Parece que Leiria decidiu aparecer nos radares de Lisboa, mas só depois de uma tempestade a ter literalmente arrasado. Que gentileza! Janeiro de 2026 ofereceu-nos a todos um espetáculo pedagógico sobre como o centro do poder trata o que teima em existir para lá da capital.
A tragédia que assulou distrito de Leiria foi de tal modo inegável — meio milhão de pessoas no escuro e sem água, um parque industrial em frangalhos — que foi impossível de ignorar. Obrigou a um exercício de representação simbólica. O Primeiro-Ministro, num gesto de extrema urgência, marcou presença… dois dias depois. Prioridades são prioridades, e claramente inaugurar um consulado em Andorra exigia uma presença mais imediata. A mensagem é subtil: as relações diplomáticas com um principado montanhoso superam o desespero de uma cidade portuguesa alagada.
A coreografia da preocupação foi impecável. A visita ministerial foi tão rápida e estéril que nem houve tempo para uma conferência de imprensa — para quê explicar, quando se pode apenas aparecer na foto? Enquanto isso, o distinto Leitão Amaro mostrou-nos que a modernidade está no digital: a solidariedade mais eficiente é a que se faz por vídeo, de gabinete, com os sapatos limpos. Ir ao terreno? Isso é para os extras.
Não podia faltar, claro, o toque presidencial. Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se ao local para exercer a sua função suprema: a de distribuidor-chefe de abraços. A catarse emocional estava garantida, as s ficaram calorosas. Soluções, estratégias, meios concretos? Nem por isso. O abraço é a unidade de medida da empatia de Estado: momentânea, reconfortante e completamente desprovida de conteúdo prático. É o equivalente político a “pensamentos e preces”.
O léxico oficial foi, como sempre, uma obra-prima da vacuidade. Falou-se de “resiliência”, de “lições aprendidas”, de “momentos difíceis”. Palavras que servem exatamente para nada, como um penso rápido colocado num membro amputado. A devastação foi tratada como um cenário pitoresco para discursos e contactos físicos, não como uma ferida nacional que exigia ação concreta.
Ficou assim provado, de forma cristalina, a hierarquia geográfica da empatia nacional. Se tivesse sido em Lisboa, teria sido um apocalipse a exigir meios nacionais. Como foi em Leiria, foi um “evento climático adverso” numa qualquer periferia que teima em existir. A resposta não foi apenas lenta; foi um estudo antropológico sobre o desprezo, agora com direito a abraços fotogénicos.
A tempestade, no fundo, fez mais do que destruir casas e negócios. Fez o serviço público de desmascarar a ficção da coesão territorial. Em janeiro de 2026, o Estado não falhou na sua resposta. Pelo contrário, foi brilhantemente bem-sucedido no seu objetivo primordial: demonstrar, com uma precisão quase cirúrgica, que para a elite que governa a partir de Lisboa, Leiria não existe. Exceto, claro, como pano de fundo para uma fotografia de condolências ou um cenário adequado para uma campanha de abraços gratuitos.