“Leiria não existe”, é uma daquelas frases que jovens dizem, em puro nonsense (aqui, dos meus 37 anos, encarno um velho rabugento a criticar a juventude). Claro que Leiria existe, tem um castelo (meio anacrónico), tem um pinhal histórico, aparece em vários momentos da história e da literatura nacionais.
Contudo, esta semana, percebemos que há toda uma fação da sociedade que acreditou na frase. A falta de preparação das autoridades, no distrito de Leiria, são prova disso. Também é prova disso o facto de o Governo ter omitido qualquer acção, até este fim-de-semana, além de umas fotografias polémicas.
Mais, a total inexistência de Leiria demonstra-se com o facto de a comunicação social, quando havia 200 mil pessoas sem luz, reportarem com mais paixão a situação em Lisboa (onde nada de especial se passou), sendo que a zona de Leiria… não era relevante.
Aqui, faço um meia culpa, sou da Área Metropolitana de Lisboa, aí vivo, e trabalho, e convivo. E, qual Eça, digo “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”. Mas eu não sou um governante nacional. Não sou um deputado. Não sou um membro da comunicação social que visa “informar os cidadãos de forma isenta”. Não. Sou um mero cidadão de Lisboa, com um cargo autárquico na freguesia lisboeta de Estrela. E, apesar de tudo, sinto-me altamente incomodado com o que aconteceu.
Os problemas materiais, as vidas perdidas, são sempre trágicas. Mas inevitáveis, quando estão em causa acidentes naturais desta magnitude. Sendo friamente objectivo, não são essas tragédias “o” problema.
O problema é a constante incapacidade de o Estado fazer o seu papel, cumprir as suas obrigações de proteção civil – ou seja, algo que quer comunistas, quer liberais, acreditam ser a sua função. O SIRESP voltou a falhar, com efeitos trágicos, uma vez mais (até quando?…).
As populações ficam abandonadas pelos poderes centrais, que só se preocuparam quando as redes sociais começaram a fazer disto um tema (porque, sejamos sérios, actualmente são elas quem informam – e desinformam – visto que os órgãos de comunicação social estão mais focados nos seus painéis de comentário político e futebolístico, em vez de se preocuparem em informar).
Por outro lado, os políticos… os políticos politicam. Ora, os candidatos presidenciais que dobram a meta, e em vez de alertarem para o tema e usarem a atenção que têm para ajudar as vítimas, aproveitam para fazer vídeos de gosto duvidoso.
O Governo, lança umas fotos tiradas pelo estagiário a mostrar trabalho (quando que se pretendia seria informação, não propaganda). A Ministra da Administração Interna não apareceu – o que, pessoalmente, não me choca, visto que é suposto estar a dirigir os trabalhos, não a fazer conferências de imprensa. Mas o Governo, nada disse. Mais uma vez, o Governo derrapa violentamente na comunicação. Poderiam aprender com o que se faz lá fora, e ter uma pessoa dedicada a fazer de porta-voz para estas situações (algo que até funcionou durante a pandemia…). Mas não…
Já no apagão, foi o que foi! Com os incêndios, todos os anos!…
Investimos magistralmente (e bem!) nos túneis para evacuar água em Lisboa, prevenindo enchentes. Há um acidente nas áreas metropolitanas, há logo jornalistas, diretos nas TV’s, e programas de comentário dedicados.
200 mil pessoas dias sem luz, sem água, e o Governo espera 6 dias para fazer uma reunião de emergência (no Domingo de manhã) para tomar umas medidas!!!
No entretanto, enviam um grupo militar para o terreno (equipamento e … quatro militares). Ora, tanto se fala em investir em defesa e estarmos preparados, mas, quando cada vez mais as forças armadas têm uma dupla valia de safety & security, percebemos que o Estado não as capacita para enfrentar uma tempestade – rezo para que nunca sejamos invadidos…
Por isso, sim, Leiria não existe. Tal como não existe Reguengos de Monsaraz, Rabo de Peixe, Rebordelo ou Freixo de Espada à Cinta. No nosso panorama político, para além de cobrar impostos e distribuir cargos autárquicos, o país profundo não existe.
Há uma brutal franja do território nacional que não existe no mapa político. O Estado não quer saber deles, mas também não lhes dá condições para funcionarem sem o Estado.
Não há hospitais privados, ou PPS na saúde. Não há cheques ensino, nem contratos de associação com projectos cooperativos ou privados de ensino. Uma empresa que se queira estabelecer no interior, ou faz tax shopping com autarquias, ou então percebe que abrir no deserto de Gobi seria mais fácil (pelo menos não ia ter um funcionário com dúvidas sobre o enquadramento da licença x ou y). E, sobretudo, não há Estado a funcionar! Não fazem, nem deixam fazer!
Infelizmente, este é mais um momento em que os portugueses se deparam com o abandono, com a desconsideração dos partidos da Lapa e do Rato. E, neste contexto, sabemos quem beneficia da revolta. Infelizmente, também não é, na minha opinião, solução.
Esperemos que no meio desta desgraça, se acorde um pouco, e os governantes sejam, definitivamente, chamados à sua responsabilidade. Sejam estadistas, acabem com os powerpoints e slogans patéticos, e reformem! Afunilem recursos para a recuperação de infraestruturas, mas aproveitem para limpar a casa, cortar em serviços que não funcionam. Daí, trabalhem com as populações, com as empresas, com o terceiro sector, e difundam o interesse público por todos, de modo que a boa gestão prevaleça, e o Estado não precise de ter um serviço aberto a cada esquina para que todos tenhamos os serviços que merecemos, e precisamos.
No fundo, devemos todos estar muito preocupados porque, mais do que Leiria não existir nas piadas dos adolescentes, há o risco de, se não mudarmos rapidamente de rumo, em breve de facto não haver nada, nem ninguém, no interior de Portugal, porque, como sociedade, falhamos em ver o país para além das Portas de Benfica.