Quantos desastres mais serão necessários para aceitarmos que o clima é mesmo um fator determinante no modo como projetamos, construímos e reconstruímos edifícios? Quantas tempestades, cheias, ondas de calor ou incêndios terão ainda de ocorrer para que se perceba que continuar a construir como no passado é, hoje, uma forma de negligência.
As alterações climáticas já não são uma ameaça futura, são uma realidade presente, com impacto direto na segurança, no conforto e na saúde das pessoas. Em Portugal, sentimos esse impacto de forma cada vez mais evidente, temperaturas extremas, precipitações intensas, ventos violentos e custos energéticos crescentes estão a expor fragilidades profundas do nosso parque edificado. Ainda assim, insiste-se em ignorar o problema. A verdade é simples e desconfortável: os edifícios não estão preparados para as alterações climáticas porque continuam a ser projetados com base em dados climáticos do passado, como se o futuro fosse uma repetição do que já conhecemos. Regulamentos, normas técnicas e práticas de construção correntes permanecem ancorados em pressupostos ultrapassados, enquanto os riscos climáticos aumentam a um ritmo muito mais rápido do que a capacidade de resposta do setor.
O parque edificado existente apresenta deficiências graves: falta de isolamento térmico, ventilação inadequada, ausência de soluções de proteção contra inundações e uma localização irresponsável de novas construções em zonas de risco elevado. Tudo isto é conhecido, estudado e amplamente documentado e, ainda assim, continua a ser ignorado. Portugal é um exemplo gritante desta contradição. Cerca de 60% da população afirma viver em casas frias no inverno e excessivamente quentes no verão, segundo o Inquérito sobre Conforto Térmico do Portal da Construção Sustentável (2023). As cidades tornaram-se ilhas de calor, desprovidas de vegetação e impermeabilizadas até ao limite, agravando ondas de calor e aumentando o risco de cheias. Substituímos natureza por betão e depois ficamos surpresos quando os problemas surgem. Mas talvez o aspeto mais grave seja a forma como a indústria da construção continua a reagir a estas crises: com improvisação, soluções rápidas e uma obsessão pelo custo mais baixo. O “barato” continua a ser o principal critério de decisão, mesmo quando isso significa recorrer a mão de obra sem qualificação, ausência de supervisão técnica e total desrespeito pelos materiais perigosos presentes nos edifícios. Isto não é um erro pontual. É um problema estrutural. Um problema que compromete a saúde pública, aumenta riscos de incêndio e colapso, e aprofunda impactos ambientais negativos. É também o que parece estar a acontecer em algumas reconstruções de edifícios danificados pelas recentes tempestades que assolaram o país, onde se opta por soluções rápidas e perigosas, como a reutilização de coberturas de fibrocimento com amianto. Convém recordar que o amianto é um material cancerígeno, proibido em Portugal desde 2005. A sua remoção e tratamento exigem equipas especializadas, procedimentos rigorosos e responsabilidade técnica. Ignorar isto não é apenas má prática, é colocar pessoas em risco consciente.
Cada desastre deveria ser um ponto de viragem. Uma oportunidade para corrigir erros, reforçar a resiliência dos edifícios e adaptar o território às novas condições climáticas. Mas continuamos a desperdiçar essas oportunidades, insistindo em reconstruir o que caiu, da mesma forma que foi construído. A indústria da construção tem de assumir responsabilidades. Não basta falar de sustentabilidade em relatórios ou campanhas de marketing enquanto, na prática, se perpetuam soluções insustentáveis e perigosas. Construir hoje exige reduzir emissões, escolher materiais adequados, respeitar o contexto climático e, acima de tudo, ter competências técnicas à altura dos desafios atuais. Recorrer a profissionais qualificados na reconstrução e reabilitação de edifícios não é um luxo nem um entrave burocrático. É a única forma de garantir segurança, qualidade, durabilidade e justiça económica. Técnicos preparados sabem gerir riscos complexos, evitar erros irreversíveis e proteger o valor, e a vida útil, dos edifícios.
Reabilitar exige conhecimento, responsabilidade e ética técnica. Continuar a ignorar isso é optar por adiar problemas, aumentar custos futuros e aceitar que os próximos desastres serão apenas uma questão de tempo.