Quando começaram a circular as primeiras notícias que davam conta de uma aparente greve de Cristiano Ronaldo, com o jogador português a recusar jogar pelo Al Nassr, o cenário parecia tão estranho e repentino que até custava a acreditar que tivesse mesmo decidido não competir. Afinal, desagrados à parte, Ronaldo sempre colocou o sucesso desportivo à frente de tudo o resto. Desta vez, porém, sentiu que era a única maneira de mostrar que não está a brincar.
Logo depois de surgirem as primeiras notícias, ainda na noite de domingo, o primeiro sinal de que o português não iria mesmo aceitar ser convocado para o jogo de segunda-feira contra o Al Riyadh chegou através de Fabrizio Romano. Enquanto a comunicação social da Arábia Saudita ainda avançava que Cristiano Ronaldo estava em dúvida por problemas físicos, o jornalista italiano que tantas vezes já serviu de porta-voz das vontades e pensamentos do jogador garantia que este não iria jogar e que a ausência não estava relacionada com uma lesão, a carga competitiva ou uma gestão física. Era mesmo uma opção.
https://observador.pt/2026/02/02/o-jogo-em-que-a-unica-noticia-foi-a-ausencia-do-omnipresente-al-nassr-soma-quinta-vitoria-seguida-mas-ronaldo-falha-jogo-em-protesto/
E uma opção que se confirmou. Cristiano Ronaldo não apareceu no onze inicial nem no banco de suplentes à disposição de Jorge Jesus para a visita ao Al Riyadh e o Al Nassr acabou por ganhar pela margem mínima e com um golo de Sadio Mané, aproveitando ainda o empate do Al Hilal com o Al Ahli para ficar a um ponto da liderança do Campeonato. O português não falou, ainda não emitiu qualquer comunicado e não foi visto no estádio ou nas imediações do recinto, sendo que também não terá treinado já esta terça-feira e permanece totalmente em dúvida para o encontro de sexta-feira com o Al Ittihad de Sérgio Conceição.
Apesar de ter ficado sem a principal referência da equipa, o Al Nassr parece apoiar o capitão e juntou-se ao silêncio ao implementar um blackout que fez com que Jorge Jesus não surgisse na flash interview e na conferência de imprensa, para além de que os jogadores também não passaram na zona mista. O motivo para o descontentamento prende-se com um alegado favorecimento do Al Hilal por parte do Fundo Público de Investimento da Arábia Saudita, negligenciando o Al Nassr, o Al Ittihad e o Al Ahli, os outros três clubes que detém.
E os números dão razão a Cristiano Ronaldo. Ao todo, entre 2023 e 2026, o fundo que gere a fortuna da família real saudita colocou 624 milhões de euros no Al Hilal e 409 no Al Nassr, uma disparidade de 215 milhões em três anos que acaba por estar no cerne da questão. Nas últimas horas, o mercado de inverno agudizou ainda mais o problema: depois de já ter investido mais de 30 milhões de euros em Pablo Marí e Kader Meïté, o Al Hilal ainda recebeu Karim Benzema, que também falhou três jogos do Al Ittihad por ter ficado “ofendido” com a proposta de renovação, e reforçou ainda mais a equipa de Simone Inzaghi.
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Do lado do Al Nassr, a janela de transferências foi bem mais magra: Wesley e Haroune Camara saíram por empréstimo e chegaram Haydeer Abdulkareem e Abdullah Al-Hamdan, um médio de 21 anos que estava no Iraque e um avançado de 26 anos que era excedentário no Al Hilal. Informado da possibilidade de Karim Benzema se juntar a Rúben Neves, Theo Hernández, Malcom, Darwin e Marcos Leonardo, Cristiano Ronaldo terá sentido que a ida do avançado francês para o rival de Riade era a gota de água numa disparidade de tratamento que já tinha sido abordada por Jorge Jesus.
“Não temos o poder político do Al Hilal, mas não estou à procura de desculpas para resultados negativos e não estou habituado a fazê-lo. Sou o principal responsável por estes resultados e preciso de procurar soluções, não desculpas. O que disse é verdade, mas assumimos a responsabilidade pelos nossos erros”, disse o treinador português depois da derrota com o Al Hilal, há cerca de três semanas, em declarações que levaram o clube que já treinou a garantir que iria apresentar queixa junto das instituições competentes.
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Para além da questão do investimento, do mercado de inverno desigual e do facto de o Al Hilal estar na liderança do Campeonato, Cristiano Ronaldo sente-se pessoalmente desrespeitado pelo Fundo Público de Investimento. O capitão da Seleção Nacional tornou-se uma autêntica bandeira do futebol da Arábia Saudita desde o momento em que assinou pelo Al Nassr, no final de 2022, e defende que merecia mais respeito e consideração — tendo até em conta que aceitou ser o embaixador da candidatura saudita ao Campeonato do Mundo de 2034, que o país vai organizar.
Ronaldo tem contrato até 2027, tendo renovado em junho do ano passado, e uma cláusula de rescisão no valor de 50 milhões de euros — um patamar difícil para alguém alcançar, nesta fase da carreira do jogador português, mas exequível até para o próprio se quiser mesmo forçar a saída da Arábia Saudita. Ainda assim, por agora e já a pensar no Campeonato do Mundo do verão, Ronaldo procura estabilidade e ritmo competitivo que lhe permitam chegar à Seleção Nacional na sua melhor versão e com a capacidade de ajudar a equipa de Roberto Martínez. No final da temporada, um regresso à Europa ou uma aventura pelos EUA estarão sempre em cima da mesa. Resta saber quanto tempo dura a greve.