Um ferrabrás de caserna classificou de atrasados mentais os votantes do candidato presidencial André Ventura. A estalar de mal disfarçado gozo por sub-repticiamente afirmar a sua superioridade, Sérgio Sousa Pinto mostra-se, em tais arroubos de virilidade, uma coquette que se arrebica no seu boudoir; inquieta e esperançosa, mete-se a fantasiar com a sensação que causará ao entrar no salão de baile. Em vez de tentar compreender, o socialista limita-se a poser pour la galerie. Já não analisa, insulta – olhando em redor. Apesar da inanidade intelectual das suas palavras, há nelas um pensamento. Um pensamento que não precisa de ser expresso, de tão evidente é, e que sustenta o desabafo presto con fuoco do socialista. Afirmou que «se o eleitorado acha que o Partido Socialista é um grande perigo e o André Ventura não é, então o eleitorado é atrasado mental e não vale a pena perdermos tempo porque não se educam atrasados mentais, não é? Só o debate racional pode permitir alguma coisa.» O jornalista ainda tentou pôr água na fervura com um prudente «podemos mudar de tom, Sérgio», mas o problema não é o tom, é a substância. Nessa frase, Sérgio Sousa Pinto guarda para si o lugar de modelo e o estatuto de professor: os outros hão-de pensar como ele – isso é que é educação. Leva a cabo uma despolitização, que opera substituindo a política pela pedagogia, fazendo entrar menores dependentes, desprovidos de capacidade política, para o lugar dos adultos autónomos e responsáveis, que aquela supõe. O paternalismo é, aliás, uma perversão política cuja plausibilidade só se sustenta como palavra de ordem; se analisada, mostra-se contraditória. O pai, ou professor, não tem por missão zelar por um amadurecimento rígido e ossificado de antemão. O seu fito consiste em tornar autónomo e responsável um ser que ainda não o é, em poucas palavras, criar seres livres. E a liberdade não tem imagem definida que se possa comparar objectivamente com um qualquer critério fixo, é antes novidade radical. Ora, a faculdade de formar a sua vontade e os seus juízos livre e espontaneamente, sem condicionalismos externos, é a condição de possibilidade da existência de cidadãos e, eo ipso, da sua coexistência, o que precisamente gera conflitos, rivalidades, disputas, mas também entendimento, continuidade, cooperação. Uma coisa não vai sem a outra.
Ora, a disjunção exclusiva em que se enreda Sérgio Sousa Pinto expõe aos olhos de todos, depois do mau político, o mau pedagogo. Começa por reduzir o cidadão a um aluno, em seguida recusa a liberdade do aluno, que, ou concorda com ele, professor, ou é um atrasado mental, ficando de fora – de uma vez por todas – da esfera da humanidade plena. De subcidadão passa a sub-racional, – sub-homem, portanto – objecto de tratamento e cuidados terapêuticos continuados, incapazes de o devolver à plenitude humana. Soberana, esta nova pedagogia, a pedagogia do opressor, decide quem acolhe se igual – os seus eleitos –, e quem expulsa do mundo humano, racional, o mundo político, se diferente – os seus réprobos.
Montou-se assim um cenário funesto. Dada a ausência das inibições a que se costumava chamar educação, Sérgio Sousa Pinto não passa do caso em que é visível o esqueleto da coisa. A eliminação da liberdade – ou reeducados, ou anormais – de todo um grupo de cidadãos, e por isso de eleitores, permite externalizar o mal, concentrando-o numa figura diabólica, responsável único de um mal pelo mal, e, nessa medida, um mal irracional. Já não é necessário a nenhum adversário político de Ventura dirigir a palavra – o órgão da política – aos seus eleitores, decretados inexistentes; resta-lhes tão-somente a acusação perpétua que garante a inocência perpétua dos seus acusadores. A sobrerepresentação da virtude – seja na forma de espasmos epiléticos de indignação, seja no figurino da escolha óbvia, corriqueira, mas que não deixa de exigir de forma aparentemente paradoxal, um elucidativo double bind, o devido sublinhado com pancadas no gongo – como que circula entre todos esses adversários enojados um véu que esconde o segredo que cada qual advinha e supõe em todos os outros sem que ninguém o possa formular em público. O fortissimo da boca para fora serve apenas para não olharem para dentro.