As tempestades e outros fenómenos meteorológicos extremos não eram comuns nas nossas vidas. Por tantas vezes nos vangloriávamos a nós mesmos por vivermos neste “paraíso à beira-mar plantado” onde nada parecia tocar. Mas a realidade mudou! Cada vez mais somos assombrados por estes fenómenos que além de mais frequentes têm se tornado mais intensos e mais extensos no que diz respeito à amplitude de áreas afetadas. A verdade é que o risco aumentou, mas a nossa cultura de segurança, preparação para o risco, é ainda frágil e dá cada vez mais provas disso.
Este artigo não pretende ser uma crítica política à atuação em nenhum caso específico, nem o clássico “chorar sobre o leite derramado”, mas sim uma reflexão sobre o futuro, sobre a necessidade de implementarmos e desenvolvermos neste país uma verdadeira cultura de segurança. Uma sociedade segura não é aquela que reage bem depois do desastre ou aquela que recebe elevados níveis de solidariedade nacional, mas sim aquela que prevê e age corretamente antes dele. Sei que talvez possa parecer cedo ou frio para esta reflexão, no momento em que ainda temos comunidades em pleno sofrimento com o que ocorreu ao longo da última semana, mas podemos estar tão próximos de eventos do género que tive mesmo a necessidade de lançar o alerta.
A fragilidade da cultura de segurança em muitos países e em especial no nosso, não resulta da ausência de sistemas de aviso ou de planos formais de emergência, pois na verdade os sistemas de proteção civil têm evoluído significativamente ao nível tecnológico: alertas por SMS, comunicações em tempo real e previsões meteorológicas cada vez mais precisas. No entanto, permanece um problema estrutural raramente discutido com profundidade: a ausência de uma verdadeira cultura de segurança na população. E, esta resulta, sobretudo, de um défice de segurança comportamental, ou seja, da incapacidade coletiva de transformar informação em ação protetora. Na prática, o risco é comunicado, mas não é interiorizado, porque receber um alerta não é o mesmo que lhe saber reagir. Pensemos em cada um nós: quantas vezes ouviu chegar a mensagem e já nem a abre pois vê que é um aviso meteorológico? O que fez de diferente no seu dia-a-dia depois de receber estas mensagens, o que mudou do seu plano?
A maioria das pessoas interpreta o risco de forma subjetiva, filtrando-o por experiências passadas, rotinas diárias e perceção de controlo. Quando nunca ocorreu uma consequência grave imediata, o cérebro tende a minimizar o perigo. Os avisos são recebidos, mas não geram comportamento adaptativo. Este mecanismo psicológico, embora adaptativo em contextos normais, torna-se altamente disfuncional em situações de emergência. E, a ciência e os dados são inequívocos, em contextos de emergência, o comportamento humano é frequentemente o fator decisivo entre proteção e exposição ao perigo. Atenção, isto não é ignorância, é um desfasamento entre realidade climática e hábitos comportamentais. A mente humana opera ainda opera segundo o paradigma que conhece, o de clima seguro.
Um dos maiores perigos psicológicos em Portugal é a crença coletiva de que os fenómenos meteorológicos extremos são incómodos, mas não verdadeiramente letais. Esta percepção reduz drasticamente os comportamentos de autoproteção. Contudo, à medida que a intensidade dos fenómenos meteorológicos adversos aumenta, esta ilusão torna-se cada vez mais perigosa. Sem mudança comportamental, a probabilidade de perda de vidas humanas torna-se inevitável.
A prevenção assenta sobretudo no comportamento humano das populações, das comunidades e das autarquias locais, na forma como se interpretam os alertas, se alteram rotinas, se protegem habitações, se apoiam vizinhos vulneráveis e se ativam planos comunitários de resposta. É neste momento prévio que se ganha ou se perde grande parte da segurança coletiva.
É, então, necessário elaborar uma mudança de mindset coletivo, mas nunca será cada uma das pessoas a mudar por si. É necessária intervenção, é necessária a implementação, tal como já referido de uma cultura de segurança, para que esta mudança de mindset e consequentemente comportamental aconteça. Preparar comunidades para um clima que já mudou não é consistente com práticas que continuam centradas apenas em avisos meteorológicos. É necessária uma estratégia de preparação comportamental para eventos climáticos extremos que passará de forma evidente pela literacia de risco, pela preparação comunitária e pelo treino comportamental, mas também pela ação autárquica estruturada. A literacia do risco deve capacitar as populações para compreenderem os perigos reais do território, interpretarem corretamente os níveis de alerta e saberem que comportamentos adotar em cada situação concreta, transformando informação em ação protetora. Paralelamente, o treino comportamental, através de simulações, exercícios comunitários e práticas regulares, permite criar respostas automáticas de autoproteção que se ativam sob stress, reduzindo decisões impulsivas ou de negação do risco. Em situações de emergência o ser humano não age de acordo com os seus conhecimentos, responde de forma automática através de comportamentos treinados. A preparação comunitária deve igualmente promover planos familiares de emergência, redes de vizinhança solidária e mecanismos locais de apoio mútuo, garantindo que a resposta não é individual, mas coletiva. A este nível, a ação autárquica assume um papel central, quer através do mapeamento de zonas de risco, quer pelo registo e acompanhamento de pessoas isoladas ou vulneráveis que não consigo se proteger sozinhas, quer ainda pela ativação rápida de apoio em situações críticas. Só a articulação destes diferentes níveis de intervenção permitirá construir uma verdadeira cultura de segurança capaz de responder eficazmente a um clima que já mudou.
À medida que os fenómenos extremos se intensificam, manter comportamentos antigos é caminhar para crises cada vez mais graves. O clima mudou, a cultura de segurança tem de mudar também. Continuar a reagir como se as tempestades fossem meros incómodos é uma forma silenciosa de risco coletivo. A implementação de uma cultura de segurança comunitária já não é uma opção, os alertas continuarão a ser ignorados e as consequências humanas tenderão a agravar-se se nada for feito. É uma necessidade urgente para proteger vidas num clima que já mudou.
Quero ressaltar que este artigo não pretende responsabilizar a comunidade e as autarquias por toda a segurança e resposta à crise. Debrucei-me especial e intencionalmente sobre o nível 1 de segurança, ou seja, no nível preventivo, designado como prevenção comportamental do risco ou preparação e mitigação comportamental. Muito mais existirá a refletir sobre o nível seguinte, resposta a emergências ou gestão de crise e recuperação, isto é, nível de intervenção durante e após a crise, talvez numa próxima oportunidade. Mas não resisto a deixar para reflexão: atendo ao tempo que se tem demorado a fazer um levantamento de necessidades e a fazer chegar ao terreno, por exemplo, geradores. Quanto tempo demoraríamos a ter pronto socorro médico especializado (hospitais de campanha funcionais) caso fosse necessário? Vamos continuar a evitar solicitar ajuda internacional mesmo quando dela necessitamos? Porquê? Orgulho, imagem? Concordaram as populações afetadas com “não necessidade” dessa ajuda?
A principal mensagem que gostaria de deixar hoje para reflexão futura é que ausência de reação aos alertas não é falha tecnológica, é falha comportamental e cultural. Para prevenirmos o futuro, necessitamos investir numa verdadeira cultura de segurança que não passa só por meios e tecnologias de aviso, mas sim pela implementação de uma verdadeira cultura de segurança. Para tal, é necessário investir na literacia do risco, treino sistemático de comportamentos seguros, no envolvimento comunitário, numa forte e ativa liderança autárquica e ainda na proteção proativa dos mais vulneráveis. A solidariedade ajuda e é louvável, mas não será o suficiente para evitar perda de vidas humanas no futuro .