricidade e a falta de combustível”, mas ambos têm sido superados e não há hotéis parados. Quanto ao fornecimento de combustível da Venezuela, “ainda não se notou mas acredito que pode vir a notar-se, mas há outras fontes de abastecimento”. Para já, “não há sinais de complicação, há dificuldades como sempre houve. Cuba tem de resolver os seus problemas internamente, não é com Trump”, diz Jorge Rebelo de Almeida.

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O grupo abriu em 2024 um hotel em Espanha, em Isla Canela, que no ano passado “correu melhor” que no anterior, apesar de não ter sido atingido o objetivo de receita. “É mais sazonal que o Algarve”, admite Rebelo de Almeida, que explica que o Estado espanhol assume os encargos com o encerramento do destino “durante seis meses porque os operadores decidem não trabalhar no inverno, uma ajuda que nunca tivemos em Portugal”.

Sobre outras geografias, o presidente do Vila Galé admite que “adorava ter um hotel em Sevilha”, mas não agora, porque o mercado está muito aquecido. “Não vou pagar o dobro do que ele vale. Os preços estão acima da realidade do negócio, vamos ter de esperar por uma oportunidade porque gostaríamos de crescer”.

Jorge Rebelo de Almeida revelou ainda que na próxima semana irá a Cabo Verde e Moçambique, também com a expansão na mira. Ainda que na localização que deseja em Moçambique “há uma guerrilha instalada e não vejo meio de aquilo parar”. Por agora, “12 hotéis já dão agua pela barba”.

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