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(A) :: A sabedoria do tempo

A sabedoria do tempo

Uma sociedade que abraça o seu passado não é uma sociedade prisioneira do tempo, mas uma sociedade com raízes.

Carlos Vinhal Silva
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Vivemos numa era de mudança vertiginosa, onde o novo é venerado como um ídolo e o antigo é desprezado como um fardo a ser descartado. Numa sociedade onde a tecnologia se transforma à velocidade da luz e as modas se sucedem como ondas impacientes, a tradição é muitas vezes vista como um obstáculo, uma relíquia desnecessária de tempos ultrapassados. Mas esta visão é uma traição à própria essência da civilização, que não é uma construção instantânea, mas o fruto de uma lenta acumulação de sabedoria, de experiência e de valores que foram forjados ao longo dos séculos. O presente não é um ponto isolado no tempo, mas um elo numa cadeia contínua que liga as gerações. Ignorar o passado em nome de um progresso irrefletido é tão insensato quanto arrancar as raízes de uma árvore na esperança de que cresça mais rapidamente. Porque é precisamente no solo fértil da tradição que floresce a verdadeira liberdade e prosperidade.

Uma sociedade que rejeita o seu passado, que despreza a herança cultural e moral dos seus antepassados, é uma sociedade que se condena a viver na superficialidade, sem profundidade nem estabilidade. Isto não significa, porém, uma adesão cega ao que é antigo, como se a antiguidade fosse uma garantia automática de sabedoria. O passado tem os seus erros, as suas injustiças e os seus preconceitos e não é sábio quem os perpetua. Mas rejeitar o que houve de melhor no passado em nome de uma modernidade irrefletida é uma forma de ignorância. É como destruir uma biblioteca para reescrever todos os livros, sem se dar conta de que muitas das verdades que procuramos já foram descobertas, muitas das virtudes que admiramos já foram praticadas, e muitos dos erros que tememos já foram cometidos.

A verdadeira sabedoria consiste em separar o ouro da escória, em preservar o que é digno e justo e em corrigir o que é erróneo. É aprender com os erros dos nossos antepassados sem desprezar os seus acertos. A tradição é um guia, não uma prisão; é um mapa que nos orienta num mundo em constante mudança e não uma corrente que nos impede de avançar. O que chamamos de civilização é precisamente o resultado deste diálogo contínuo entre o passado e o presente, entre o legado que recebemos e as escolhas que fazemos. E em que consiste este legado que o presente deve abraçar? Em primeiro lugar, na noção de que há uma ordem moral que transcende os caprichos do momento. Uma sociedade que esquece o princípio de que há valores universais, como a justiça, a honestidade, a coragem e o respeito pela dignidade humana, é uma sociedade que se perde no relativismo, onde tudo é permitido e nada tem verdadeiro valor. Esta ordem moral não é uma invenção arbitrária, mas a descoberta lenta e dolorosa de princípios que asseguram a coexistência pacífica e o florescimento humano. Em segundo lugar, o respeito pelas instituições que são a espinha dorsal de uma sociedade estável: a família, como primeira escola de virtudes e santuário da dignidade humana; a propriedade privada, como garantia da liberdade e da independência do cidadão; o Estado de Direito, que protege o fraco do abuso do forte e assegura que ninguém está acima da lei. Estes pilares não são meras convenções sociais, mas conquistas de gerações que aprenderam, muitas vezes a um custo elevado, que a liberdade não é um dom gratuito, mas uma construção paciente que requer ordem e responsabilidade.

Mas a tradição não é apenas um conjunto de valores e instituições; é também uma fonte de inspiração cultural. Numa época em que a arte e a literatura são muitas vezes reduzidas ao efémero e ao vulgar, o passado oferece-nos modelos de beleza, de grandeza e de profundidade. É nas páginas de Homero, de Camões e de Shakespeare que encontramos as verdades eternas da condição humana. É nas catedrais que contemplamos o esplendor da fé e da beleza. É na filosofia dos antigos que aprendemos a distinguir entre o verdadeiro e o falso, entre o justo e o injusto. No entanto, abraçar o melhor do passado não significa rejeitar o progresso, mas garantir que este não se transforma em um naufrágio. A ciência e a tecnologia são instrumentos poderosos, mas não são fins em si mesmas. Uma sociedade que avança tecnicamente sem preservar os seus princípios morais é como um navio que aumenta a sua velocidade enquanto perde o leme. É por isso que, mesmo no meio da mudança, é necessário manter uma âncora que nos ligue ao que é perene, ao que foi testado pelo tempo e aprovado pela experiência.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de uma renovação da memória coletiva, de um respeito inteligente pelo passado e não de uma veneração cega, mas de uma valorização crítica. Porque o que é a liberdade, se não o direito de escolher o que é melhor? E como podemos escolher sabiamente, se desconhecemos o legado que recebemos? O presente deve ser o herdeiro de tudo o que houve de grande e nobre no passado, e não o seu coveiro. Uma sociedade que abraça o seu passado não é uma sociedade prisioneira do tempo, mas uma sociedade com raízes. É uma sociedade que reconhece que os seus maiores tesouros não são apenas os que cria, mas também os que herda. E é apenas quando reconhecemos esta verdade que podemos esperar construir um futuro digno, onde o progresso técnico é iluminado pela sabedoria moral e onde a liberdade é protegida pelo respeito pelas lições da história.