Parte do país está convencida de que Portugal tem apenas um problema: André Ventura. A outra parte está convencida de que Portugal tem apenas uma solução: André Ventura. Pessoalmente, não acredito que Ventura seja um problema ou a solução. Ele goza de carta branca e, por isso, pode se dar ao luxo de nadar contra a corrente, representando efectivamente uma parcela significativa dos cidadãos e eleitores antissistema, por estar na oposição, algo impossível para a direita no governo e para a esquerda que é orgânica a esse sistema.
É claro que Ventura e o seu partido têm vindo a explorar ao máximo esse “isolamento” para promover uma linha antissistema que nem o Governo nem esquerda podem apoiar. Contudo, caso esse “isolamento” conduza Ventura à vitória, não poderá agir de outra forma: ele alinhar-se-á aos ditames internacionais – institucionais, europeus, atlânticos, económicos e globais -, como de resto acontece com a direita em Belém ou no governo e com a esquerda mesmo quando está na oposição. Obviamente que nada disto significa que Ventura terá de abandonar todas as batalhas políticas anunciadas, mas que o alcance da sua acção para mudar radicalmente a realidade do país é muito limitado. Se não aceitar essa “servidão”, se se quiser manter fiel à sua vocação original antissistema, Ventura será rapidamente varrido do poder; na verdade, ele nem sequer chegará perto dele. Escapar dessa espécie de colonização, exigiria muita coragem, alianças sólidas, estratégias de longo alcance… condições que Ventura não tem nem mesmo em sonhos. De qualquer forma, teria sempre Ursula von der Leyen para lhe lembrar “que se as coisas correrem mal”, a Comissão Europeia “tem as ferramentas para intervir”, como em Itália, Roménia, Hungria e Polónia.
Portanto, para lidar com a realpolitik, o mundo, o contexto, os compromissos e o equilíbrio de poder, Ventura teria de suavizar o seu radicalismo ideológico e adoptar um estilo mimético ao estilo centro-direita, como tem vindo a fazer a astuta Georgia Meloni, em Itália, que em três anos passou de “herdeira do fascismo” a “líder da Europa”. Nada de transcendente para um ex-militante do PSD – que vê em Belém um ensaio para chegar a primeiro-ministro – que passou de um para sessenta deputados em apenas seis anos.
Ora, é justamente por estarem cientes dessa sua capacidade de se adaptar ao mundo, e não de adaptar o mundo às suas ideias, que as elites políticas se uniram em massa, como o proletariado de Marx, contra Ventura. Não para o combater no campo das ideias, mas para impedir uma “normalização” que colocaria a sua própria sobrevivência em risco.
Então, há que invocar a retórica do regime fascista de um passado distante para despertar a consciência dos “bons”. Um velho vício daqueles que não conseguem viver sem listas de proibições, excomunhões e certificados de pureza ideológica. Assim, da extrema esquerda ao centro-direita, dos grandes jornais aos principais canais de televisão – que continuam a confundir esperança com notícia e ideologia com realidade – todos se alinharam à adoração por Seguro. A estrela socialista. O homem que irá salvar a democracia portuguesa, perigosamente ameaçada com a livre expressão política de um líder partidário.
De qualquer forma, os camaradas unidos convenceram-me. Agora ficou claro que meia dúzia de iluminados julga que pode brincar de trocar de poder até ao fim dos tempos: “Hoje somos nós, amanhã são vocês”, o importante é que nós, a Esquerda, e vocês, o Centro-Direita – agora indistinguíveis – nos alternemos no Poder até ao ano 2999 e mais além”. Como se os votos dos cidadãos não tivessem relevância alguma.
Votar – isto é, em Ventura e no Chega – não significa uma escolha num candidato com o qual os eleitores se identificam, mas sim ser um “atrasado mental”, como diz o ex-deputado socialista Sérgio Sousa Pinto, apesar dos seus modos muito liberais e o seu saber e eloquência. Mas não termina aí.
Eis a apoteose de Sérgio Sousa Pinto: considerar o Chega menos perigoso do que o PS, só será possível se “apagarmos a História” e considerarmos que “os anos 30 não existiram”.
Resumindo: votar em Ventura e no seu partido é votar na reencarnação de Hitler, Mussolini e Salazar, logo, quem vota neles é, portanto, racista, ou seja, um nazista, fascista, um nostálgico salazarista. E isso prova, de facto, que o racismo, o nazi-fascismo, está entre nós, razão pela qual nos devemos mobilizar contra o perigo iminente (embora perpétuo, Umberto Eco).
Sejamos honestos: alguém acredita que Ventura nos quer levar de volta ao fascismo? Ora, todos sabem que isso não é possível, que tal hipótese é inconcebível, e ainda assim fingem, fingem de forma cobarde, de total má-fé, fingindo alarme e horror.
Se alguém do outro lado retribuísse o seu racismo ético e ideológico com o mesmo ódio absoluto e militante, o resultado seria este: votar na extrema esquerda é votar na reencarnação de Lenine, Estaline, Mao Tsé Tung, Pol Pot, Kim Jong-IL e Fidel Castro, então, quem vota nela é a favor do totalitarismo, da violência partidária, da tirania do bem maior, dos expurgos e dos gulags, da KGB, da Stasi, das Brigadas Vermelhas, e, portanto, um terrorista ou um anarco-insurrecionista. No entanto, os socialistas apagaram a História e esqueceram os anos 1917-1922 e 1958-1961. Nem mesmo quando o PCP enfeitou as principais cidades do país com as suas bandeiras, os socialistas viram nisso o perigo iminente de uma ditadura comunista em Portugal. Pelo contrário, viram, sim, nos herdeiros do comunismo, uma oportunidade para alcançar o poder e derrubar o governo de direita, a quem acusou de ter “uma agenda antidemocrática e xenófoba” (e novidades?). Então, o PS liderado por António Costa “normalizou-os”, perfumou-os e vestiu-os de fato e gravata. E a extrema esquerda, para sobreviver, aceitou tornar-se dócil, isto é, ela deixou-se domar, entrou no sistema, levantou a pata quando o domador mandou e até brincou com uma bola no nariz, como focas treinadas.
Portanto, há os “atrasados mentais” que votam na direita, e depois há os adiantados mentais que votam na esquerda. E são os valores e princípios dos adiantados mentais que devem ser defendidos e levados em consideração.
A ditadura dos outros é sempre pior. E essa sempre chega, nunca a que se deseja. E tão grande é o medo de que se torne uma ditadura contra os nossos interesses, o nosso conforto, que no fim aceita-se uma democracia ineficiente, onde o dano é enorme, mas os erros, embora graves, são mais dispersos e remediáveis…
E então, permitam-me dizer: não se sentem envergonhados, enojados e constrangidos por se unirem para salvar a democracia enquanto a minam?