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Protecção civil na escola - para quando?

Portugal tem hoje planos de emergência, sistemas de aviso e profissionais altamente dedicados na proteção civil. Mas continua a falhar no essencial: capacitar os cidadãos.

Celso Monteiro
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Nos últimos dias, Portugal voltou a confrontar-se com a sua vulnerabilidade face a fenómenos meteorológicos extremos. A depressão Kristin, um sistema atlântico profundo associado a uma ciclogénese explosiva, atingiu o território continental com particular intensidade, trazendo chuva persistente, vento forte e um conjunto de ocorrências que expuseram fragilidades antigas. As rajadas registadas em várias estações ultrapassaram os 150 km/h, aproximando-se em alguns locais dos 180 km/h, valores suficientes para causar danos significativos em infraestruturas, habitações e redes elétricas.

No Centro do país, e em particular na bacia do Mondego, os efeitos foram bem visíveis. A subida rápida do caudal do rio, associada a solos já saturados, levou a cheias em zonas historicamente vulneráveis, condicionando acessos, afetando equipamentos públicos e colocando populações em situação de risco. Em Coimbra, voltámos a assistir a imagens que se repetem com demasiada frequência: vias inundadas, áreas ribeirinhas submersas, operações de emergência sucessivas e uma sensação generalizada de improviso perante um fenómeno que, sendo severo, não foi inesperado.

Sempre que ocorrem episódios como este, a reação coletiva é previsível. Durante alguns dias fala-se de alterações climáticas, de ordenamento do território e de respostas da proteção civil. Depois, lentamente, o tema desaparece da agenda pública,  até à próxima depressão, à próxima cheia ou ao próximo incêndio. O que raramente entra nessa discussão é a forma como estamos, ou não, a preparar as pessoas desde cedo para lidar com estas situações.

A realidade é desconfortável: a esmagadora maioria dos alunos portugueses atravessa todo o percurso escolar sem adquirir competências práticas mínimas de autoproteção. Saber o que fazer numa inundação repentina, como reagir perante vento extremo, onde se encontram os pontos seguros da escola ou de casa, como preparar uma mochila de emergência ou como interpretar avisos oficiais continua a depender do acaso, do contexto familiar ou de iniciativas pontuais. Não pode ser assim.

Portugal tem hoje planos de emergência, sistemas de aviso e profissionais altamente dedicados na proteção civil. Mas continua a falhar no essencial: capacitar os cidadãos. Estudos realizados no âmbito da educação para o risco mostram que, embora muitas escolas afirmem ter planos de emergência, apenas cerca de metade desenvolve ações educativas regulares sobre riscos naturais. Ter documentos não é o mesmo que ter pessoas preparadas. Em contexto de crise, essa diferença torna-se brutalmente evidente.

O sistema educativo trata a proteção civil como um tema acessório, diluído em conteúdos genéricos de cidadania ou limitado a exercícios simbólicos, como o “A Terra Treme”. Esses exercícios são úteis, mas não substituem uma formação continuada e estruturada. Não se cria uma cultura de segurança com um minuto por ano nem com campanhas reativas após uma catástrofe.

O que episódios como a depressão Kristin e as cheias do Mondego nos mostram é que a educação para o risco tem de deixar de ser exceção e passar a ser regra. O Plano Nacional de Educação para a Cidadania precisa de uma atualização séria, com conteúdos claros e progressivos sobre proteção civil, adaptados a cada ciclo de ensino. Não se trata de alarmar crianças, mas de lhes dar ferramentas práticas para lidar com a realidade. Cidadania também é saber agir quando tudo falha.

Enquanto vereador em Coimbra, conheço bem o impacto local destas ocorrências e o esforço permanente dos serviços municipais e dos voluntários. Mas sei também que nenhuma resposta de emergência compensa a falta de preparação prévia. E enquanto liberal, acredito que um Estado moderno deve capacitar as pessoas para serem mais autónomas, mais informadas e mais resilientes , não apenas protegê-las depois do desastre acontecer.

As cheias no Mondego e os danos provocados pela depressão Kristin não são um acaso nem uma exceção. São o retrato de um país que continua a reagir melhor à emergência do que a preparar-se para ela. Continuamos a contar com a dedicação dos serviços, dos autarcas e dos voluntários, mas deixamos ao acaso aquilo que devia ser aprendido, treinado e interiorizado desde cedo.

Se a próxima catástrofe voltar a apanhar-nos desprevenidos, não será por falta de avisos. Será por falta de coragem política para assumir que preparar crianças e jovens para o risco é tão essencial como ensiná-los a ler e a escrever. A proteção civil nas escolas não pode continuar à espera da próxima cheia, da próxima depressão ou da próxima tragédia para entrar na agenda. Porque quando a água sobe e o vento leva tudo, já é tarde demais para aprender.