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(A) :: A "sinergia positiva" no Parlamento Europeu como inspiração para o desporto nacional encontrar novos caminhos no futuro

A "sinergia positiva" no Parlamento Europeu como inspiração para o desporto nacional encontrar novos caminhos no futuro

Dia 2 da delegação da Confederação em Bruxelas contou com reunião com Representação Permanente de Portugal na UE e visita ao Parlamento Europeu com eurodeputadas Lídia Pereira e Ana Catarina Mendes.

Bruno Roseiro
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Primeiro muito frio, depois muito frio… e chuva. Há muitas pessoas que parecem tratar por tu um dia com chuviscos mais ligeiros como Bruxelas acordou esta terça-feira mas para quem vem menos prevenido até por questões logísticas e está em hotéis que não permitem a chegada de autocarros de maior envergadura acaba por formar-se uma espécie de chicana em busca dos melhores sítios para fugir a uma pequena molha que se torna inevitável. Nada de que não se faça, nada que não aguce depois a língua para as habituais conversas matinais. Fala-se da atualidade, fala-se da atual situação do País devido aos efeitos do mau tempo, fala-se sobre o que se passou na véspera no desporto, fala-se sobretudo de desporto. E essa tem sido outra das “vantagens” da viagem de três dias da comitiva da Confederação do Desporto de Portugal (CDP) a Bruxelas.

https://observador.pt/2026/02/03/deve-haver-equilibrio-entre-a-parte-profissional-e-a-base-confederacao-defendeu-ligacao-ao-modelo-europeu-do-desporto-em-bruxelas/

Por um lado, o facto de presidentes de 20 federações estarem num grupo em reuniões de trabalho também vai permitindo em paralelo um estreitar de relações com tendência a possibilitar, a breve ou a médio/longo prazo, a criação de sinergias que sejam benéficas para todos. Por outro, abre espaço a uma troca de ideias e experiências sobretudo à luz do que se faz lá fora, seja no âmbito do investimento público em instalações desportivas que permitem que várias modalidades sejam alocadas ao seu espaço sem terem de andar com a “casa” às costas, seja na perspetiva crescente do investimento externo de países não europeus em condições para que os seus atletas trabalhem com todas as condições no Velho Continente. Por fim, permite que todos acabem por partilhar as suas “dores” perante problemas que pedem soluções com essa crença de que várias cabeças possam responder melhor aos problemas. E foi isso também que aconteceu esta manhã.

Um exemplo prático: perante a intempérie que assolou o País nos últimos dias, com especial incidência na região centro, Domingos Castro, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, admitia que não daria para fazer a habitual parte da temporada na Pista Coberta em Pombal, o principal palco que costuma receber as grandes provas nacionais incluindo os Campeonatos de Clubes e Nacionais das mais diversas categorias. Hipóteses? Braga, que além da limitação do número de pistas de corrida faz o agendamento de vários eventos ao longo do ano no mesmo espaço, e pouco mais a não ser que seja encontrado um espaço com todas as medidas necessárias a rondar os 100×80 onde possa ser montada uma pista com seis linhas. São levantadas outras possibilidades a nível de espaço pelo resto do País, são apresentadas ideias, esta espécie de brainstorming matinal entre vários líderes de federações permite que novos horizontes se possam abrir.

As memórias dos tempos de atletas e a evolução dos tempos para o que acontece agora também acaba por surgir de forma inevitável. Recorda-se como era antigamente, conta-se como são hoje as coisas, há sempre gargalhadas no final perante aquilo que foi mudando. É aí que, após essa viagem matinal nas sempre caóticas ruas centrais de Bruxelas a nível de trânsito, se dá a primeira paragem do segundo dia de visita da delegação da CDP. A manhã está reservada para um encontro de trabalho com a representante permanente adjunta de Portugal junto da União Europeia, Manuela Teixeira Pinto, e respetiva equipa, perante a impossibilidade de última hora de o embaixador Pedro Costa Pereira poder estar presente. É também aqui que, no prolongamento daquilo que acontecera na véspera na reunião com Georg Haeusler, diretor para a Cultura, Criatividade e Desporto, a comitiva da CDP irá partilhar as suas ideias para o Desporto na Europa.

“O nosso objetivo com esta visita é sobretudo apresentar a defesa do Modelo Europeu do Desporto. Defendemos este modelo como um fator sobretudo de coesão social e não apenas de resultados. Defendemos um modelo com importância e foco nos clubes e temos apresentado também o nosso contributo com a defesa de diversas medidas para o Desporto. O nosso objetivo com esta visita é sobretudo estreitar relações com as instituições europeias e perceber como as federações podem aceder a linhas de financiamento – como o programa Erasmus +, entre outros”, começou por apontar Daniel Monteiro, presidente da Confederação.

“Sabemos que o papel da Representação Permanente de Portugal na União Europeia é precisamente acompanhar as matérias de políticas europeias e, neste sentido, gostaríamos de ser informados e ter acesso a informação pertinente, sempre que existam matérias políticas europeias que possam vir a ser interessantes para as federações”, acrescentou ainda o líder da CDP que, à semelhança do que acontecera na véspera voltou a reforçar a importância daquilo que é um modelo de pirâmide que valoriza todos os escalões da base ao topo e um projeto que aponte para a solidariedade, boa governação e equilíbrio de forças dando voz a partes que nem sempre têm o protagonismo que deveriam conseguir como os próprios atletas.

Seguiram-se as habituais intervenções de todos os presidentes de federação que marcam presença na visita (squash, xadrez, tiro, campismo e montanhismo, ciclismo, remo, Desporto Universitário (FADU), natação, vela, voo livre, desportos de Inverno, surf, corfebol, paraquedismo, motonáutica, triatlo, judo, ginástica, râguebi e atletismo). “A minha preocupação aqui é saber que estas reuniões valeram a pena, que foi bom ter vindo aqui expor a nossa realidade e encontrar caminhos e soluções de futuro”, apontou um dos líderes federativos no encontro. Foram partilhadas realidades de cada uma das federações neste caso com esse sentido de “proximidade” por ter do outro lado da mesa alguém com outro contexto sobre o fenómeno desportivo nacional, destacou-se o facto de existirem três antigos atletas olímpicos na chefia das respetivas modalidades e partiharam-se visões de futuro no sentido de encontrar mais respostas para ir melhorando as condições de trabalho de todas as federações numa reunião que se estendeu por uma hora e meia, acima do que estava previsto e apesar da agenda preenchida com que ambas partiam para o dia.

A representante permanente adjunta de Portugal junto da União Europeia, falou depois da importância de ter o setor do desporto a acompanhar de forma ativa todo o processo europeu que está em curso, referindo que o processo de consulta pública é um instrumento fundamental para transportar até às instituições uma visão mais concreta da realidade, bem como todos os desafios e as prioridades que existem a nível nacional. Em paralelo, Manuela Teixeira Pinto referiu também que, mesmo não tendo uma competência direta na área, o desporto tem vindo a ganhar relevância política, não apenas pelo impacto social e económico que tem mas pela vertente de promoção de valores e bem estar físico e mental, reforçando a importância da participação do setor para que futuras orientações europeias possam depois ter efeitos práticos.

“Foi uma reunião importante e produtiva. Por um lado, todas as federações tiveram oportunidade de fazer uma apresentação sobre a sua realidade, as suas preocupações, os seus desafios e outras questões pertinentes que entendem em relação à sua modalidade. Por outro, vimos na Representação Permanente de Portugal na União Europeia o interesse numa relação mais profícua, com a criação de um central point que permita ir tendo conhecimento mais aprofundado de todos os projetos e financiamentos que estão a ser criados, bem como os respetivos pressupostos para que as federações possam apresentar projetos fortes que vão ao encontro do que é pretendido, e de tudo o que for feito na área do desporto”, frisou Daniel Monteiro.

A parte da tarde ficou reservada a uma vista ao Parlamento Europeu, com uma sessão de boas-vindas com as eurodeputadas Lídia Pereira e Ana Catarina Mendes. Antes, foi feita uma introdução sobre o funcionamento de toda a instituição com números que impressionaram como o total de 7.500 funcionários entre Bruxelas, Estrasburgo e Luxemburgo, a composição das agendas entre sessões plenárias, reuniões da Comissão Europeia, encontros dos grupos políticos e atividades externas (que estão feitas não só para 2026 mas para o próprio ano de 2027), os 720 deputados que integram o atual Parlamento Europeu dos quais 21 portugueses, a importância das eleições de 10 de julho de 1979 para haver uma maior legitimidade política do próprio órgão, as 22 Comissões Permanentes que vão sofrendo atualizações consoante a evolução dos tempos (as duas mais recentes dizem respeito a saúde pública e segurança e defesa) ou os 200 partidos nacionais que estão presentes nas oito forças políticas atualmente representadas no Parlamento Europeu.

Depois dessa apresentação, juntaram-se à conversa Lídia Pereira,  e Ana Catarina Mendes, “mentoras” da vinda de uma delegação da Confederação do Desporto de Portugal a Bruxelas numa iniciativa também inédita por juntar as duas maiores forças políticas nacionais entre os 21 eurodeputados, num total de 15, para uma viagem que tinha como grande objetivo abrir mais e maiores canais de diálogo ligados ao desporto, não apenas na visita ao Parlamento Europeu mas também com os encontros mantidos com elementos da Comissão Europeia e da Representação Permanente de Portugal na União Europeia. Antes da abordagem a alguns dos temas e desafios apresentados, houve ainda uma breve apresentação de como é o funcionamento de cada um dos grupos parlamentares numa fase em que Lídia Pereira, ex-líder da Juventude do Partido Popular Europeu (PPE), é vice-presidente do PPE, e Ana Catarina Mendes, que teve a tutela do Desporto enquanto Ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, é vice-presidente dos Socialistas e Democratas.

Daniel Monteiro, presidente da CDP, agradeceu o convite endereçado a toda a comitiva e valorizou aquilo que catalogou de “sinergia positiva” entre dois partidos que têm visões diferentes em alguns pontos mas que conseguem trabalhar em conjunto em prol de algo que seja benéfico para todos, dando esse exemplo para o próprio desporto. Ao mesmo tempo, o líder da Confederação recordou a importância das federações no movimento desportivo, falando do decréscimo de verbas alocadas às mesmas à luz da inflação e de um paulatino mas contínuo desinvestimento na parte do desenvolvimento desportivo, algo que deverá ser investido como reflexo de uma estratégia pensada que possa cumprir objetivos a breve e médio/longo prazo.

O dia 2 da visita da delegação da CDP acabou com um encontro com alguns dos restantes eurodeputados portugueses no Parlamento Europeu entre os quais Hélder Sousa Silva, que está na Comissão que tem como uma das áreas o desporto. Entre as várias propostas que estão a ser debatidas, o antigo presidente da Câmara de Mafra eleito nas listas do PSD abordou temas que fazem parte da proposta da Confederação para o Modelo Europeu do Desporto, nomeadamente a vontade de equiparação fiscal entre o desporto e a cultura, um regime unificado de mecenato desportivo e cultura, a questão das deduções em sede de IRS das despesas de saúde ligadas ao desporto ou o aumento das linhas dedicadas ao desporto no próximo quadro plurianual. Em paralelo, abordou também uma resolução aprovada no final de 2025 em elevar o Desporto a categoria de bem público, onde eram também referidos aspetos como a boa governance ou o reforço daquilo que são os direitos dos atletas. Paulo Nascimento Cabral também marcou presença no encontro.

O Observador viajou até Bruxelas a convite da Confederação do Desporto de Portugal

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