Provavelmente já se cruzou com um das centenas de contentores verdes espalhados por vários pontos do país, sobretudo nas áreas metropolitanas, onde é possível depositar roupa, acessórios e calçado: fazem parte da rede de recolha da Humana, uma associação sem fins lucrativos que promove a reutilização de artigos usados. É também a maior cadeia em segunda mão de Portugal, com 24 espaços físicos: 18 em Lisboa e 6 no Porto. Durante anos, a Humana esteve sobretudo associada à doação de vestuário por motivos de solidariedade. Hoje, é um fenómeno das redes sociais que conquistou um lugar nos guarda-roupas — e nos feeds do Instagram e TikTok — dos criadores de conteúdo digital. “A roupa usada entrou no mainstream“, admite a própria marca, que tem vindo a apostar em parcerias online como estratégia de promoção, apesar da polémica judicial que tem associada por crimes financeiros.
Sem parecer afetada, as colaborações da Humana chegaram também às passerelles da ModaLisboa. Esta noite de sábado, Dino Alves apresentará uma nova coleção no Pátio da Galé, em parceria com a entidade gestora de têxteis usados. O designer descreve o projeto como “um manifesto, um desafio a repensarmos o valor da roupa, a elevar a consciência, valorizar a matéria e, sobretudo, transformar o olhar sobre o muito que já existe”. Conhecido como um dos pioneiros do upcycling em Portugal, Dino Alves iniciou o seu percurso na moda a partir de peças em segunda mão e mantém ainda hoje uma ligação a esse processo. A coleção será criada a partir da reinterpretação de têxteis recolhidos pela Humana que já não têm potencial de reutilização e, de acordo com um comunicado da associação, afirma-se como um gesto artístico e político.
A associação sem fins lucrativos portuguesa integra a Humana People to People, uma federação que afirma ter, tal como o nome indica, uma missão humanitária. Conta com 29 organizações e diz desenvolver programas de cariz social e ambiental em mais de 40 países, distribuídos por cinco continentes. Apesar da sua ampla presença internacional, esteve envolvida em várias polémicas, que levantaram questões relacionadas com a transparência da sua estrutura organizacional e com o destino das receitas geradas. A federação diz que parte do dinheiro serve para financiar projetos sociais e ambientais, sobretudo em países africanos, onde atua há várias décadas. A maior parte das críticas surgiram da alegada ligação à Tvind, uma organização dinamarquesa que opera através de uma rede de escolas, organizações humanitárias e empresas, que surgiu do mesmo movimento e do mesmo coletivo de pessoas que a Humana People to People, aponta o Politiken.
O jornal dinamarquês acusa a Tvind de gerir os negócios da Humana People to People, que incluem a rede de contentores, e de recorrer a estruturas em paraísos fiscais, mantendo contas bancárias em países nos quais seria impossível saber o destino dos fundos movimentados. Um dos seus fundadores, Mogens Amdi Peterson, é um dos homens mais procurados na Dinamarca. Abandonou o país em 2006, em conjunto com outros membros da Tvind, depois de terem sido acusados de inúmeros crimes financeiros anos antes, dos quais foram considerados culpados em 2013. “Os processos judiciais, as penas de prisão e as listas de procurados da Interpol não destruíram o império Tvind – no máximo, tornaram-no mais discreto”, escreveu o jornalista John Hansen.

Milhares de toneladas de têxteis usados passam pela rede de contentores todos os anos. Só em 2025, foram recolhidas quase quatro mil toneladas em Portugal. Cada artigo é sujeito a um processo de seleção, sendo que as peças em melhores condições seguem para as lojas, onde são depois colocadas à venda a preços acessíveis. Através da publicação de vídeos nas redes sociais, são vários os criadores de conteúdo digital que recebem benefícios nas lojas portuguesas, que podem incluir vales de desconto para compras. “Muita gente teve a iniciativa de nos contactar, porque já eram nossos clientes e queriam produzir para nós. Foi um processo muito orgânico”, explica ao Observador Ana Filipa Rosa, responsável de comunicação da Humana Portugal. “Notamos que esta questão da segunda mão está bastante na moda”.
A compra de artigos de moda usados tem vindo a ganhar força nos últimos anos, assim como a crítica às lojas de fast fashion. Especialmente entre os mais jovens, este tipo de consumo deixou de ser visto com desconfiança e tornou-se numa escolha consciente, seja por motivos de sustentabilidade ambiental, pelos preços ou mesmo por uma questão de estética. “Acho que nós estamos a beneficiar do facto de se ter tornado uma coisa mais normal e sem mitos. As pessoas já não têm aquele preconceito que existia há uns anos com a roupa usada“, contou Ana Filipa. “Temos clientes muito variados. A Humana atrai pessoas criativas e jovens que nos procuram por uma questão de autenticidade, por encontrarem peças únicas e diferentes”. A responsável de comunicação destacou ainda que, por outro lado, também existem muitos que procuram as lojas “por uma questão financeira”.
A regional manager da marca, Catarina Marques, enquadra ainda que cada loja determina o preço dos artigos e que existe uma tabela de intervalo de preços para cada “família” de roupa, como casacos, calças e vestidos. A partir da segunda semana das coleções em loja, a Humana começa a “ativar descontos nos artigos”. Os preços podem mesmo chegar a um euro, nomeadamente nos dias de liquidação de stock, que acontecem de sete em sete semanas, antes da chegada de uma nova coleção. É costume que se formem filas com muita gente nesses dias e, existe, inclusivamente, quem espere horas à porta antes da abertura das lojas. “É uma loucura”, relatou um ex-funcionário.


Para além das lojas tradicionais ou “de família”, que vendem desde roupa de criança a artigos destinados a uma faixa etária sénior, a Humana desenvolveu um conceito de curadoria próprio, designado “Vintage”. Quatro das 18 lojas em Lisboa, e uma das seis no Porto, funcionam sob este formato, que se distingue pela seleção mais cuidada das peças. Ao contrário das restantes, onde a oferta é mais abrangente — e o perfil dos clientes também —, aqui as peças são escolhidas de acordo com vários critérios, como “o aspeto, o corte, o design, os materiais e até a própria marca”, explica Catarina Marques.
Layers: o estúdio de styling que trabalha em parceria com a Humana
A roupa em segunda mão conquistou também os estúdios de styling – e o Layers foi o primeiro em Portugal a trabalhar exclusivamente com peças reutilizadas. O nome reflete o próprio estilo do estúdio, e deriva de uma técnica chamada “layering”, que consiste em vestir a roupa em camadas. Teresa Mata e Maria Francisca Machado, que já tinha um projeto de curadoria de moda próprio, começaram a idealizar o estúdio sustentável no final de 2024, acabando por abrir um espaço físico em Lisboa, na zona do Príncipe Real, em maio do ano passado. “Eu não tinha noção de que havia esta necessidade no mercado e que o Layers se fosse tornar o que é hoje em dia. Na área da moda e do styling existem desperdícios gigantes, e são compradas muitas coisas para serem usadas uma ou duas vezes”, revelou Teresa.

A estratégia passou, desde o início, por utilizar as redes sociais como montra publicitária. Teresa e Maria Francisca começaram por enviar mensagens onde ofereceriam stylings a alguns influencers, publicando depois vídeos no TikTok e no Instagram, de forma a promover o estúdio. Para além de venderem roupa e de vestirem os clientes, um dos grandes objetivos das fundadoras é também ensinar a comprar em segunda mão, através de um serviço de personal shopping, “para que não existam desculpas para não o fazer”. O Layers tem ainda um serviço de closet clean-out, em que as fundadoras avaliam peça a peça do guarda-roupa dos clientes, retiram as que já não são utilizadas, por vezes fazem uma lista daquelas que faltam e montam outfits personalizados baseados naquilo que as pessoas já têm, para que não exista desperdício.
“Muitas pessoas vêm ao Layers por ser em segunda mão, mas muitas outras vêm pela nossa visão estética e nem sabem de onde são as peças”, disse Teresa. “Isto mostra que a qualidade da roupa é ótima, porque temos muita preocupação com o que escolhemos. Nós cuidamos das peças e damos-lhes várias vidas diferentes”. Quando não encontram exatamente aquilo que querem para o cliente, as fundadores compram uma peça e modificam-na para o que imaginaram. “Isto mostra que hoje em dia há muito poucos limites para a segunda mão. Nós estamos a testá-los a todos e tentamos distinguir-nos pela nossa criatividade em fazer o styling dos nossos clientes”




Desde há cerca de sete anos para cá, Teresa Mata apenas compra peças de vestuário e acessórios em lojas em segunda mão. “Era viciada em comprar roupa nova todas as semanas e, quando saí de casa dos meus pais, comecei a ver a quantidade de coisas que tinha, o que foi um abre olhos para mim”. Assustada, decidiu que iria ficar um ano inteiro sem comprar uma única peça de vestuário. Mais tarde, e depois de limpar o seu roupeiro, começou a frequentar as lojas Humana, onde, inclusivamente, comprou o vestido que utilizou na sua despedida de solteira.
A parceria com a marca começou com Teresa, que faz um vídeo a mostrar “as melhores lojas em segunda mão em Lisboa”, que incluíam a Humana, para a sua página no TikTok, plataforma onde fala sobre consumo sustentável e desmistifica este tipo de compras. Embora a cofundadora do Layers tenha sentido que foi um “desafio” começar a comprar em segunda mão, dada a quantidade de peças em cada loja, acabou por conseguir treinar o seu olhar para encontrar peças.”A primeira coisa que me fascinou foram os preços, como é que é possível existirem coisas a 1 ou 2 euros, de tão boa qualidade?”. Tanto Teresa enquanto influencer, como o Layers enquanto estúdio, colaboram com a marca. “A Humana empresta-nos roupa, trabalhamos com ela em troca de vídeos, e depois devolvemos as peças”.
Cada loja tem uma porta que leva a um armazém, a que o Layers teve acesso quando vestiu várias personalidades para os Globos de Ouro o ano passado. “A Humana deu-nos um limite de peças, que incluíam acessórios, carteiras, sapatos, vestidos e tudo mais alguma coisa, que tivemos a oportunidade de levar, e depois devolver. Muita gente acabou por comprar nas lojas as peças que utilizámos”. O estúdio também já vestiu a atriz Helena Caldeira para o Festival de Cannes. Neste momento, o Layers está a participar na “primeira publicidade internacional feita com roupa só em segunda mão“, onde vai fazer o styling de todas as personagens, também com a roupa da Humana.
Teresa lembra que “mesmo comprar em segunda mão tem um peso, e só porque é barato não temos de comprar tudo o que nos aparece à frente”. A cofundadora do Layers considera que, apesar desta indústria ser mais sustentável, muitos continuam a consumir em excesso. Reconhece que, apesar de derivar de uma maior consciência ambiental, comprar vestuário utilizado também é “uma moda”, mas “a melhor que aconteceu nos últimos tempos”. “Se toda a gente no mundo parasse de comprar roupa hoje, toda a gente tinha roupa diferente para usar todos os dias nos próximos 300 anos“.
O mercado de fast fashion continua a crescer apesar do aumento da segunda mão
O aumento da compra em segunda mão não tem feito com que o consumo de fast fashion diminua: ambos os mercados estão em crescimento e, de acordo com Mariana Pereira Silva, investigadora na área da moda e sustentabilidade, complementam-se um ao outro. “Um comportamento muito comum por parte do consumidor é comprar uma peça numa loja de fast fashion, fartar-se dela e colocá-la à venda numa plataforma de revenda de produtos já usados, como a Vinted. Consegue vendê-la porque a segunda mão está normalizada e já é comum fazermos este tipo de compra. Com a venda, ganha dinheiro e espaço no armário, e por isso pode ir fazer mais compras”, contou.
Esta realidade foi denotada por um estudo académico, que revela algo que Mariana considera mais importante, “que é o facto de muitos consumidores utilizarem a segunda mão quase como um penso moral rápido“. A investigadora explicou que algumas pessoas que compram em segunda mão pensam que estão a ajudar o ambiente, e por isso, se comprarem em lojas de fast fashion, “não é assim tão problemático”. “Esta é uma atitude muito difícil porque a segunda mão surgiu como uma alternativa com menos impacto ambiental, porque são produtos que já́ existem, estão no ambiente e devem ser reutilizados e reaproveitados. Mas não podemos utilizar os comportamentos que tínhamos em relação à fast fashion e reproduzi-los no mercado de segunda mão, que é no fundo manter os mesmos problemas que nos trouxeram até aqui“.

Mariana chama ainda à atenção para o aumento da produção de novos têxteis todos os anos. “Temos um caso bastante assustador, que é o do poliéster reciclado, uma inovação promovida por todas as grandes marcas, incluindo de fast fashion, como uma solução à circularidade”. Este material, fabricado a partir de garrafas de plástico, está a perder todos os anos quota de mercado, “não porque está a ser produzido menos, mas como está a ser produzido tanto poliéster virgem a cada ano que passa faz com que a percentagem de poliéster reciclado no mercado seja cada vez menos em comparação ao novo que circula”. A investigadora admite que a circularidade não está a ser uma solução para este problema, que pode estar a alimentar a produção de poliéster virgem.
“Sem medidas concretas para a delimitação da produção, é muito difícil que a circularidade seja uma resposta à sustentabilidade da indústria têxtil. É importante que façamos uma mudança de shift, caso contrário vamos repetir os mesmos erros”, admitiu Mariana. A investigadora diz que, neste momento, não existem grandes alternativas à Humana e a outras organizações de recolha de produtos têxteis usados, “que precisa de ser feita”, tanto em Portugal como no resto da União Europeia. “É verdade que estas organizações têm falhas, mas estão a fazer um trabalho de recolha que o governo português ainda não conseguiu fazer”.
A dimensão da rede de recolha e os números da Humana em Portugal
Neste momento, existem 826 contentores verdes no país, embora esse número já tenha ultrapassado os mil. Desde janeiro de 2025, os municípios são obrigados a recolher produtos têxteis usados em consequência de uma diretiva da União Europeia e, por isso, a Humana viu-se obrigada a retirar mais de 250 contentores por uma questão de “sustentabilidade da sua atividade, afetada também pelos custos associados aos processos logísticos e operacionais”, pode ler-se num comunicado de imprensa. A marca vai deixar de assegurar a recolha e o tratamento do têxteis usados nas Caldas da Rainha, Santarém, Entroncamento, Almeirim, Moita, Évora e Estremoz.
“O que acontecia antes é que nós tínhamos parcerias com os municípios, onde pagávamos uma taxa de ocupação pública. Agora que os municípios são obrigados a fazer essa recolha, não faz sentido estarmos a pagar quando estamos a prestar um serviço que é obrigatório por lei“, explicou Ana Filipa Rosa. “Se o benefício e serviço público inquestionável que os gestores como a Humana representam não for reconhecido de forma justa, corremos o risco de entidades como a nossa e o próprio setor colapsar e de não existirem alternativas, o que representaria um cenário desolador do ponto de vista ambiental”, alerta ainda Sónia Almeida, promotora nacional da marca.
A Humana recolhe milhares de toneladas de têxteis usados através da rede de contentores, cujo destino final é decidido em função da qualidade e do tipo de peças recolhidas: só no ano passado, foram recolhidas quase 4 mil toneladas de têxteis em 25 concelhos portugueses, com uma taxa global de reutilização na ordem dos 61%, de acordo com os dados da associação. Os têxteis e calçado depositados nos contentores são encaminhados para um armazém em Alcochete e, depois de agrupados e acondicionados, partem para centros de triagem onde são separados por categorias.

A maior parte dos artigos recolhidos é enviada para um centro de triagem perto de Madrid, para onde vão também todos os têxteis que a Humana recolhe em Espanha e França, países que também contam com lojas da empresa. Ali chegada, a roupa é categorizada de acordo com os princípios da hierarquia de resíduos da União Europeia, que prioriza a reutilização. De acordo com os dados do relatório de atividades de 2024, “62% é reutilizada, 29% destina-se à reciclagem e a restante é considerada imprópria. Um pequeno percentual é eliminado”. Cerca de 21% dos têxteis reutilizados são vendidos nas lojas em Portugal e 41% seguem para outras fora do país.
A Humana Portugal trabalha diretamente com organizações parceiras em Moçambique e na Guiné-Bissau, onde desenvolve programas de cooperação para o desenvolvimento destes países, em áreas como a educação, a saúde ou a agricultura sustentável. Um dos objetivos é também impulsionar a economia circular no setor têxtil, procurando melhorar as condições de vida de comunidades desfavorecidas. Alguma roupa que vai para o centro de triagem perto de Madrid, parte também para estes locais.
“A Guiné Bissau ainda não tem lojas, tem um centro de receção. A roupa recebida é vendida no mercado de segunda mão local”, disse Ana Filipa Rosa. Já Moçambique “tem um centro de triagem próprio que recebe as roupas, volta a fazer uma seleção para vender em lojas de roupa em segunda mão”. Neste país, o setor da roupa usada tem um peso significativo, e por isso a responsável de comunicação da Humana explica que “alimentar esse mercado é essencial para muita gente, principalmente para mulheres, que conseguem garantir uma certa autonomia financeira”.
Afinal, o que acontece com a roupa que não está em condições de ser vendida na rede de lojas Humana ou de ser reciclada? Ana Filipa Rosa esclarece que “o percentual que aparece nos dados que aparece como destinado a eliminação é encaminhado para gestores específicos para incineração ou aterro com um custo associado, que fica a nosso cargo”. Reforça que esse processo é apenas feito quando “já não existe qualquer opção para esses têxteis”.

Em relação às receitas da associação, a responsável de comunicação de Portugal explica que a maior parte é alocada à gestão têxtil, isto é, a tudo o que envolve a transporte da roupa, desde os salários dos motoristas ao combustível dos carros, mas também à renda das lojas e o pagamento dos colaboradores. Em relação à quantia restante, Ana Filipa diz que serve para financiar projetos sociais e ambientais. “Alguns dos apoios são solicitados por associações ou por municípios que dizem que têm situações em que é preciso alocar fundos. Outros são para os projetos da Guiné-Bissau e Moçambique, em que as associações locais identificam os projetos em que é preciso alocar verbas”. Existe, inclusivamente, um departamento que analisa as situações no terreno, em cada um dos países.
Humana People to People e as ligações à Tvind
A Humana não existe apenas em Portugal, Espanha e França: tem lojas espalhadas por inúmeros países — só na Ucrânia, existem mais de 100 — e conta com vários centros onde é feita a triagem dos têxteis usados. Faz parte da federação internacional Humana People to People, registada na Suíça e com sede no Zimbabué, da qual fazem parte 29 associações sem fins lucrativos, “comprometidas com a solidariedade internacional, cooperação e desenvolvimento”, pode ler-se no site oficial. Os membros operam em 46 países de cinco continentes, incluindo África, Ásia, Europa, América do Norte, América Central e América do Sul. Promove também um programa de voluntariado, na duração de dez meses, que inclui formação na Dinamarca e a participação num projeto de “cooperação para o desenvolvimento” em países como o Malawi, Moçambique, Zâmbia e Índia.
“Todas as organizações membros têm as suas próprias políticas, orientações e estruturas internas, em conformidade com as normas internacionais, para garantir que os fundos recebidos são gastos apenas para o fim pretendido”. No caso português, Ana Filipa Rosa explica que existe uma direção conjunta com Espanha. “Temos uma diretora no país e uma diretora ibérica. No entanto, estamos a tornar-nos cada vez mais independentes. Possuímos auditorias próprias e os departamentos funcionam autonomamente.” Apesar de funcionar de forma autónoma em relação à federação internacional, a responsável da comunicação da Humana Portugal explica que a missão é a mesma. “O papel Federação, é, no fundo, transmitir valores e perceber se todas as associações estão alinhadas com eles”.

A Humana People to People foi formalmente estabelecida enquanto federação em 1996 e surgiu em consequência de um movimento de jovens ativistas na Dinamarca na década de 1970 que se mobilizaram contra o apartheid e o colonialismo, sobretudo através da educação. Desde a sua fundação, a federação tem sido alvo de críticas relacionadas com alegadas ligações ao grupo dinamarquês Tvind. Vários órgãos da comunicação social, entre eles o jornal dinamarquês Politiken, acusam o grupo de operar sob uma variedade de nomes — como “Planet Aid”, “Gaia Movement” e até mesmo “Humana People to People” — e em numerosas áreas de atividade, sugerindo que todas as entidades têm origem no mesmo movimento e num núcleo comum de fundadores.
O mesmo jornal sustenta que a Tvind desenvolveu, ao longo dos anos, uma estrutura extensa e multifacetada: para além da vertente escolar, o grupo terá criado um braço comercial significativo, que inclui a recolha de roupa usada. Entre as acusações apontadas está a alegada centralização do controlo financeiro e operacional das diferentes entidades associadas ao movimento, entre as quais a Humana People to People. Na sequência de uma longa investigação, o Politiken refere ainda que a Tvind terá recorrido a empresas anónimas sediadas em paraísos fiscais, utilizadas para ocultar e movimentar fundos.
Alegadamente, a Tvind é associada ao chamado “Teachers Group”, uma estrutura interna descrita como “culto político” por ex-membros, que apontam o dinamarquês Mogens Amdi Peterson, com agora 85 anos, como o seu líder e fundador, reportou a BBC. Em 2001, Peterson — que sempre negou a existência do “Teachers Group” — e outros nomes ligados à Tvind, foram acusados de fraude fiscal, branqueamento de capitais e abuso de confiança. Acabaram por ser absolvidos por um tribunal distrital em 2006, mas o Ministério Público recorreu para o Tribunal Superior Ocidental, uma instância acima dos tribunais distritais. Os arguidos do caso, incluindo Peterson, deixaram o país nesse mesmo ano. Em 2013, o tribunal superior deu razão ao recurso do Ministério Público e foram emitidos mandados de captura para todos os envolvidos condenados por crimes financeiros. Hoje em dia, o alegado “líder do culto” vive no México, país que não tem acordo de extradição com a Dinamarca, segundo o Politiken.
A associação, ligada à venda de roupa em segunda mão, opera em Portugal desde 1998. A primeira loja abriu em 2001 na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. A Humana Portugal esclarece que não conhece ninguém que faça parte do “Teachers Group”, insiste na autonomia da associação portuguesa em relação à federação internacional, e garante fazer relatórios anuais públicos sobre as suas contas, atividades noutros países e distribuição dos têxteis recolhidos. Desde 2022, tem Estatuto de Utilidade Pública no país e conta com parcerias com organismos como o Banco Mundial e a Comissão Europeia.