I O Escândalo da Impunidade
Para a mente bem-pensante, educada nos valores do consenso liberal e da etiqueta democrática, o cenário político contemporâneo é um enigma indesejado. Como é possível que figuras que violam sistematicamente as normas de conduta — que insultam, que mentem, que ignoram protocolos institucionais ou que acumulam processos judiciais — não sejam punidas nas urnas, mas sim recompensadas?
O fenómeno é transversal e ignora as velhas bússolas ideológicas. Vemo-lo em Donald Trump nos Estados Unidos, em André Ventura em Portugal, em Jair Bolsonaro no Brasil, ou em figuras inclassificáveis como Nayib Bukele em El Salvador. À superfície, pouco têm em comum. Mas, fenomenologicamente, partilham o mesmo ADN: são a encarnação política do “arruaceiro”.
O comentador televisivo, perplexo, repete que eles ganham “apesar” do seu mau comportamento. A realidade, porém, é muito mais desconfortável e exige uma coragem analítica diferente: eles não ganham apesar da transgressão; eles ganham por causa dela.
O eleitorado não está cego. O eleitorado está a ver exatamente o que essas figuras são. E o que vê não lhe causa repulsa, causa-lhe um fascínio magnético que a moralidade convencional é incapaz de desarmar.
II O Grande Criminoso e a Nudez da Lei
Para decifrar este fascínio, é inútil recorrer à ciência política tradicional. Temos de recuar a 1921 e ao ensaio Para uma Crítica da Violência (Zur Kritik der Gewalt), de Walter Benjamin. O filósofo alemão detém-se sobre uma figura que a sociologia ignora: o “Grande Criminoso” (der große Verbrecher).
Benjamin nota algo perturbador: as massas, embora presas à obediência e ao medo, sentem uma atração inconfessável pelo indivíduo que desafia o Estado. O fascínio pelo “bandido” não decorre da aprovação dos seus crimes, mas da violência pura que ele encarna.
O Estado moderno opera através daquilo a que Benjamin chama “violência conservadora de direito” (rechtserhaltende Gewalt). É uma violência cinzenta, burocrática, feita de formulários, multas, regulamentos e proibições silenciosas. O seu objetivo não é criar, é manter. É a violência que nos obriga a parar no sinal vermelho, a pagar impostos e a medir as palavras no local de trabalho.
Contra esta monotonia asfixiante, o “Grande Criminoso” surge como o portador da “violência fundadora”. Ele prova, com a sua própria existência, que a Lei não é absoluta. Ele expõe a fragilidade da estrutura que nos oprime. Quando um líder político fala como um gangster, ignora um juiz ou ameaça “partir a loiça”, ele não está apenas a ser mal-educado. Ele está a oferecer ao cidadão comum uma experiência estética proibida: a visão de alguém que exerce a Potência sem pedir autorização.
III A Revolta contra a Domesticação
A emergência destas figuras é, portanto, o sintoma de uma fadiga civilizacional profunda. O homem moderno sente-se domesticado. A sua vida foi capturada por uma rede técnica de gestores, departamentos de recursos humanos, algoritmos e normas de linguagem politicamente correta. A promessa liberal era a liberdade, mas a realidade quotidiana é a vigilância e a contenção.
Neste contexto de impotência generalizada, o voto no candidato “fora-da-lei” funciona como um mecanismo de compensação psicológica. É um ato de transgressão vicária.
O cidadão médio, que não pode gritar com o patrão nem ignorar as Finanças, vota no homem que grita com o Sistema e ignora as convenções. O líder “arruaceiro” torna-se o avatar da soberania perdida do indivíduo.
Quando André Ventura faz um discurso inflamado no Parlamento, ou quando Trump desafia o tribunal, o eleitor sente um prazer visceral. É o prazer de ver a Autoridade — aquela entidade abstrata e fria que governa as nossas vidas — ser humilhada em público. Não se trata de concordar com um programa de governo (muitas vezes, o programa é inexistente ou contraditório). Trata-se de aderir a uma estética de força. O eleitor projeta nessas figuras a capacidade de agir que lhe foi roubada.
IV A Proteção do Bando
Há ainda uma camada mais funda, que toca na estrutura tribal da espécie humana. Num mundo globalizado, líquido e incerto, onde as instituições tradicionais falharam na sua promessa de proteção, o regresso à “lógica de gangster” oferece um refúgio paradoxal.
O Estado de Direito é lento, processual e, muitas vezes, indiferente. O “Bando”, pelo contrário, opera numa lógica de lealdade imediata. O líder populista ou autoritário comunica com a sua base não como um Presidente, mas como um Padrinho. Ele estabelece uma distinção clara entre “nós” (os amigos, o povo real) e “eles” (os inimigos, as elites, os outros).
Esta simplificação brutal do mundo é reconfortante. O gangster político promete proteger os seus, não através da lei universal, mas através da força seletiva.
O erro fatal dos moderados e da imprensa estabelecida é tentar combater estas figuras com verificação de factos (fact-checking) ou lições de moralidade cívica. Dizer “esse homem é um perigo para as instituições” é, aos olhos da base eleitoral, o maior elogio possível.
Para uma grande parte da população, as “instituições” não são o garante da democracia; são o inimigo. São o lugar onde se perde tempo, dinheiro e dignidade. Quem as ataca não é um vilão; é um vingador.
V O Fim da Era da Inocência
Estamos, portanto, a assistir ao colapso da política como gestão racional e ao regresso da política como teatro de forças. O sucesso global do “bandido amado” de Benjamin prova que o desejo humano por ordem e segurança não elimina o desejo, talvez mais antigo, de Potência.
A lucidez obriga-nos a reconhecer que a “hipocrisia universal” — a cola que mantinha as sociedades liberais unidas — secou. As pessoas preferem a brutalidade honesta de quem diz “eu mando porque posso” à polidez falsa de quem diz “eu mando para o teu bem”.
O “Grande Criminoso” é o herói trágico de um tempo que deixou de acreditar na Justiça processual e passou a rezar apenas pela Força. Resta saber se as democracias terão a robustez para sobreviver a este regresso do reprimido, ou se estamos condenados a ver a Lei transformar-se, definitivamente, na vontade do mais forte.