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(A) :: Chineses em Cabul com um cardápio explosivo 

Chineses em Cabul com um cardápio explosivo 

Quanto mais a China reforça a segurança e se fecha em bolhas, mais se aproxima do cenário que queria evitar: uma presença estrangeira que parece ocupação, mesmo quando se anuncia como comércio.

Nuno Miguel Lemos
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Há atentados que matam pessoas. E há atentados que matam uma promessa. Quando o Estado Islâmico no Afeganistão decide atingir a comunidade chinesa, não está apenas a procurar vítimas. Está a atacar a narrativa que os talibãs vendem desde 2021: “há ordem”, “há controlo”, “o país estabilizou”. E está a testar, com sangue, se a China consegue fazer o que o Ocidente não conseguiu: viver no Afeganistão sem pagar o preço.

O alvo é escolhido com frieza. Um restaurante, um hotel, um local conhecido por receber chineses. Um gesto de vida normal, transformado em palco. E a mensagem é simples, quase insultuosa: não há bolhas seguras, não há enclaves protegidos, não há “zona verde” que resista quando a violência quer ser vista.

A China entrou no Afeganistão com um argumento sedutor e pragmático. Não para dar lições, não para construir instituições, não para exportar modelos políticos. Entrou para fazer negócios, abrir portas, ganhar acesso a recursos e redesenhar rotas. Ao lado disso, uma expectativa não escrita: os talibãs garantem segurança; Pequim traz dinheiro e uma espécie de normalização.

O Estado Islâmico quer rebentar essa equação, literalmente.

Porque percebeu uma coisa que muitos analistas fingem não ver: o investimento chinês é um dos poucos balões de oxigénio possíveis para o Emirado. É uma promessa de receita, infraestruturas, reconhecimento gradual, e uma janela para não depender apenas de contrabando, caridade e improviso. Logo, se quer asfixiar os talibãs, o Estado Islâmico não precisa de conquistar províncias. Precisa de tornar a presença chinesa impossível.

Este é terrorismo com lógica de mercado. Aumentar o custo. Aumentar o medo. Aumentar o risco. Até a decisão racional ser recuar.

E há mais. Para o Estado Islâmico, a China serve um propósito perfeito de propaganda. É potência global, é símbolo de modernidade sem eleições, é presença “limpa” que pode ser descrita como exploração. É um inimigo grande o suficiente para dar estatuto, mas suficientemente exposto para dar resultados. Atacar chineses é dizer aos recrutas: “não somos uma guerrilha local, somos uma guerra global”.

Depois há o golpe cirúrgico na legitimidade talibã. Os talibãs vivem da promessa de controlo total. O Estado Islâmico vive de a humilhar. Cada ataque bem sucedido não é apenas um crime. É um plebiscito armado sobre quem manda. Quando uma bomba explode num local “seguro”, o que estilhaça não é só vidro. É autoridade.

E isto empurra Pequim para um dilema desagradável.

Se a China se aproxima ainda mais dos talibãs, para exigir garantias e reforçar protecção, torna-se mais indispensável, mais visível, mais associada ao regime. Ou seja, mais valiosa como alvo. Se a China se afasta, perde influência num território que considera sensível, tanto pela geografia como pelo medo do contágio militante para o seu próprio espaço interno. Se fica a meio caminho, arrasta-se num pântano de prudência, sempre à espera do “incidente seguinte”.

A tentação, em Pequim, será fazer o que sempre faz: discrição, pressão silenciosa, cooperação de segurança sem assinatura, e negócios com escolta. Mas o Afeganistão tem o hábito de transformar discrição em vulnerabilidade. Quanto mais se tenta normalizar o anormal, mais caro se torna o choque quando ele regressa.

Entretanto, o Estado Islâmico vai construindo outra narrativa: a de que a China é o inimigo ideal para uma jihad do século XXI. Não é só o “estrangeiro” no Afeganistão. É o Estado que, na imaginação jihadista, representa a repressão, a tecnologia, a vigilância, e a humilhação de muçulmanos. Esta narrativa não precisa de ser verdadeira para ser útil. Precisa apenas de ser repetida com violência.

O impacto não fica em Cabul. O efeito dominó espalha-se por toda a lógica regional. No Paquistão, onde interesses chineses já são alvo há anos, cresce a pressão para empurrar os talibãs a agir, e cresce a ansiedade de que o Afeganistão volte a ser um exportador de militantes e instabilidade. Na Ásia Central, a ideia de “corredores seguros” torna-se um slogan cada vez mais difícil de vender. E quanto mais a China tem de reforçar a segurança e fechar-se em bolhas, mais se aproxima do cenário que queria evitar: uma presença estrangeira que parece ocupação, mesmo quando se anuncia como comércio.

No fundo, o Estado Islâmico está a fazer uma aposta estratégica: não precisa de derrotar os talibãs com tanques. Basta roubar-lhes o futuro.

Porque o futuro dos talibãs, se existir, passa por dinheiro. Passa por investimento. Passa por um mínimo de normalização externa. E a China, neste momento, é o actor com mais capacidade para transformar um regime isolado numa máquina funcional. Logo, atingir chineses é atingir o nervo do projecto.

A pergunta, então, não é “porque é que atacaram um restaurante”. A pergunta é: quantos ataques são necessários para a China concluir que o Afeganistão não é um negócio, é uma armadilha? E há outra pergunta, mais incômoda: quantas vezes é preciso o terror provar que a estabilidade talibã é um teatro, antes de o mundo deixar de fingir que está a assistir a uma transição e começar a admitir que está a assistir a uma ilusão?

O Estado Islâmico não quer só mortes. Quer medo com agenda. Quer o investidor a desistir, o diplomata a hesitar, o regime a vacilar. Quer, sobretudo, uma frase a circular em Pequim: “não vale a pena”.

E, quando um grupo terrorista consegue transformar “não vale a pena” numa política externa, ganha sem precisar de governar um centímetro de terra.