O Dilúvio (Gn. 6–9) é apresentado, na tradição bíblica, como um evento de recriação: Deus reverte a Criação ao seu estado aquoso primordial de caos para, em seguida, a refazer. Trata-se de um julgamento ético face à corrupção e à violência extremas da humanidade. Deus comunica diretamente com Noé, homem justo e íntegro, instruindo-o detalhadamente na construção da arca destinada a preservar a vida. Para se certificar do estado do solo após o recuo das águas, Noé solta um corvo e uma pomba. O episódio culmina com o estabelecimento da aliança divina, simbolizada pelo arco-íris, promessa de que a Terra jamais voltaria a ser destruída pelas águas.
Desde o Cristianismo primitivo, vários autores propuseram leituras alegóricas da figura de Noé e da Arca. Merece referência, a este propósito, o tratado póstumo O Corvo e a Pomba da Arca de Noé no sentido alegórico e moral (1734), do jesuíta Alexandre de Gusmão, que utiliza o episódio do Dilúvio para transmitir ensinamentos doutrinários e morais. O corvo representa o pecador, aquele que se deixa conduzir por apetites e paixões mundanas, afastando-se da Arca — símbolo da Igreja e da salvação —, enquanto a pomba traduz a alma virtuosa, fiel ao regresso constante ao caminho divino.
Aliás, na abundante literatura religiosa e espiritual, tanto portuguesa como espanhola, são frequentes as referências a Noé e à sua Arca. A bem-aventurada Virgem Teresa de Jesus, Madre e Fundadora da Reforma dos Carmelitas Descalços é citada como considerando esses conventos verdadeiras “Arcas de Noé” para a salvação das almas.
Importa ainda recordar que, vários séculos antes da redação bíblica, surge na cultura babilónica um outro relato de dilúvio. A influência mesopotâmica sobre os israelitas é significativa, em particular devido ao prolongado contacto durante o período do Exílio, desde a primeira deportação em 609 a.C. até ao regresso com Zorobabel, em 539 a.C., na sequência do édito de Ciro. No relato mesopotâmico, porém, o dilúvio não decorre de um juízo moral, mas de um capricho divino: o deus Enlil decide exterminar a humanidade porque o “ruído” dos homens o impedia de dormir.
As semelhanças entre os relatos são evidentes. Na Tábua XI do Épico de Gilgamés, Uta-napisti descreve o Dilúvio nos seguintes termos (tradução de Francisco Luís Parreira, Assírio & Alvim, 2017):
“Constrói a arca, salva a tua vida — faz embarcar semente de tudo o que é vivo; o deus da tempestade lacerou o céu com as suas garras… por fim abateu-se o Dilúvio; ao chegar o sétimo dia, peguei numa pomba e larguei-a… peguei numa andorinha e larguei-a… peguei num corvo e larguei-o…”
Compreender o dilúvio bíblico e o babilónico como mitos do Antigo Oriente Próximo é reconhecer que ambos partilham uma linguagem simbólica destinada a conferir sentido às origens e às experiências coletivas dos respetivos povos. Muitos historiadores sugerem que estas narrativas refletem memórias de inundações catastróficas reais na região da Mesopotâmia, posteriormente reelaboradas por cada cultura segundo a sua visão do mundo e da divindade.
Todavia, as tempestades não pertencem apenas ao passado mítico. Hoje, parecem surgir com intensidade acrescida. Ainda recentemente estivemos sob a influência da depressão Kristin, a terceira de um longo conjunto de tempestades que atravessaram a Península Ibérica, deixando milhares de ocorrências registadas. Em 2018, o furacão Leslie provocou uma rajada de 176,4 km/h — o valor mais elevado alguma vez observado em Portugal, na zona da Figueira da Foz —, “recorde” que viria a ser ultrapassado pela Kristin, com uma rajada de 178 km/h registada na Base Aérea de Monte Real. Entretanto mais uma tempestade está a caminho de Portugal, a Leonardo, no rio formado na troposfera inferior, a parte mais baixa da atmosfera terrestre. A termodinâmica indica que uma atmosfera mais quente consegue reter mais humidade (aproximadamente 7% mais por cada grau celsius de aquecimento), o que significa que, ao formar-se um rio atmosférico sobre o oceano aquecido, ele transporta uma quantidade de vapor de água superior à média histórica, resultando em chuvas muito mais torrenciais quando atinge terra. Estudos recentes projetam que, embora o número total de rios atmosféricos possa diminuir ligeiramente, os que ocorrem serão mais largos e longos, o que aumenta a área afetada e a duração das tempestades do Oeste, como as que têm atingido Portugal.
As evidências da influência humana nas alterações climáticas recentes são hoje consideradas indiscutíveis. O Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas estimava já em 2013 essa influência em 95%. A antiga Comissária Europeia para a Ação Climática, Connie Hedegaard, exprimiu a situação de forma particularmente clara:
“A questão não é acreditar ou não nas mudanças climáticas. A questão é seguir ou não a ciência. No dia em que todos os cientistas, com 100% de certeza, alertarem sobre os perigos das mudanças climáticas, será tarde demais. Se o seu médico tivesse 95% de certeza de que você tem uma doença grave, você começaria imediatamente a procurar a cura. Por que deveríamos correr riscos maiores quando a saúde do nosso planeta está em jogo?”
Estudos mais recentes indicam que entre 98% e 100% dos cientistas do clima concordam que o aquecimento global resulta da atividade humana. Instituições como a NASA, a Agência Europeia do Ambiente e as Nações Unidas tratam esta relação como a “causa raiz” da atual crise climática.
A resposta global à crise climática move-se hoje entre a urgência política e a doutrina ética. A Santa Sé, ao ratificar formalmente o Acordo de Paris em 2022, assumiu-se como parte ativa, e não meramente observadora, deste esforço. O legado do Papa Francisco transformou profundamente a compreensão católica da relação entre Humanidade, Criação e Criador. Apoiado nas Escrituras, em séculos de reflexão teológica e em décadas de magistério pontifício, o Papa conferiu nova vitalidade à doutrina católica sobre o cuidado da Casa Comum. A Igreja passou, assim, a utilizar o seu soft power para traduzir dados científicos em deveres éticos, incentivando os Estados a encarar a política climática não apenas como um custo económico, mas como uma obrigação moral para com as gerações futuras.
Na COP30, realizada em novembro de 2025 no Brasil, a Igreja reiterou a urgência de um “multilateralismo coeso” que coloque a dignidade humana no centro da transição energética, reforçando a exigência de metas mais ambiciosas. Já na Laudate Deum (2023), o Papa Francisco criticara abertamente a “fraqueza da política internacional” e desafiara vozes negacionistas — inclusive no seio da própria Igreja —, elevando a base científica da crise climática ao estatuto de questão de fé e de proteção da vida.
Também Portugal tem sentido estes sinais. A tempestade Martinho atingiu o território continental sobretudo entre os dias 19 e 20 de março de 2025, sendo considerada “atípica” e perigosa pela rapidez da sua intensificação e pela força invulgar das rajadas para a época do ano. Segundo a imprensa, foram derrubadas mais de 1700 árvores em Lisboa, várias delas no Parque Franciscano Laudato Si’, com o qual a nossa Fraternidade mantém uma ligação particularmente estreita.
É neste contexto que se acolhe com júbilo a criação das Eco Igrejas, programa lançado formalmente em outubro de 2025, na Catedral de São Paulo. As Eco Igrejas são comunidades de fé — católicas, protestantes e evangélicas — que se unem num consórcio ecuménico para promover o cuidado do ambiente e a sustentabilidade. O programa é gerido pela organização ambiental cristã A Rocha Portugal, em parceria com a Conferência Episcopal Portuguesa, o Conselho Português de Igrejas Cristãs e a Aliança Evangélica Portuguesa.
O projeto funciona como uma ferramenta de certificação ambiental que incentiva as igrejas a integrarem a ecologia na sua identidade e prática quotidiana. Formação, certificação e ação comunitária constituem os seus eixos fundamentais, sendo a inscrição efetuada através do portal oficial das Eco Igrejas.