Numa reportagem televisiva uma pessoa, manifestamente furiosa, resumia bem, um dia depois da tempestade, o que devia ser feito e não foi. Perguntava-se como queria que se usasse as redes sociais se não existiam comunicações, onde estavam os militares, porque não estavam já, depois da tempestade, a instalar tendas de campanha com assistência médica e distribuição de comida quente. Estão a distribuir lonas, dizia, mas para se fazer o quê com uma população envelhecida que não as conseguiria usar. “Só se for para fazer filhoses”, concluía, como que resumindo assim os absurdos que nos foram passando pelos olhos e ouvidos nestes dias de pós-tempestade Kristin. O espírito de solidariedade comunitária foi um pilar fundamental, já que o Estado esteve bastante aquém do que seria de esperar, pelo menos no imediato.
Enquanto as reportagens se centrarem nas visitas de ministros e candidatos aos locais devastados, como Leiria, Coimbra ou Marinha Grande, em vez de nos mostrarem que, de imediato, estavam no terreno não apenas os bombeiros como também os militares, estamos manifestamente a deixar as pessoas a tomarem conta de si. Não se sabe bem porque não foram de imediato convocados os militares. Aparentemente porque não o quis a Proteção Civil – cujo presidente também nos diz agora que não precisamos de pedir ajuda europeia.
Face ao que aconteceu, e ainda continua a acontecer, vale a pena olhar seriamente para os mecanismos de protecção civil que temos e verificar como é que podemos, de facto, apoiar quem precisa logo nas primeiras horas. Não se quer acreditar que a falta de mobilização de todos os meios, para chegar até às aldeias mais isoladas, se fique a dever a desejos de protagonismo, que tendem a resistir à cedência destes pequenos poderes. O presidente da Protecção Civil tem estatuto de sub-secretário de Estado e, por isso, está investido de poder para mobilizar meios. Porque não o fez, tem de ser respondido a seu tempo.
O segundo aspecto destes dias de tempestade está centrada na falta de bom senso e empatia de alguns membros do Governo. Já foi bastante referido o famoso vídeo do ministro Leitão Amaro. Uma comunicação com o país que é assustadora principalmente por ter havido quem, na sua equipa, tenha considerado uma boa ideia brincar aos filmes numa situação destas.
Também o ministro das Defesa Nuno Melo, apesar da sua experiência política, acabou a dar-nos uma mensagem de falta de empatia. Primeiro achou que era boa ideia, perante a tragédia que se abateu sobre as pessoas, algumas delas sem casa, manifestar a sua preocupação com um sargento que fazia anos. A seguir deixar que quem assistiu a tudo aquilo tenha visto os militares a abandonarem tudo, assim que o ministro se foi embora, de acordo com os testemunhos transmitidos pelas televisões.
Depois temos a ministra da Administração Interna a mostrar como uma competente Provedora e antes juíza do Tribunal Constitucional pode dar uma ministra sem capacidade de falar para os cidadãos. O problema de Maria Lúcia Amaral foi não perceber qual o seu papel político. Não comunicou mal nem bem, pura e simplesmente não soube falar para as pessoas.
E esse é o problema de alguns protagonistas políticos: esquecem-se que não estão a falar com o jornalista que está à sua frente, mas sim para as pessoas que, através dos meios de comunicação social, olham para eles à espera de resposta para, nesta circunstância, os problemas graves que enfrentam. Querem, muitas vezes, apenas palavras de conforto, mensagens que revelem a capacidade de se colocarem no lugar do outro.
Outro erro comum é gastarem o tempo a falar de procedimentos. Nestas alturas é preciso ser directo e dizer exactamente o que é que se está a fazer – de preferência ser ser em “burocratês”- e o que as pessoas podem ou devem fazer, em vez de se usar linguagem cifrada ou descrever os caminhos dos papéis que circulam na tecnocracia.
Por mais que se queira dizer o contrário, o Estado não esteve à altura do que lhe era exigido, quer do ponto de vista operacional como na perspetiva de transmitir confiança e ânimo aos nossos concidadãos afectados por esta tragédia. Ser político não é ser burocrata, é saber liderar quando há momentos difíceis.
Temos depois a E-Redes e as empresas de comunicações. Na electricidade fica claro que a muita comunicação e estratégia sobre a sustentabilidade ambiental está focada nos aspectos que podem ser lucrativos, mas não deram resistência ao sistema. Parece existir manifestamente falta de investimento que torne a rede resistente às mudanças climáticas que bem conhecem. O mesmo se aplica às telecomunicações. A rede eléctrica e de telecomunicações tem de olhar para si para ser mais resistente nestas tempestades que, sabem bem, serão cada vez mais frequentes. Claro que se compreende que vai levar tempo a recuperar a rede eléctrica – aparentemente só em finais de Fevereiro – perante a destruição que existiu. O que não se pode admitir é que tenha existido toda esta destruição.
Talvez desta vez comecemos a perceber que temos de investir mais na adaptação aos eventos climáticos extremos, que todos os estudos nos dizem que vamos enfrentar, reduzindo a prioridade que tem sido dada à descarbonização, por via da electrificação com energias renováveis, solar e eólica. Vê-se e aliás, como já tínhamos visto com o apagão, como o cem por cento elétrico nas nossas casas é um erro.
E talvez desta vez também as autarquias – e o próprio Governo – percebam que têm de ter equipas competentes, que nem tudo pode ser “jobs for the boys”. E que precisamos de levar mais a sério a preparação para eventos climáticos extremos, fazendo exercícios de simulação nas comunidades.
Como disse a ministra da Administração Interna, estamos a aprender. O problema é que parece que nunca mais aprendemos apesar de, nos anos recentes, termos enfrentado várias calamidades. Da preparação para a tempestade até ao apoio rápido às comunidades atingidas, passando pela incapacidade de falar com empatia, o que vimos foi um desfilar de incompetências variadas. Que nos leva a pensar que temos de nos preparar para estarmos entregues a nós próprios e à solidariedade das comunidades.