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(A) :: Seguro; ou, o Prometeu contemporâneo

Seguro; ou, o Prometeu contemporâneo

Mesmo que a estratégia contra a desmobilização funcione, tenho dúvidas que a substituição da Quimera pelo criador tenha tido um efeito líquido positivo.

Henrique Alpalhão
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Como não poderia deixar de ser, António José Seguro emergiu do seu casulo misterioso escassas horas depois de eu ter escrito um artigo sobre o seu silêncio. Nada mais me resta senão agradecer o pretexto para escrever um pouco mais.

Assistimos, da parte da campanha de Seguro, a uma inversão de sentido quando o candidato concedeu duas entrevistas consecutivas, neste domingo e 2ª feira, à Clara de Sousa e ao Vítor Gonçalves. Terá a máquina do socialista chegado à conclusão de que o perfil “folha em branco”, outrora embalado pelos apoios de quase toda a gente, estaria agora a ser interpretado um pouco literalmente demais pelos cidadãos.

O efeito da substituição da quimera radical-progressista-ecologista-comunista-socialista-conservadora-liberal-centrista-tecnocrata pela voz do próprio Seguro, com propósito de contrariar a desmobilização, acarta no entanto também o risco de desiludir alguns dos eleitores já capturados.

Independentemente do juízo que possamos fazer da sua substância, honestidade ou naturalidade, a verdade é que o Monstro de Seguro trouxe ao seu criador contributos importantes. Em primeiro lugar, cada cabeça filtra a sua plateia, e a relevância disto não pode ser subestimada: permite que a Seguro sejam atribuídas, ainda que por vezes apenas por associação a cada componente que o endossa, missões incompatíveis entre si. Só assim é possível que de Seguro se espere que seja fomentador de consensos; que promova a estabilidade governativa e dê aos governos condições para serem eficazes; que tranque o Chega e seus apoiantes numa jaula e desejavelmente a lance ao Atlântico; que nutra e defenda o teor democrático do regime; que preserve a (forma actual da) Constituição; que motive os agentes políticos e económicos a inovar e produzir desenvolvimento económico e social; que chumbe o pacote laboral do Governo, e que faça tudo isto dando a Ventura tantos argumentos quantas frontes tenha a Amálgama.

Em segundo lugar, os notáveis do Aglutinado endossam a Seguro a própria notoriedade, coisa que nem o próprio reivindica para si – e cuja ausência foi habilmente incorporada numa imagem de fora do sistema sistemático, replicando o bom da postura de Ventura e expurgando o mau, e invocando a estratégia de Gouveia e Melo.

Voltemos no entanto às entrevistas de Seguro. Assim que o próprio toma a palavra para representar a sua candidatura, todas estas plateias, se estiverem a ouvir, esperam ouvir a mensagem que para eles é mais importante, e de ver perfil e gravitas que justifiquem a sua escolha para mais alto magistrado da nação. E todos terão sido confrontados com a realidade que, compreensivelmente, poderia ter ficado esquecida ou esbatida pela rápida e eclética sucessão de apoios à candidatura, ou pela devastação provocada pelos recentes e ainda decorrentes fenómenos climatéricos extremos.

Em termos de mensagem e estratégia de campanha, as entrevistas foram competentes. Na abordagem à tempestade e seus impactos, Seguro conseguiu evidenciar o seu voluntarismo e solidariedade sem aparentar aproveitamento. Fez referência às alterações climáticas, tópico fácil que reforça algum apoio sem contra-efeito. Sem criticar o Governo, reiterou a necessidade de apurar responsabilidades. Abordou a corrupção e a criminalidade; declarou-se comprometido tanto com a liberdade de mercado como com o acesso aos serviços públicos. Apontou a paz social e estabilidade governativa como prioridades para a sua presidência; e prometeu proactividade para prever e sanar potenciais crises políticas atempadamente.

Foi também à luta com Ventura, que classificou como um risco para a democracia e utilizador de métodos de campanha não democráticos. Associou o seu oponente ao retrocesso; recuperou o trio de Salazares; e afirmou-se como o candidato da união e agregação, por oposição à divisão e ao ódio. Não se esqueceu de invocar o apoio de Eanes – golpe duro para Ventura – e recusou uma postura de oposição ao Governo a partir de Belém. Reconheceu que, sendo eleito, terá de trabalhar com o seu opositor, na condição de líder do Chega; mas afirmou que não daria posse a um partido contrário à constituição. Por fim, defendeu-se da acusação de pretender evitar debates recordando que o próprio Ventura faltou ao debate das rádios nas legislativas de 2022. [1]

No que toca à substância, Seguro conseguiu portanto tocar em muitos pontos importantes sem afastar ninguém, feito nada evidente e merecedor de reconhecimento. No entanto, ao fazê-lo de viva-voz, não pôde evitar expor algumas debilidades do seu perfil. Destas, a mais relevante é uma candura e tibieza fatal na discussão de adversidades, transmitindo uma mundividência quase pueril em que os resultados positivos são fruto exclusivo da vontade e as situações indesejáveis se evitam com boas intenções.

Foi exemplo disto a resposta do socialista a hipotético um cenário de tensão social incontornável em oposição a um Governo. Seguro negou-se a prescrever solução, atirando um débil “porque é que nós vamos para o pior?” e sugerindo que a falar tudo se resolveria (à semelhança, de resto, do que já tinha sucedido no debate da 2ª volta). Mais à frente, à questão “o que é que ainda pode correr mal?” (em relação à corrente eleição), manteve o registo com um “Não, o que eu quero é que corra bem”. Com a diligente e preciosa ajuda da Clara de Sousa, a custo conseguiu admitir que seria uma abstenção elevada pelo clima de vitória antecipada. Sinais negativos quanto à preparação para a adversidade que, em princípio, só não vai enfrentar se não for eleito.

Houve também outros momentos menos bons: Seguro questionou-se se alguém acreditaria na bandeira dos “50 anos de corrupção” do Chega, aparentemente ignorando quase 1.5 milhões de votos em duas eleições consecutivas (ou subscrevendo a realidade alternativa que obliterou a esquerda); caiu na cómica e impressionante atribuição de “85% da desinformação e das falsidades que existem na internet” [2] ao presidente do Chega; e questionou-se em relação ao paradeiro da “evidência científica” que justificasse o alvo de 5% de despesa em defesa da NATO, demonstrando interpretar esta rubrica mais como parte de um equilíbrio estimado através de um modelo do resultado de negociação entre membros da aliança, e pouca familiaridade com os argumentos em que assentou. [3]

Também ensaiou, finalmente, uma linha de pensamento que muito custou a um seu antigo oponente: não excluiu a possibilidade de moderação de Ventura, aproveitando essa boleia para se afirmar como o único dos dois que é candidato real à presidência e demonstrando admitir com alguma naturalidade ser o presidente do primeiro-ministro Ventura – facto de difícil compaginação com o seu alegado cariz anti-democrático.

Em geral, e mesmo que a estratégia contra a desmobilização funcione, tenho dúvidas que a substituição da Quimera pelo criador tenha tido um efeito líquido positivo. Ventura respondeu concedendo, entretanto, novas entrevistas nesta 3ª e 4ª feira – mas esse não é o tópico deste artigo.

[1] Para os mais atentos, aparentou ignorar que não foi apenas a esse debate que André Ventura faltou: também não compareceu ao debate das rádios para as presidenciais de 2021 e ao debate dos partidos sem assento parlamentar para as europeias de 2019.

[2] Referindo-se, presumivelmente, a este artigo

[3] Que, de resto, está descrito aqui e aqui.