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João Canijo: Bem Viver/Viver Bem

Deixou um legado. João Canijo Bem Viveu, e Viveu Bem. É preciso pegar nele.  Deixou dois filmes em pós-produção.

Tiago Roma Almeida
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Ao João Canijo, conheci-o e à sua obra, estávamos nós na primeira metade de 2023. Eu estava no 11.º ano e filmava ainda o meu primeiro filme: a curta-metragem Falamos Quando Acabar, a primeira parte do trabalho desenvolvido na disciplina de MACS e que deu início a toda a aventura de filmar no secundário. Começava naquela altura a não apenas saber o nome de quem intervinha no cinema e, em particular, no cinema português, mas a conhecer também a sua obra. Foi, por isso, com enorme entusiasmo que acompanhei naquelas semanas a estreia do Canijo no Festival de Cinema de Berlim, um dos mais importantes no cinema europeu e mundial e não foi menor o espaço que ocupou na minha mente durante o último dia de rodagem da curta supramencionada – era no dia seguinte que seriam entregues os prémios do festival e que a edição desse ano terminava.

No dia seguinte ao fim da produção do meu primeiro filme, a 25 de fevereiro do mesmo ano, foi com alegria que vi o Canijo discursar com o Urso de Prata na mão. Para um miúdo que desde muito cedo quis fazer filmes, filmar no secundário e ver portugueses subirem palcos daqueles (lembremo-nos também do Miguel Gomes que, no ano seguinte, triunfava belissimamente em Cannes com o Grand Tour) significava imenso e, secretamente, uma luz que anunciava boas novas. Lembro-me perfeitamente de acompanhar tudo o que se dizia, confessava e comentava sobre a presença portuguesa em Berlim e, ainda, sobre o que o próprio tinha a dizer sobre o feito.

Chegou a Berlim com o seu Magnum opus: o díptico Mal Viver/Viver Mal. Eu acompanhei de tal forma o percurso do filme que, não tendo sido possível que o visse no cinema, consegui na altura convencer o meu pai a alugá-lo para mim na box da NOWO, a nossa operadora da altura. Não foi por acaso que, a 5 de junho de 2023, na véspera do meu amigo Tiago R. Santos visitar a Secundária de Estarreja, quando fizemos aquelas luminosas exibições privadas às duas turmas de Ciências do mesmo ano que nós (na altura, 11ºA e B), eu tinha preparado, além de excertos do trabalho do Tiago para divulgar o realizador que ali estaria no dia seguinte, trabalhos de outros realizadores portugueses que estivessem a dar que falar. Mostrei-lhes o trailer do Mal Viver e do Viver Mal. Nas mesas que tinha juntado entre a plateia e o humilde palco do auditório da secundária, para expor alguns recortes de revistas, jornais e ainda, de artigos (textuais ou materiais) das curtas que lhes estávamos a exibir, deixei aberto o exemplar do Ípsilon, que estava sempre abandonado na biblioteca da secundária que ainda hoje guardo e que trazia sempre para casa comigo, que continha uma retrospetiva e reportagem ao realizador na altura recém galardoado em Berlim e ao seu díptico. Lembro-me de falar sobre ele numa aula de Filosofia, no mesmo ano, a pedido da professora Rosa Mendonça porque queria mostrar aos meus colegas que Portugal não era grande só no futebol.

Involuntariamente, o seu trabalho acabou por influenciar também as duas curtas metragens que produzia enquanto o nome “João Canijo” ecoava fortemente. Lembro-me de ter descoberto a banda sonora que veste o trailer do meu Falamos Quando Acabar nos trailers do díptico, a majestosa Opus 36 Enigma das Variações sob um Tema Original do Andrew Litton com a Royal Philharmonic Orchestra.

Falar de João Canijo e do seu inesperado desaparecimento, significa falar também da saída de cena de uma determinada ideia de cinema. A forma como escrevia o argumento de cada filme, tornando um ato muitas vezes solitário, em algo comunitário, imaginando situações de modo a criar e só depois trabalhar e fechar o texto com as atrizes, davam-lhe a marca de um cinema fortemente marcado pelo teatro e pela humanização dos personagens, um caso de estudo explorado no documentário que a RTP2 emitiu no passado dia 31 de janeiro.

O nosso Bergman. Quando tanto se fala – sempre se falou, na verdade – sobre a péssima qualidade do género da telenovela, referi-lo a propósito de uma análise, ainda que superficial, à obra de um dos realizadores mais importantes da contemporaneidade cinematográfica, pode parecer um ultraje. O que é certo, apesar de tudo isso, é que Canijo provou a verdade daquela ideia que há tantos anos discuto, sobre o género de um conteúdo audiovisual não esgotar e/ou condicionar a qualidade do mesmo conteúdo audiovisual (série ou filme, não importa). Isto porque a singularidade do cinema do João Canijo reside precisamente na mestria que provou ao atribuir ao género da telenovela uma natureza e uma aura cinematográficas. Um drama familiar já não é apenas um drama familiar carregado de clichés para encher, mas é sim, um conjunto de verdadeiras reflexões e análises sobre o comportamento humano extrínseco e intrínseco. Na obra do Canijo, o drama tem profundidade filosófica e os conflitos familiares não são vazios e desprovidos de humanidade, antes, encontram aí importância e ganham várias camadas para análise.

Sangue Do Meu Sangue fez-me confusão. Inquietou este que vos escreve. Tive nojo do filme em várias partes, talvez fruto do novo mundo, que ignora a existência daquela realidade – talvez seja bom sinal, não sei. O que se nota nesse filme é que João Canijo aprendia ainda a nadar, ainda à procura da sua voz e do seu “eu” cinematográfico, apesar de já se notarem alguns dos traços que hoje todos atribuímos ao seu cinema.

Li algures, e finalmente termino, que o próprio Canijo acreditava começar a tornar-se ele próprio com a realização de Mal Viver/Viver Mal. Não é por acaso. É ali que nada mesmo e navega. Há nessa obra muitos mergulhos. Muitos. Mas não apenas pequenos mergulhos à superfície. Mas um mergulho. E depois o naufrágio. E depois o náufrago. E só depois o eco do náufrago, acompanhado, claro, pela magnífica direção de fotografia da Leonor Teles que lhe estende os braços, disso não haja dúvidas. E depois ainda, ainda mais silêncio. E é depois do silêncio que nasce o espanto, e a própria afirmação do poeta que, pela ficção, espelhou a identidade do país de hoje. E é depois, e por isso, que ecoa e regressa. Engenho e Arte. Ensinou-me que é preciso criar mais Novidade e ainda mais Estranheza… ou não saímos do mesmo. E isso não é cinema.

Deixou um legado. João Canijo Bem Viveu, e Viveu Bem. É preciso pegar nele. Deixou dois filmes em pós-produção. É bom saber que, ainda que postumamente, poderá voltar a falar connosco uma última vez.