(c) 2023 am|dev

(A) :: O silêncio que mata

O silêncio que mata

O que falta não é tecnologia. Temos a tecnologia. O que falta é decisão política de aceitar a realidade incómoda: que sistemas centralizados de comunicações rígidos (como o SIRESP) não funcionam mais.

Manuel Peres Alonso
text

Era quarta-feira, 28 de janeiro. A tempestade Kristin atingiu o continente português com uma fúria que poucos se lembram. Rajadas de vento que ultrapassaram os 208 quilómetros por hora em Leiria. Antenas literalmente arrancadas das suas estruturas. Torres de muito alta tensão — 61 delas — derrubadas como palitos numa região que de repente ficou mergulhada na escuridão. Naquela madrugada e durante todo o dia 28, o caos tomou conta de Leiria, Coimbra e arredores. Quase dez mil incidências reportadas à Proteção Civil. Mais de 850 mil clientes sem eletricidade no pico do temporal. Sete pessoas mortas — confirmadas até agora — pela queda de estruturas, acidentes rodoviários provocados pela meteorologia extrema e ferimentos causados por estilhaços e destroços voadores.

Mas enquanto as equipas de bombeiros, os paramédicos e a Proteção Civil tentavam coordenar o caos no terreno, havia um problema que ninguém podia ver mas todos sentiam: o SIRESP — o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal — falhou. Não numa única noite. Falhou durante dias, desde o pico da tempestade, com intermitências contínuas e críticas que obrigaram as equipas de resgate a recorrerem a métodos alternativos de comunicação. Rádio analógico. Telemóveis pessoais. Tudo menos o sistema que deveria ser a espinha dorsal de todas as operações de emergência em Portugal.

Hoje, 31 de janeiro, três dias depois, cerca de 200 mil pessoas permanecem sem eletricidade. Mais de 60 concelhos estão sob estado de calamidade. O governo admitiu oficialmente que houve “falhas pontuais e intermitências” na rede SIRESP, mas essa admissão tardia não serve de qualquer utilidade para quem passou noites no escuro, para quem esperou por resgate que demorou a chegar, para quem confiou num sistema que falhou exatamente quando era impossível que falhasse.

E há apenas duas semanas, no lado espanhol da fronteira, um cenário paralelo revelava a mesma vulnerabilidade sistémica.

A Mensagem Que Não Chegou

Um homem ferido caminha sozinho pela escuridão. Seis quilómetros de vias de comboio, completamente sozinho, porque ninguém lhe disse que havia outro comboio descarrilado a poucos metros de distância. O seu nome é Jose María Galán e era apenas um dos 100 passageiros do comboio Alvia 2384. Na tarde de 18 de janeiro, em Adamuz, o comboio Iryo 6189 descarrilou e invadiu a via adjacente. Galán caminhava sozinho naquela escuridão e foi o primeiro a informar as autoridades: “Vinha de outro comboio.” A reação do patrulheiro de Guardia Civil foi reveladora. Disse que havia ficado com “a ideia de que só havia um comboio” e que apenas quando o passageiro lhe comunicou a informação é que perceberam a magnitude real do desastre.

Este detalhe revela o escândalo verdadeiro de Adamuz. Não é a colisão em si — um acidente trágico mas estatisticamente previsível. O escândalo é que, durante a primeira hora crítica depois do impacto, as autoridades operavam no escuro absoluto, sem informações básicas sobre a dimensão da catástrofe. Renfe acreditava que havia apenas “feridos por travagem de emergência” do Alvia. Adif estava num silo diferente de informação. O 112 recebia fragmentos de cada um deles. Só às 20:30 — cinquenta e um minutos depois do impacto inicial às 19:39 — é que os primeiros meios sanitários chegaram ao comboio Alvia. Passageiros reportaram que o auxílio havia demorado “quase uma hora” desde o momento do impacto.

Cinquenta e um minutos de silêncio comunicacional em relação ao 112. Vinte minutos entre o impacto e o primeiro contacto com os centros de emergência. Em emergências reais, o primeiro minuto é crítico. Os primeiros dez minutos definem o resultado. Vinte minutos de escuridão informacional representa uma eternidade em termos de trauma e salvamento de vidas.

O Padrão Que Se Repete

Quando se compara com cuidado a tempestade Kristin em Leiria com o acidente de Adamuz em Córdoba, surge uma realidade que é profundamente incómoda: ambos revelam não um defeito ocasional ou uma falha específica, mas sim um padrão estrutural que é sistémico, repetível e previsível. O mesmo padrão que ninguém parece querer nomear publicamente.

Em Portugal, durante os dias 28, 29 e 30 de janeiro, o SIRESP sofreu falhas graves desde o pico da tempestade. O vento extremo literalmente arrancou antenas fixas em concelhos como a Batalha e Leiria. As torres de muito alta tensão derrubadas deixaram centenas de estações base sem energia, esgotando as baterias de reserva em horas. As equipas foram obrigadas a recorrer a métodos alternativos de comunicação. Em Espanha, quando Adamuz teve o acidente, cada entidade operava com informação apenas parcial. Renfe num silo de informação, Adif noutro. O 112 recebendo fragmentos de cada um deles, mas sem a imagem completa.

Ambos os cenários refletem a mesma falha fundamental de design: são sistemas rígidos que se degradam de forma catastrófica quando a infraestrutura primária — as torres, as linhas, os geradores, a rede elétrica — colapsa. São sistemas que foram desenhados para um mundo onde as catástrofes eram ocasionais. Mas não foram desenhados para um mundo onde eventos extremos se tornam mais frequentes e onde a resiliência tem de ser uma característica fundamental, não apenas uma aspiração.

A Ilusão das Soluções Móveis

Sempre que Portugal discute melhorias no SIRESP, surge invariavelmente o mesmo argumento de conforto: existem carrinhas móveis equipadas com geradores que podem acudir aos locais onde as torres fixas falham. É tecnicamente correto que estas carrinhas existem. É absolutamente falso que funcionem como uma solução viável. Durante a Kristin, com as estradas cortadas, o mau tempo extremo e a falta de visibilidade, muitas vezes estas carrinhas nem conseguiram deslocar-se para os locais onde eram mais desesperadamente necessárias. Funcionam enquanto há combustível suficiente, claro. Mas durante uma tempestade severa, as rotas normais de reabastecimento colapsam também elas. Bastaram oito ou dez horas de Kristin para deixar carrinhas imobilizadas, à espera de gasolina que não chegava por via das estradas cortadas.

É a mesma lógica de um hospital que tem um gerador de emergência capaz de sustentar as operações durante quatro horas. Se a rede de distribuição elétrica demorar oito horas a ser restaurada — como aconteceu em muitas zonas de Leiria — o hospital fica no escuro pela metade do tempo. A solução não é melhorar o gerador para durações impossíveis. É ter múltiplos pontos de geração e armazenamento de energia distribuídos geograficamente, cada um deles independente dos outros.

A Pergunta que Ninguém Faz

Por que é que, em 2026, as autoridades de Adamuz não conseguiam comunicar instantaneamente com as equipas de resgate acerca de informação tão básica como “quantos comboios estavam envolvidos”? Por que é que, durante a Kristin, os centros de coordenação regional em Portugal ficaram incomunicáveis de forma contínua desde o dia 28? A resposta técnica é simples e inequívoca: porque ambos os sistemas dependem de infraestruturas terrestres extremamente concentradas — torres de telecomunicações, linhas de transmissão de dados, redes elétricas — que podem falhar todas ao mesmo tempo.

A resposta política é muito mais incómoda: porque ninguém investiu adequadamente em resiliência quando as consequências de uma falha não estavam na primeira página dos jornais nacionais. É mais fácil adiar. É mais fácil dizer que existe redundância quando ela é mais teórica do que real. É mais fácil não questionar o status quo enquanto não há crise. E depois, quando há crise, é demasiado tarde para construir a infraestrutura que deveria ter estado sempre presente.

A Alternativa que Já Existe

Existe uma solução que já está disponível no mercado. Não é especulação. Não é ficção científica. É tecnologia que está pronta agora. Consiste em dois componentes muito simples: um terminal de comunicações por satélite — do tipo Starlink Mini — e uma bateria autónoma de grande capacidade — do tipo Powerwall ou equivalente.

Imagine-se o seguinte cenário: cada quartel de bombeiros, cada posto regional de Proteção Civil, cada centro de controlo ferroviário em Portugal e Espanha teria uma destas unidades. O custo por unidade seria aproximadamente oito mil euros. A bateria teria uma capacidade que permitiria manter comunicações de emergência durante cinco a sete dias sem qualquer recarregamento, funcionando integralmente de forma autónoma. O tempo de ativação seria dois minutos. Durante a Kristin, quando as torres caíram no dia 28 de janeiro, estes terminais estariam já operacionais, transmitindo informação em tempo real de cada local para os centros de coordenação nacional. Durante o acidente de Adamuz, quando o Iryo descarrilou, ninguém teria ficado no escuro absoluto durante a primeira hora crítica. Renfe e Adif teriam tido uma visão clara, quase instantânea, de quantos comboios estavam envolvidos.

“Isto não é publicidade para a Starlink nem para a Powerwall”, preciso ser claro sobre isto. “É simplesmente reconhecimento de um facto: a tecnologia existe. Funciona. É testada. O custo não é proibitivo. Um investimento de quatrocentos mil euros em Portugal — cinquenta nós de comunicação distribuída — custaria menos do que meia semana de manutenção de rotina do SIRESP atual. E a alternativa ao investimento é continuarmos a perder vidas comunicadas em silêncio, continuarmos a operar num escuro informacional enquanto há crises.”

A Lacuna Transfronteiriça que Ninguém Quer Admitir

Existe mais uma dimensão desta história que passa completamente despercebida nos media e nas discussões oficiais: Portugal e Espanha nunca coordenaram adequadamente as suas comunicações de emergência. Teoricamente, têm protocolos bilaterais desde 1996. Existe até uma estrutura chamada Centro de Coordinación de Emergencias — CECAP — que deveria gerir crises que atravessam as fronteiras. Mas na prática, durante Kristin e durante Adamuz, a coordenação foi praticamente nula. Não houve comunicação. Não houve sincronização de esforços. Cada país operou isoladamente.

A zona fronteiriça entre Guarda em Portugal e Badajoz-Plasencia em Espanha é particularmente vulnerável a esta falha. Ambos os lados sofrem com a mesma meteorologia extrema. Ambos têm populações que necessitam de resgate. Mas os sistemas de comunicação de emergência são incompatíveis. As frequências de rádio são diferentes. Os protocolos operacionais são completamente diferentes. O treino dos técnicos é diferente. Se um ferido grave em Guarda durante a Kristin necessitasse urgentemente de internamento num hospital em Badajoz — porque o hospital mais próximo em Portugal estava sobrecarregado ou danificado — como é que a coordenação entre os dois sistemas de emergência se faria? A resposta honesta é: de forma ad-hoc, atrasada, e muito provavelmente sem informação completa acerca dos recursos disponíveis em ambos os lados.

As Mensagens que Se Cruzam e Confundem

Existe ainda uma dimensão paralela a tudo isto que merecia muito mais análise do que tem recebido: a forma como os dois países comunicam o risco ao público durante as crises. Durante a tempestade Kristin, o Instituto Português da Mar e da Atmosfera emitiu avisos meteorológicos de natureza altamente técnica. A Proteção Civil fez recomendações formais. Cada câmara municipal comunicou de forma diferente. O resultado foi mensagens conflituantes, linguagem demasiado técnica para a pessoa comum compreender, e uma falta completa de um canal único de comunicação.

Contraste isto com o que aconteceu em Espanha, particularmente em regiões como a Catalunha. Existe uma aplicação chamada EMERGENCIES.CAT que faz alertas geolocalizado, enviado diretamente para os telemóveis das pessoas que estão na zona de risco, com informação estruturada numa escala de cores simples: amarelo para risco moderado, laranja para risco elevado, vermelho para risco extremo. Um português em Leiria durante a Kristin recebia mensagens como “Possível acumulação de precipitação e rebentação de vaga de situação hidrometeorológica.” Um espanhol em Córdoba recebia: “Risco extremo: permanecer em edifício reforçado, não entrar no rio, aguardar instruções.” A diferença não é apenas linguística. A mensagem simples, clara e estruturada salva vidas. A mensagem técnica deixa as pessoas confusas e indecisos sobre que ações tomar.

O Custo Real do Silêncio

Por que é que tudo isto importa? Por que é que devo estar a escrever sobre isto em primeira pessoa?

Porque em situações de emergência real, a única coisa que não pode, absolutamente não pode falhar é a comunicação entre quem está a coordenar o resgate e quem está no terreno. Um hospital pode estar sobrecarregado. Uma ambulância pode estar distante. Uma estrada pode estar cortada. Uma torre de comunicações pode estar danificada. Mas se quem está a coordenar a resposta não souber com clareza e em tempo real o que está realmente a acontecer, as pessoas morrem por negligência estrutural, não por acaso ou por circunstância. As sete vítimas de Kristin em Leiria não morreram apenas por causa do vento extremo. Morreram também porque, durante a primeira fase da emergência — a fase que define a sobrevivência — o sistema de coordenação não tinha uma visão clara da realidade.

Os feridos de Adamuz não foram adequadamente socorridos apenas por causa da velocidade dos comboios. Foram inadequadamente atendidos também porque, durante a primeira hora crítica, o sistema de coordenação operava com informação incompleta e fragmentada.

O Que Muda Agora? Muito Provavelmente Nada

Nos próximos dias e semanas, os governos de Portugal e Espanha vão fazer o que sempre fazem: vão abrir investigações. Vão emitir relatórios. Vão mencionar “reforços de coordenação” e vão pronunciar as palavras mágicas “investimento em resiliência”. Vão falar de “melhorias estruturais” e de “modernização dos sistemas”. Mas sem uma mudança genuína, sem uma decisão política real de aceitar que os sistemas centralizados e rígidos não funcionam mais numa época onde os eventos extremos são cada vez mais frequentes, em 12 meses o SIRESP estará exatamente onde estava antes. Os protocolos de coordenação transfronteiriça continuarão a ser mais políticos do que operacionais.

O que falta não é tecnologia. Temos a tecnologia. O que falta é decisão política de aceitar uma realidade incómoda: que sistemas centralizados rígidos não funcionam mais. Que há que distribuir a inteligência e a capacidade de comunicação por toda a rede, não apenas concentrá-las num ponto central. Que resiliência verdadeira significa redundância, significa ter múltiplos caminhos para a mesma informação chegar onde é necessária, significa investir em capacidade que será usada raramente mas que é absolutamente crítica quando é necessária.

A escolha é simples e estrutural. Ou continuamos com o SIRESP atual, eventualmente melhorado com carrinhas móveis — uma solução que é lenta, cara, e que colapsa quando mais importa. Ou investimos em arquitetura distribuída, com nós de comunicação autónomos espalhados pelo território, cada um deles capaz de funcionar independentemente dos outros — uma solução que é mais barata no longo prazo, imensamente mais resiliente, e que funciona quando importa.

A Pergunta que Deveria Ser Obrigatória

Nos próximos dias, as autoridades vão fazer conferências de imprensa. Vão falar de comissões de investigação. Vão mencionar “lições aprendidas”. Mas há uma pergunta que ninguém está a fazer e que deveria ser colocada a cada funcionário e a cada político responsável pela proteção civil e pelas comunicações de emergência:

Porque é que, durante a tempestade Kristin que atingiu Leiria no dia 28 de janeiro, dezenas de operações de resgate coordenadas por todo Portugal funcionaram com comunicações intermitentes ou praticamente inexistentes?

E porque é que, em 2026, um homem ferido teve de caminhar sozinho seis quilómetros no escuro absoluto para informar as autoridades de segurança da existência de um segundo comboio acidentado?

A resposta técnica a ambas as perguntas existe. Custa pouco. Funciona. Está pronta agora, hoje, para ser implementada.

O que falta é a coragem política para admitir que os sistemas atuais não funcionam e que a mudança é urgentemente necessária.

O autor é Doutorado em Engenharia Física. Trabalhou em reactores nucleares experimentais de ponta, onde qualquer anomalia deve ser detectada em fracções de segundo — experiência que lhe permite compreender que em emergências, cada milissegundo determina a diferença entre a vida e a morte. Este artigo baseia-se em análise técnica de comunicações de emergência, investigação de eventos recentes em Portugal e Espanha, documentos oficiais da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), declarações do Ministério dos Transportes espanhol, cronologias publicadas pela Cadeia Ser, testemunhas diretas de Adamuz, relatórios da Proteção Civil portuguesa, e discussão com especialistas em sistemas críticos e resiliência.