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"Deve haver equilíbrio entre a parte profissional e a base": Confederação defendeu ligação ao Modelo Europeu do Desporto em Bruxelas

Comitiva da Confederação do Desporto de Portugal iniciou visita de três dias a Bruxelas com reunião de trabalho com Georg Haeusler, Diretor para Cultura, Criatividade e Desporto da Comissão Europeia.

Bruno Roseiro
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A semana vai ficar marcada pelo arranque dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão. De repente, todos os olhos estarão centrados na cerimónia de abertura em San Siro e até mesmo em países com menor expressão nos Desportos de Inverno, como Portugal, há um interesse crescente nesta fase para seguir modalidades que provavelmente só têm este tipo de holofotes de quatro em quatro anos como o curling, o esqui, o hóquei em gelo ou a patinagem de velocidade. Há mais eventos continentais a decorrer, neste caso com maior ligação à realidade nacional como os Europeus de futsal, de ciclismo de pista ou de polo aquático feminino (depois do Europeu de andebol), mas há em paralelo com isso um universo de desafios, riscos e oportunidades muitas vezes marginalizados ou secundarizados em torno do fenómeno desportivo a nível europeu. É a tudo isso que a Confederação do Desporto de Portugal (CDP) tenta ajudar a responder, neste caso numa visita ao Parlamento Europeu durante os próximos três dias que teve início esta segunda-feira.

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“O desporto na Europa enfrenta desafios crescentes, nomeadamente um aumento de comercialização em determinadas disciplinas desportivas, investimentos massivos de agentes estatais estrangeiros, diminuição do número de voluntários, digitalização e pirataria de eventos desportivos, mecanismos de redistribuição financeira e questões de sustentabilidade financeira”, defendeu antes da visita Daniel Monteiro, líder da CDP, que se fez acompanhar até Bruxelas de uma comitiva de mais de 20 federações nacionais. Em paralelo, questões como a governação de federações desportivas, a pouca representatividade de atletas na tomada de decisões, a desigualdade de género (não só nas decisões mas também na remuneração), o assédio com base no género e o discurso de ódio discriminatório são também levantadas.

Foi nesse âmbito que, tendo por base o Modelo Europeu do Desporto já existente, a CDP apresentou propostas no sentido de fazer evoluir o atual formato mais centrado na competição e no espectáculo para um modelo integrado, capaz de valorizar na mesma dimensão os impactos sociais e a sustentabilidade ambiental.

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Entre algumas das propostas apresentadas, que tinham sido submetidas à Comissão Europeia para consulta pública, destacam-se pontos como a adoção de um Código Europeu de Governação com regras de auditoria independente, prevenção de conflitos de interesse e participação de atletas por forma a reforçar os modelos de governance e transparência, a criação de novos mecanismos de solidariedade financeira entre o desporto profissional e o desporto de base, a discussão de uma Carta Europeia dos Direitos dos Atleta, o nascimento de unidades europeias antipirataria que possa combater a partilha ilegal de eventos desportivos e as medidas e normas de sustentabilidade ambiental nas organizações, com partilha do rótulo “Evento Verde”.

De acordo com a CDP, existe um problema macro em relação ao Modelo Europeu do Desporto que tem a ver com a forma como cada país e modalidades faz a sua interpretação, o que retira coerência a nível global aos objetivos propostos. Ao mesmo tempo, e à luz do atual regime, o órgão português defende existe pouca representatividade de um dos principais motores do fenómeno, como são os atletas, além de fatores críticos como o aumento do estilo de vida sedentário a falta de sensibilização para a importância do Desporto enquanto fator de inclusão social ou as visões díspares sobre o fenómeno por culpa de uma crescente comercialização e globalização do desporto que leva a alteração de prioridades por pressões económicas.

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“Se a União Europeia não tomar medidas coordenadas e com impacto em diferentes contextos, é provável que as ameaças ao Modelo Europeu do Desporto se venham a intensificar. Não agir agora poderá resultar numa viragem fundamental no futuro do desporto europeu porque poderá sobrepor-se uma visão do desporto movida pelos interesses financeiros. Caso não exista uma resposta adequada aos desafios, haverá também custos sociais significativos”, salientou a CDP, apontando riscos mais específicos como o crescimento das desigualdades, a “captura” comercial, a erosão da governação (e legitimidade), um decréscimo ainda maior no voluntariado ou um aumento da discriminação e dos riscos psicossociais, antes de balizar uma série de medidas a implementar a 12 e 18 meses para agir contra esses mesmos riscos.

Foi nesse âmbito que a comitiva nacional teve esta segunda-feira o primeiro encontro oficial da visita, com a Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura da Comissão Europeia, representada por Georg Haeusler, Diretor para a Cultura, Criatividade e Desporto. Alguns cumprimentos de circunstância na altura da apresentação, um par de conversas sobre Desporto de Inverno ou não fosse o responsável austríacos, um compasso de espera para que a sala recebesse a extensa comitiva. “Estamos aqui todos mas falamos a uma só voz, uma voz que tem compromisso com o Modelo Europeu do Desporto e com a perspetiva da pirâmide. O trabalho de base é o mais importante para nós, dar condições para que todos tenham hipóteses e oportunidades para um dia chegarem ao topo como todos querem chegar”, explicou Daniel Monteiro.

Georg Haeusler explicou que a proposta em relação a um novo Modelo Europeu do Desporto para ser depois decidido pelo Parlamento e Conselho Europeu está em processo de discussão, sendo depois válido entre o período entre 2028 e 2034, e que pretende em síntese aumentar o valor que será investido sem ter tantas “balizas” em termos de alocações de verbas. “Muitas das propostas que recebemos vieram de Portugal. Temos um Comissário do Desporto que não só tem essa responsabilidade, é algo para o qual ele vive. O centro da discussão será sempre o Modelo Europeu do Desporto, tendo em conta que muitos desportos estão a ir na direção do franchising, onde ou se paga ou não se entra. O Modelo tem de ser uma voz forte para dizer que não queremos isso. Tem de ser mais repartido, precisa ter mais voluntariado”, apontou, falando ainda da importância do desporto como atividade física numa era onde as pessoas mais novas “se mexem cada vez menos e fazem cada vez menos desporto, o que depois se traduz noutros aspetos negativos”.

Daniel Monteiro fez depois uma curta apresentação, agradecendo a possibilidade que foi aberta por parte da Comissão para este encontro e destacando a importância de deixar “uma mensagem muito clara no que toca à ligação ao Modelo Europeu do Desporto”. “Percebemos a importância do grau 0 da pirâmide, desde a base ao topo onde estão os melhores atletas. Deve ser um modelo baseado na solidariedade, na boa governação e no equilíbrio entre a parte profissional e a base. Estamos a trabalhar com o governo para um Plano Nacional para o Desporto a 12 anos, por forma a que se invista não apenas em anos de Jogos Olímpicos e Paralímpico mas todos anos e também em todas as partes da pirâmide. Às vezes conhecemos os programas, as áreas que estão nos vossos programas mas não temos as pessoas certas para colocar questões e ter respostas. Para nós é importante termos esse ponto. Programas como o Erasmus + são importantes, pela inclusão cada vez maior do feminino, pelas direções de governance e pela transformação tecnológica”, frisou.

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Todas as federações presentes foram depois apresentando de forma resumida a modalidade que dirigem, os números de praticantes de clube e os pesos que têm no País e em contexto escolar. Squash, xadrez, tiro, campismo e montanhismo, ciclismo, remo, Desporto Universitário (FADU), natação. Aí, Georg Haeusler fez uma pausa para fazer a pergunta sobre se existia um problema sobre as crianças não saberem nadar. “Temos uma costa grande, há sempre problemas com algumas mortes por afogamento. Queremos instituir um programa que consiga fazer com que as pessoas, mesmo que não consigam ainda nadar porque demorar mais, possam sobreviver na água”, explicou Miguel Arrobas, presidente da Federação de Natação.

Seguiram-se vela, voo livre, desportos de Inverno, surf, corfebol, paraquedismo, motonáutica, triatlo, judo, ginástica e râguebi, com Carlos Amado da Silva a pegar na introdução de Georg Haeusler para dar o exemplo do que se passa no Torneio das Seis Nações. “Não é justo que seja o dinheiro a definir as coisas”, apontou a propósito da prova “fechadas” a Irlanda, França, Inglaterra, Gales, Escócia e Itália sem que existam a possibilidade de promoções ou descidas. Também Domingos Castro, líder da Federação de Atletismo, deixou um lamento mais à margem do que tinha sido discutido a dar conta dos efeitos do mau tempo em Portugal. “Somos a modalidade número 1, com campeões olímpicos e mundiais e a principal arena indoor que tínhamos quase que desapareceu. A modalidade rainha ficou sem as devidas condições”, referiu.

Vários representantes de federações foram falando também das condições que Portugal apresenta em muitas modalidades não só para a prática mas também a nível de Centros de Alto Rendimento e para a realização de estágios por equipas e seleções de todo o mundo, antes de serem também explicados alguns dos principais objetivos dos programas Erasmus +. No final, Daniel Monteiro entregou a Georg Haeusler um dossier com a visão estratégica para o Desporto na Europa da CDP, bem como as cinco prioridades políticas que foram apresentadas para a atual legislatura, sendo uma delas o Plano Nacional para o Desporto a 12 anos. O primeiro dia da visita da comitiva da CDP a Bruxelas terminou depois com uma visita à Casa da História da Europa, um espaço que faz uma retrospetiva de toda a história do Velho Continente até aos nossos dias.

O Observador viajou até Bruxelas a convite da Confederação do Desporto de Portugal

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