As famílias dos quatro turistas britânicos que morreram devido a alegadas infeções gastrointestinais contraídas em Cabo Verde decidiram avançar para tribunal contra o operador de viagens TUI, que organizou as estadias para a cadeia hoteleira RIU, onde os familiares estavam hospedados. As mortes ocorreram entre agosto e outubro de 2025 na ilha do Sal. Esta segunda-feira, o ministro da Saúde cabo-verdiano recusou qualquer relação entre o país e as mortes dos turistas, referindo que “os dados disponíveis não sustentam a interpretação” das famílias.
De acordo com o jornal The Independent, em causa estão quatro casos: os de Elena Walsh, de 64 anos; Mark Ashley, de 55 anos; Karen Pooley, de 64 anos; e um homem de 56 anos, não identificado. Todos morreram na sequência de graves problemas gastrointestinais contraídos depois de estadias naquele país africano, engrossando, desta forma, para seis o número total de mortes de turistas britânicos hospedados em Cabo Verde desde 2023 por problemas de saúde similares, de acordo com o escritório de advogados Irwin Mitchell que representa as famílias.
“O número de turistas em Cabo Verde que foram afetados por doenças gastrointestinais graves e debilitantes é verdadeiramente alarmante. Nada evidencia a gravidade desta situação de forma mais clara do que estas mortes recentes”, afirmou o advogador Jatinde Paul, que, apesar de estar habituado a dar assistência jurídica a turistas, referiu “nunca ter visto surtos repetidos e contínuos de doenças nos mesmos resorts nesta dimensão e por um período de tempo tão longo”.
Mais de 1500 turistas e famílias ponderam ações judiciais
Os últimos turistas britânicos que perderam a vida depois de terem estado de férias na ilha do Sal ficaram hospedados em hóteis na cadeia espanhola RIU, que está agora debaixo de críticas. Mais de 1500 turistas ou respetivas famílias já contrataram advogados para avançarem com ações judiciais contra a operadora TUI, que reservou as respetivas viagens e estadias, pedindo indemnizações.
A última morte conhecida foi a de Mark Ashley, de 55 anos, que, três dias após ter chegado a Cabo Verde com a mulher, em outubro de 2025, desenvolveu sintomas como dor de estômago, diarreia, vómitos, febre e letargia extrema e denunciou as más condições de higiene do hotel. Depois de ter saído do Riu Palace Santa Maria, no Sal, os sintomas persistiram. Acabou por desmaiar em casa e morreu.
https://observador.pt/2026/01/29/ministra-da-saude-destaca-ganhos-na-formacao-em-projeto-de-apoio-em-cabo-verde/
Já Elena Walsh, de 64 anos, viajou com o marido, o filho e da futura nora para o hotel Riu Cabo Verde em agosto de 2025, conta o The Times. Passado pouco tempo, começou a sentir uma intensa dor de estômago e acabou por ser levada para o hospital, onde lhe foi diagnosticada uma apendicite e submetida a cirurgia. Poucos dias depois acabou por morrer. Já no Reino Unido, a autópsia não encontrou nenhuma anormalidade no apêndice de Elena Walsh e concluiu que a enfermeira morreu de insuficiência cardíaca, sendo gastroenterite a causa secundária da morte.
Já Karen Pooley, também de 64 anos, viajou com uma amiga para o resort Riu Funana no Sal, em outubro de 2025, para umas férias de duas semanas. Poucos dias depois de ter chegado à ilha, começou a sofrer de diarreia e vómitos e acabou por ser assistida numa clínica local. Com o seu estado de saúde a piorar, foi transportada de helicóptero para Tenerife para receber assistência médica, mas morreu na manhã seguinte.
Ministro da Saúde de Cabo Verde recusa relação entre mortes e surto infeccioso
Confrontado com as notícias que estão a ser publicadas na imprensa britânica, o governo cabo-verdiano já recusou qualquer ligação entre o país e as mortes e negou a existência de um surto de infeções gastrointestinais na ilha do Sal. “Não existem evidências epidemiológicas públicas que confirmem um surto ativo de shigelose em Cabo Verde e os dados disponíveis não sustentam a interpretação apresentada na notícia”, afirmou o ministro da Saúde, Jorge Figueiredo, numa conferência de imprensa, esta segunda-feira, na cidade da Praia.
Jorge Figueiredo referiu que, perante casos de diarreia detetados pela vigilância sanitária, no final de 2025, na ilha da Boa Vista, o Ministério acionou a Inspeção-Geral das Atividades Económicas (IGAE) e outras entidades, mas não foi estabelecida relação entre os casos e qualquer surto infeccioso.
O governante referiu que a informação veiculada no Reino Unido pode causar “perceções alarmistas injustificadas” sobre os serviços de saúde em Cabo Verde e que os casos necessitam de investigação detalhada antes que se estabeleça qualquer associação às estadias. Jorge Figueiredo referiu ainda que os episódios “representam, estatisticamente, ocorrência residual, sem evidência de padrão epidemiológico sustentado nem alteração do perfil sanitário nacional”.
Um boletim do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, publicado em dezembro, deu conta de relatos de shigelose entre viajantes que regressaram de Cabo Verde para a União Europeia, Reino Unidos e Estados Unidos desde setembro de 2022.
“No final de novembro de 2025, cinco países reportaram novos aumentos no número de casos infetados” e “as entrevistas aos casos afetados em 2025 indicam que está envolvida a mesma cadeia de hotéis e resorts” descrita em situações anteriores, lê-se no documento atualizado semanalmente. “Este é um surto recorrente de doenças gastrointestinais, onde a causa subjacente da transmissão justifica uma investigação mais aprofundada para que possam ser implementadas medidas de mitigação para prevenir novos casos”, terminou o boletim.