No dia 10 de março de 1977, Roman Polanski, um dos cineastas mais reconhecidos em Hollywood, foi buscar a casa Samantha Gailey, de 13 anos. Uma suposta sessão fotográfica para uma série transformou-se numa cena de violação, depois de Polanski dissolver um sedativo potente em champanhe e dar a Gailey, mesmo com os pedidos da jovem para que Polanski se afastasse, de acordo com os depoimentos da jovem em tribunal em 1977, como lembrou a ABC News. É sobre essa noite e esse período que trata o filme The Girl: A Life in the Shadow of Roman Polanski (A Rapariga: Uma Vida na Sombra de Roman Polanski), com base no livro de 2013 a respeito das memórias de Geimer, apelido de Samantha depois de casar. O filme, previsto para 2027, ainda não tem data concreta de lançamento, mas já há previsão de começo de gravações para o início deste ano, em Los Angeles, noticia o The Guardian.
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Depois do depoimento de Geimer, Roman Polanski, realizador dos sucessos Chinatown — que venceu um Óscar de Melhor Argumento Original e que lhe valeu o Globo de Ouro de Melhor Realizador — e O Pianista — premiado com Óscar de Melhor Realizador e Óscar de Melhor Argumento Adaptado, em 2003 —, esteve detido durante 42 dias para testes psiquiátricos. Na sequência da sua libertação, após perceber que iria voltar a ser preso, Polanski fugiu dos Estados Unidos em 1978, tendo apanhado um voo de Nova Iorque para Londres e, de seguida, para Paris, revelou o TheNew York Times. na altura. Polanski não pôde receber o Oscar que lhe foi atribuído pessoalmente uma vez que, desde a sua fuga, nunca mais esteve em território norte-americano sob pena de ser serdetido por fugir à justiça.
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Mas “este filme não é sobre Polanski” diz ao The Guardian Marina Ziolowski, cineasta franco-americana que assina a realização e guião do filme. “É sobre Samantha Geimer, sobre devolver a história a Samantha, após anos a ser moldada por terceiros. Contado inteiramente através das memórias e da vida de Samantha, o filme restaura o seu protagonismo e complexidade. Íntimo e imersivo, The Girl é um ato de recuperação profundamente humano – confrontando a forma como o poder, o mito e a distorção mediática apagaram a verdade de uma criança, e honrando a sua resiliência”, esclarece Ziolowski.
Na sinopse do filme produzido pela WestEnd Films lembra-se que Geimer e a mãe, “numa tempestade mediática implacável” na altura, foram perseguidas por paparazzi e que a jovem viu a sua privacidade ser desrespeitada, “no momento em que mais precisava de proteção”. “Juntas, mãe e filha, devem lutar para recuperar a voz de Samantha e preservar o que resta da sua infância”, lê-se.
Apesar de tudo, Geimer perdoou Polanski e admira-se da forma como conseguiram montar a história que foi um “fardo” na sua vida. “Nunca imaginei que pudesse ser transformada em algo lindo. A criatividade e sensibilidade da Marina tornaram isso possível e isso, para mim, é uma dádiva”, contou Samantha, citada pelo jornal britânico.
Para isso contribuiu também Carolyn Kachen, que encarnará a Samantha de 1977. A jovem atriz ucraniana foi selecionada entre centenas de atrizes juvenis, depois de um casting “impressionante que antevê a revelação de um grande talento”, conta a produção ao portal Deadline. O projeto conta ainda com Dree Hemingway no papel da mãe de Samantha, e com Gore Abrams, que interpretará o papel de padastro de Geimer e será das raras produções europeias com subsídios fiscais nos EUA.
Mas não foi só Geimer a processar Polanski. Entre 2017 e 2019 também outras quatro mulheres acusaram o cineasta de abusos sexuais na década de 70. Três eram menores na altura dos alegados abusos. Em 2010, a atriz Charlotte Lewis também acusou o realizador de abusos sexuais quando esta tinha 16 anos. Polanski negou todas as acusações. Pelo menos um dos casos acabou em acordo, tendo sido arquivado.
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O cineasta de dupla nacionalidade polaca e francesa divide agora a sua vida entre Suíça e França. O último dos dois países não tem acordos de extradição com os EUA, como relatou o EL País em 2015, aquando de uma detenção de Polanski em solo polaco. E a Suíça, onde Polanski chegou a ser detido em 2010, também negou a extradição para os Estados Unidos, noticiou a BBC.