Antes das 7h da manhã já havia jornalistas à porta do tribunal de Oslo — pelo menos 190 terão pedido permissão para acompanhar o julgamento que se iniciou esta terça-feira, às 9h30 da manhã, atrasado em 30 minutos por causa da longa fila de pessoas à espera de um lugar na sala de audição. O juiz responsável declarou logo no início, em norueguês e inglês, que a imprensa não poderia fotografar o réu nem dentro nem fora do tribunal. Com um blusão verde e a usar óculos grandes, foi retratado apenas através de ilustrações. Quem está a ser julgado é o filho mais velho da princesa Mette-Marit, mulher do príncipe herdeiro e sucessor ao trono norueguês, acusado de 38 crimes, entre violações, agressões, assédio e abusos contra mulheres. Esta manhã Marius Borg Høiby assumiu apenas os menos graves, como as violações de ordens de restrição e conduzir em excesso de velocidade, negando que seja culpado pelos casos que implicam penas mais severas, como as quatro violações.
A manhã foi reservada para ler as acusações e ouvir pelas quais o réu se declarou culpado, apesar da maioria das respostas já ter sido confirmada previamente ao Ministério Público na última semana. De acordo com o jornal norueguês VG, Marius Borg Høiby declarou-se inocente das quatro acusações de violação que enfrenta. Os casos terão ocorrido numa festa a 20 de dezembro de 2018, no arquipélago de Lofoten a 8 de outubro de 2023, após um jogo a 24 de março de 2024 e num hotel a 2 de novembro de 2024. Em todas as situações, as vítimas alegam não terem resistido devido a sono ou embriaguez. O filho da princesa Mette-Marit também se declarou inocente das acusações de abuso à sua ex-namorada, Nora Haukland, entre 2022 e 2023, e da acusação de ameaça contra um homem pelo Instagram, a 4 de agosto de 2024.
Entretanto, assume parcialmente a culpa por agressão agravada, num incidente a 4 de agosto de 2024, em que alegadamente terá estrangulado e imobilizado uma mulher na cama, no bairro residencial de Frogner, em Oslo. Também assume parte da culpa nas cinco acusações de conduta imprudente contra a mesma mulher, em datas variadas durante 2024, que incluem gritos, ofensas, agressões com objetos a serem atirados pelo apartamento, e uma situação em que terá arrastado a mulher para fora do carro. Høiby declarou-se ainda culpado de tentar contatar a mulher através de chamadas e mensagens, apesar de uma ordem de restrição. Entre 24 de agosto e 1 de setembro de 2024 terão sido pelo menos 172 chamadas. Também assumiu tê-la fotografado em situação íntima sem o seu consentimento em dezembro de 2023. Contudo, nega ter fotografado partes íntimas de mulheres em outras três acusações. O filho da princesa Mette-Marit também se declarou inocente de outras três acusações de violação da ordem de restrição contra a mulher em setembro e dezembro de 2024, mas assume a culpa em outras duas acusações referentes a contactos com a mulher em 2025.
Marius Borg Høiby rejeita ter assediado agentes da polícia em janeiro de 2025, quando alegadamente terá apontado o dedo a dois polícias que dirigiam uma viatura caracterizada, e nega que se tenha recusado a fornecer informações pessoais. Entretanto, Marius Borg assume praticamente todas as acusações relacionadas com condução em excesso de velocidade. Num incidente de 26 de outubro de 2023, em que terá sido apanhado a 73 km/h numa zona de 40 km/h, o enteado do príncipe Haakon assume-se parcialmente culpado, enquanto declara-se culpado das acusações de 31 de março e 6 de maio de 2023, 13 e 29 de maio e 14 de agosto de 2025. Høiby também assume ter conduzido sem carta de condução válida em novembro de 2024 e declara-se culpado do crime de tráfico de droga, por ter recebido, transportado e entregado a outra pessoa pelo menos 3,5 quilos de marijuana.
Nas declarações iniciais, a advogada de defesa, Ellen Holager Andenæs, criticou a cobertura mediática do caso, apelou ao tribunal para que considere se as provas apresentadas poderão ser interpretadas de forma a que o réu seja considerado inocente, e tentou descredibilizar as alegadas vítimas. “O que todas as vítimas têm em comum é que tiveram relações sexuais consensuais com Marius antes dos fatos descritos na acusação. É um ambiente com muito abuso de substâncias. Não apenas álcool, mas também substâncias ilícitas como cocaína e outras. Também não é segredo que o sexo é uma parte muito presente nesse ambiente. Pode ser surpreendente como isso se manifesta e a forma que assume”, afirmou a advogada, que também revelou que ao longo do julgamento pretende ler mensagens trocadas entre Høiby e a ex-namorada, Nora Haukland, como parte da defesa da acusação de abuso.
O julgamento está previsto para durar até 19 de março e espera-se que mais de 40 testemunhas prestem depoimento — sendo que as alegadas vítimas devem falar a portas fechadas, onde apenas a imprensa com permissão especial poderá acompanhar. O primeiro depoimento de Høiby está marcado para a próxima quarta-feira. De recordar que o filho de Mette-Marit foi detido no domingo à noite, suspeito de agressão, ameaças com faca e violação de uma ordem de restrição.