(c) 2023 am|dev

(A) :: Entre ventos e tempestades

Entre ventos e tempestades

Entre ventos e tempestades, Portugal acordou destruído por um vento vindo dos infernos. Mas foi em Moçambique que o Pedro Ferraz encontrou o demónio, que lhe terá roubado a vida. Paz à sua Alma.

Rodrigo Adão da Fonseca
text

Na madrugada de quarta-feira, à “hora do diabo”, um pouco depois das três da manhã, acordei com ventos fortes e chuva intensa. De manhã, o que encontrei à minha volta foi uma amostra do que deverá ser o Inferno. Sem luz nem comunicações desde a madrugada, saí para Lisboa porque o Oeste continuava sem eletricidade nem rede. Às sete da manhã, na A8 até Torres Vedras, o cenário que encontrei foi de completa destruição: árvores no asfalto, chapas e plásticos a cruzarem a via, troços às escuras, antecipando o que só mais tarde percebi que tinha acontecido.

Um fenómeno como a tempestade “Kristin” é excecional. Sejamos claros, não há planificação que trave o ímpeto de ventos com rajadas da magnitude das que foram registadas. Acresce que anos de mau planeamento urbano e territorial ampliam o potencial de estragos. A forma como desenhamos o espaço urbano, paredes meias com o mundo rural, assente em construções muito fracas, muitas delas envelhecidas, uma rede elétrica que precisa ser melhorada, e uma habitual incapacidade de nos prepararmos para eventos extremos, tornam Portugal, esse país que só se lembra de Santa Bárbara quando chove, particularmente vulnerável nestas situações.

Ainda assim, passados alguns dias após a tragédia, todos sentimos que muita gente podia ter feito muito melhor. Desde logo, um episódio desta dimensão, conhecido do IPMA dias antes, foi comunicado à população a meras 12 horas e sem instruções concretas. Não se recomendou proteger as fachadas, não se interveio preventivamente no terreno, em pontos críticos; não se recolheram estruturas facilmente removíveis que eram um convite ao desastre. É incompreensível que o mesmo Estado que, há duas semanas, tanto se esforçou para, na véspera de eleições, tapar ou retirar cartazes de campanha próximos de mesas eleitorais, nada faz no terreno para minimizar os impactos de um evento extremo como o da tempestade “Kristin”.

Pairou também a sensação de que as estruturas de resposta não estavam nem preparadas nem mobilizadas para agir. Durante mais de 24 horas, o que se sentiu no terreno foi uma profunda orfandade, onde as populações locais contaram, apenas, com o apoio da proteção civil de proximidade, e consigo próprias. É uma suprema ironia, mas um Estado omnipresente em tudo o que mexe, torna‑se recorrentemente invisível no momento em que é mais necessário. Não se pedia o impossível, apenas um pouco mais de rapidez a marcar presença junto das pessoas, alguma logística e, já agora, comunicação honesta. Em vez disso, fomos inundados nos media com frases de bolinho chinês ou de autoajuda, ao estilo do influencer Gustavo Santos. Na quinta-feira à noite, ao ouvir os responsáveis políticos – os que vieram a público – nos media, percebi que tudo isto ia ser uma “grande prova de superação para os portugueses”, que “iríamos sair mais fortes” e que “estamos num enorme processo de aprendizagem”. Fiquei foi sem saber coisas básicas, como, “qual o diagnóstico possível sobre o ocorrido”, “onde a população poderia ir buscar água ou mantimentos básicos”, “onde poderia pernoitar se estivesse sem teto”, “onde poderiam conectar-se para falar com as famílias em pânico”, ou “quando seria expectável ter luz, água e comunicações”. Se é para termos de nos fiar apenas na Virgem de Fátima, que até é da Região, que seja. Ao menos as Igrejas cobram apenas um dízimo, e não a carga de impostos com que o Estado se alimenta, para nos deixar, depois, entregues nas mãos do Divino. A tempestade “Kristin” deixou destroços, mas não apenas, expôs, outra vez, a falência de um Regime que se escancara a quem cavalga na desgraça, com governantes mais preocupados em gerir a crise da sua fraca reputação do que propriamente em resolver os problemas das populações mais vulneráveis.

*******

Conheci o Pedro Ferraz Reis na minha juventude. Anos mais tarde, cruzámo-nos no Banco BPI, onde trabalhei durante 11 anos. Fazíamos parte de um grupo de pessoas da mesma geração que, por termos percorrido um caminho semelhante, criou uma empatia forte e duradoura. Não sei como é nos outros bancos, mas, apesar de ter saído para uma vida não bancária, mantive sempre uma proximidade quase familiar com algumas das pessoas que conheci nessa altura. Foi por intermédio de algumas delas que percebi que a morte do Pedro e as circunstâncias apresentadas não fazem sentido. O Ferraz era uma pessoa serena, correta, e não merecia – se é que alguém merece – morrer desta maneira, ainda por cima enxovalhado pelas autoridades moçambicanas.

Acompanho Moçambique de perto há alguns anos, país no qual o SERNIC tem sido apontado recorrentemente como responsável por violência extrema e pelo assassinato de muitas pessoas inocentes. Em Moçambique, a morte tem sido, demasiadas vezes, instrumento de terror e de sinalização do que pode acontecer a quem não alinha com os interesses instalados.

Portugal tem, obviamente, de manter relações institucionais com Moçambique, para proteger os nossos cidadãos e os interesses que o país tem na região. Mas isso não pode ser feito à custa de subserviência perante este tipo de situações.

Tudo a que assistimos nos últimos dias envergonha-nos. A rapidez com que as autoridades moçambicanas e portuguesas querem selar a morte do Pedro Ferraz Reis não augura nada de positivo, e só lamento ver instituições do meu país a validar um exercício forense que, feito num tão curto espaço de tempo, só pode ser considerado inconsistente.

Por vezes, o suicídio bate à porta das pessoas mais insuspeitas, e até a forma como alguém decide fazer mal a si próprio pode surpreender quem o conhecia. Mas nada do que tem sido apresentado pelas autoridades moçambicanas e portuguesas faz qualquer sentido. Agrava a forma atabalhoada e apressada com que nos querem convencer de algo que, não se espantem, a imaginação do SERNIC ainda vai tornar mais grotesco.