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(A) :: Secretário de Estado da Administração Interna criticado por promover recandidatura a distrital do PSD no dia da tempestade

Secretário de Estado da Administração Interna criticado por promover recandidatura a distrital do PSD no dia da tempestade

Governante explica que email estava agendado e disparou "automaticamente". Críticas no PSD de Setúbal estendem-se a composição do seu gabinete.

Mariana Lima Cunha
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Eram 17h11 do dia 28 de janeiro quando chegou às caixas de email dos militantes do PSD de Setúbal uma mensagem nova. No rescaldo do temporal, por volta da hora a que Luís Montenegro falava na sede da Autoridade Nacional da Proteção Civil ao lado de Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna, a mensagem era assinada pelo secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna. Mas o seu conteúdo não tinha nada a ver com a tempestade Kristin: é que o governante, Paulo Ribeiro, é também presidente daquela distrital do PSD — e queria anunciar a sua recandidatura.

No email, a que o Observador teve acesso, o governante e dirigente distrital do PSD lembra que as eleições para os órgãos locais do partido foram marcadas para dia 28 de fevereiro, daí a um mês. E explica que quer comunicar que é “recandidato à Comissão Política Distrital do PSD de Setúbal”, assumindo a recandidatura com “grande comprometimento” e foco principal no próximo desafio eleitoral: a preparação das eleições autárquicas de 2029.

Ora o email, enviado naquele timing e por um responsável da área da Administração Interna, caiu mal junto de vários militantes do PSD, que se manifestaram em diferentes grupos de Whatsapp associados às estruturas e listas internas do partido. “As pessoas estão indignadas“, explicava um deles ao Observador, falando numa “insensibilidade que chocou”.

Questionado pelo Observador, o governante e dirigente social democrata desvaloriza, explicando que o envio da mensagem foi “automático”: “O email foi preparado dia 26 ou dia 27, e foi agendado para disparar automaticamente no dia 28”. “Para mim, é uma não notícia”, remata, aludindo a um grupo pequeno de críticos internos que tenta “criar ruído“.

Ao Observador, o social democrata David Cristóvão, que no mandato anterior foi deputado municipal em Almada — tendo a confiança do PSD sido retirada, a certa altura, por críticas que fez a acordos do partido com o PS — e com “a questão sanada” voltou a ser candidato nestas autárquicas, assume as críticas. “Isto levantou muita insatisfação sobretudo internamente”, explica, acrescentando algumas críticas à promoção do governante — que no anterior mandato foi secretário de Estado da Proteção Civil.

“Colocar pessoas sem experiência na Proteção Civil coloca as pessoas em risco”, argumenta, dando eco às críticas sobre o facto de Paulo Ribeiro ter sido incluído nos dois elencos governativos sem experiência nestas áreas (é licenciado em direito e tem uma pós-graduação sobre contratação pública, é advogado e foi deputado, vereador e membro da Assembleia Municipal de Setúbal e da Assembleia Metropolitana de Lisboa antes de chegar ao Governo).

As críticas têm também a ver com Paulo Ribeiro ter promovido militantes do partido. “Estamos à espera de mais e diferente do que faria o PS. Estas pessoas não estão preparadas para estes lugares”, critica um responsável com assento em órgãos nacionais, apontando para a promoção de “boys” no partido.

Paulo Ribeiro, também em respostas ao Observador, contextualiza: conta com pessoas do PSD, mas não só, no seu gabinete. “Tenho duas pessoas do PSD do meu distrito, uma da parte da comunicação, outro adjunto político. De resto há oficiais da PSP, juristas da secretaria-geral do MAI, um militar da GNR e uma jurista da ERSE, além de quadros da direção geral do Orçamento”.

Já o ex-militante Zeferino Boal, secretário-executivo do OSCOT (Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo), critica a “completa falta de sensibilidade” do governante, explicando que abandonou o PSD no verão, comunicando a decisão a Luís Montenegro e Hugo Soares, por causa de “exemplos destes” e de ver o PSD como uma “escola de jogos e de empregos” — Setúbal será o “máximo expoente disso”.

A discordância com o partido também surgiu depois de o PSD ter decidido apoiar a ex-comunista Maria das Dores Meira (alvo de buscas em janeiro por causa de ajudas de custo recebidas para deslocações quando era autarca) na capital do distrito.

Confrontados com o facto de existirem fações diferentes no PSD Setúbal e de por isso as críticas também poderem corresponder a um episódio num conflito interno no partido, os críticos apontam que a estrutura tem sido sempre liderada pelo deputado Bruno Vitorino e por Paulo Ribeiro (que venceu pela primeira vez em 2020, tendo sido reeleito em 2022 com 80% dos votos e em 2024 com 62,4%), voltando a ser desta vez candidato numa lista única, pelo que não estará em causa a competição pelo domínio da distrital.

No email que espoletou a polémica interna no PSD, Paulo Ribeiro frisa que tem sido “uma honra e um desafio” liderar a distrital, frisando que em 2025 o PSD “reforçou-se” em eleições legislativas e que para isso contribuiu também o distrito de Setúbal, elegendo mais um deputado. “Por outro lado, nas autárquicas o PSD cresceu eleitoralmente”, argumenta também.